Entre os caminhos da Serra dos Candeeiros, a Rede Nacional PAC acompanhou, durante uma manhã de junho, o quotidiano da pastorícia na Terra Chã, numa visita dedicada ao conhecimento das práticas locais, à valorização dos saberes tradicionais e ao papel desta atividade na gestão sustentável do território rural.
A iniciativa enquadra-se na celebração do Ano Internacional das Pastagens e dos Pastores 2026, proclamado pelas Nações Unidas e promovido pela FAO – Food and Agriculture Organization of the United Nations, que pretende dar maior visibilidade ao contributo dos pastores e das pastagens para a biodiversidade, a segurança alimentar, a resiliência dos territórios e a preservação de modos de vida profundamente ligados à paisagem.
Muito antes dos produtos chegarem à mesa, existe um trabalho diário feito de cuidado, conhecimento e ligação ao território. A pastorícia começa nos gestos simples de quem conhece os animais, acompanha o seu ritmo, identifica os melhores percursos e conduz o rebanho de acordo com a vegetação, o clima e a experiência acumulada ao longo de gerações.
Durante a visita, foi possível seguir de perto esse quotidiano, desde os primeiros momentos no estábulo até à saída do rebanho para a serra. Entre o som dos badalos, os caminhos de pedra e a vegetação característica da Serra dos Candeeiros, a relação entre os animais, a paisagem e os pastores tornou evidente a importância desta atividade para a manutenção de territórios vivos, cuidados e produtivos.
A visita contou com o acompanhamento do Sr. António e do Sr. Paulo, pastor de longa experiência e profundo conhecedor da Serra dos Candeeiros, dos seus percursos, das plantas e do comportamento das cabras. Participou também Miguel, pastor de uma nova geração, que durante a caminhada conduzia uma visita guiada a um casal holandês, partilhando conhecimentos sobre a flora local, a dinâmica do rebanho e a forma como a pastorícia se cruza hoje com experiências de turismo de natureza e de valorização do território.
A pastorícia continua a desempenhar um papel essencial na gestão da paisagem. A passagem dos rebanhos contribui para o controlo da vegetação, para a manutenção de áreas abertas, para a valorização dos recursos endógenos e para o equilíbrio entre agricultura, natureza e atividade humana. Trata-se de uma prática sustentável, construída a partir do conhecimento direto do território e da capacidade de adaptação às suas condições.
Esta ligação entre pastorícia, paisagem e identidade local é também indissociável da Dieta Mediterrânica. Para além dos produtos que resultam destes sistemas, como o queijo e outros alimentos associados à produção extensiva, importa reconhecer o papel do pastor na construção e preservação das paisagens mediterrânicas. São estas práticas que ajudam a manter mosaicos agrícolas e naturais, a valorizar recursos locais e a preservar formas de viver, produzir e consumir profundamente ligadas à cultura rural portuguesa.
A preservação das raças nacionais assume, neste contexto, uma importância particular. Adaptadas ao território, ao clima, à vegetação e às condições locais, estas raças representam um património genético, produtivo e cultural que importa proteger. A sua continuidade depende da valorização dos sistemas de produção que lhes dão sentido, do reconhecimento do trabalho dos criadores e da criação de condições para que estas atividades possam continuar a existir.
Nas palavras dos pastores, a continuidade da pastorícia exige também inovação e capacidade de adaptação. A melhoria das condições de trabalho, a valorização dos produtos locais, a articulação com o turismo rural e de natureza, a transmissão de conhecimento e o envolvimento de novas gerações foram apontados como fatores essenciais para tornar esta atividade mais atrativa para os jovens.
Num tempo em que são cada vez menos os que seguem esta profissão, torna-se ainda mais importante reconhecer o valor de quem mantém vivos estes saberes. A pastorícia não é apenas uma atividade produtiva. É uma forma de cuidar da paisagem, preservar biodiversidade, manter tradições, proteger raças nacionais e reforçar a identidade dos territórios rurais.
A experiência da Terra Chã mostra como o conhecimento acumulado por quem vive e trabalha na serra pode dialogar com novas formas de dinamização económica e social. Preservar a pastorícia é também preservar paisagens, produtos, saberes, modos de vida e uma relação equilibrada entre agricultura, natureza e comunidade.
Esse trabalho prolonga-se também nas atividades desenvolvidas pela Cooperativa Terra Chã, através de experiências de turismo pedagógico e de natureza que aproximam os mais novos do Rebanho Comunitário, da apicultura, da silvopastorícia e da biodiversidade. O apadrinhamento do rebanho, com um contributo anual de 80 euros, constitui outra forma de apoiar a preservação da natureza e a limpeza florestal realizada pelos animais, reforçando a ligação entre a comunidade, os visitantes e o território.
Saiba mais informações sobre as experiências disponíveis ao público, como ‘Pastor por uma manhã’, ‘Visita às Grutas de Alcobertas’, entre outras, aqui.
O artigo foi publicado originalmente em Rede Rural Nacional.















































