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drone com cãmara a voar

Tecnologia LiDAR: mapeamento da floresta portuguesa a três dimensões

por Florestas.pt
03-06-2026 | 17:09
em Produção e conservação, Últimas, Notícias inovação, Blogs
Tempo De Leitura: 9 mins
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O mapeamento do território com recurso à tecnologia LiDAR altera profundamente a qualidade e fiabilidade da informação espacial que apoia o ordenamento do território e a gestão da floresta. Para aprofundar os benefícios proporcionados por este retrato a três dimensões, o Florestas.pt falou com Alexandre Sarmento, especialista em sistemas de informação geográfica e deteção remota.
03 de Junho 2026

Em abril de 2024, a Direção-Geral do Território (DGT) começou a realizar o primeiro levantamento aerotransportado do território com tecnologia LiDAR – Light Detection And Ranging. Cerca de um ano depois, com a recolha de dados concluída, novos mapas tridimensionais (3D) detalhados de Portugal continental começaram a desenhar-se.

Em 2026, estes mapas e os dados que lhes servem de base (nuvens de pontos e modelos digitais) estão disponíveis para consulta, de forma gratuita, cobrindo praticamente todo o território continental.

Este investimento, liderado pela DGT e financiado pelo Programa de Recuperação e Resiliência (PRR), abriu portas à quantificação da estrutura horizontal e vertical do coberto florestal nacional, com recurso a sistemas de informação que apoiam a decisão a diferentes escalas – da árvore ao território.

Para Alexandre Sarmento, este é um dos projetos mais disruptivos para a gestão do património natural do país, porque “sem informação espacial (e estatística) fiável, rastreável e auditável, a implementação de políticas corre o risco de se basear em perceções enviesadas ou em generalizações, tornando-se difícil tomar decisões informadas e monitorizar o sucesso das políticas de ordenamento a longo prazo”.

No sector florestal, em que a eficácia dos instrumentos de gestão é frequentemente limitada por uma deficitária articulação entre entidades e por uma escassa estrutura de dados de suporte à decisão, esta informação apoia um novo paradigma de ordenamento e gestão, refere.

Embora a disponibilização destes dados represente um avanço significativo, o seu verdadeiro impacte dependerá da capacidade de os tornar acessíveis e utilizáveis por todos, sublinha Alexandre Sarmento. Usar estes dados implica a conversão de ficheiros através de ferramentas SIG e alguma edição, pois os originais encontram-se em formatos técnicos – GeoPackage (ficheiros com extensão .gpkg) e nuvens de pontos (ficheiros com extensão .las) – que não abrem nos programas de computador comuns, ou seja, requerem software específico.

Para quem nunca usou ferramentas de base geográfica, a forma mais direta e simples de começar a utilizar esta informação é o Visualizador LiDAR Portugal, acessível em https://portugal3d.dgterritorio.gov.pt/. Esta plataforma funciona diretamente no navegador de internet (como se fosse o Google Maps), permitindo “navegar” em 3D sobre a área de território que se pretende, sem necessidade de instalar software nem de descarregar ficheiros. Isto já permite, por exemplo, visualizar o relevo em 3D, compreendendo onde estão as encostas e vales ou as linhas de água e observar a estrutura da vegetação, a sua distribuição e densidade.

“Portugal tem agora a oportunidade de liderar a Gestão Florestal 5.0, garantindo que a tecnologia se traduz em valor real para o território, para os proprietários e para a conservação do património natural. Porque, em última análise, as oportunidades são apenas limitadas pela nossa capacidade de as aproveitar.”

Tecnologia LiDAR promove uma visão transformadora da floresta

“A tecnologia LiDAR altera radicalmente a forma como vemos a floresta. Ao contrário de outras metodologias convencionais, como o inventário florestal por amostragem ou a fotogrametria por imagem, o sensor LiDAR aéreo emite um feixe laser que penetra nos espaços entre a folhagem e atinge o solo. O feixe é depois devolvido ao sensor, que regista a distância dos objetos. São estas medições que permitem mapear a estrutura do coberto florestal ou arbustivo e obter uma imagem detalhada e completa da sua arquitetura”, explica o especialista.
Como funciona a captação por sensor LiDAR

A possibilidade de extrair dados dendrométricos fundamentais para a gestão da floresta – desde a dimensão das árvores individuais à biomassa de um povoamento florestal – faz com que os mapas tridimensionais agora disponíveis possam promover melhorias em múltiplas vertentes. Por exemplo:

  • Defesa da floresta contra incêndios rurais, pela quantificação de volume de combustível acumulado ou a monitorização da rede viária de combate aos incêndios;
  • Otimização de plantações florestais, pela possibilidade de produzir mapas de corte com volumes rigorosos por talhão, agilizando o planeamento e as operações logísticas e comerciais;
  • Recuperação de áreas degradadas, pelo conhecimento e contagem das árvores, a avaliação do volume de madeira caída ou ardida e a possibilidade de modelação do terreno para avaliação do risco de erosão e derrocadas;
  • Gestão dos Recursos Naturais, com recurso à modelação hidrológica para proteção de linhas de água ou gestão e conservação de habitats.

A principal limitação desta caracterização tridimensional da floresta é ser estática no tempo – relativa a um período específico, que não reflete as transformações ocorridas depois dos voos de mapeamento: neste caso, é um retrato volumétrico e estrutural dos diferentes estratos que compunham a floresta em 2024 – 2025.

Para ultrapassar esta limitação, “é possível fazer uma atualização pontual e local com recurso ao inventário florestal clássico, aos modelos de crescimento, às imagens aéreas, a outros levantamentos com tecnologia LiDAR – à escala municipal ou da propriedade – ou a muitas outras ferramentas que já fazem parte do quotidiano do ordenamento e da gestão florestal”.

Do conceito à prática, a diferentes escalas e níveis

Ao passarem a estar disponíveis imagens de ocupação do solo em 3D, que dão a conhecer a volumetria (em vez de imagens a duas dimensões, que dão a conhecer a área) e ao cruzar esta base de dados espacial com os modelos de produção do Inventário Florestal Nacional, a Carta de Ocupação de Solo ou outros instrumentos de gestão territorial, a valorização do património ganha um rigor quantificável que reduz o risco e aumenta a sustentabilidade do sector em várias escalas e funções.

Alexandre Sarmento dá alguns exemplos ilustrativos da aplicação da tecnologia LiDAR a estas diferentes escalas:

  • Escala Nacional e Regional: Suporte a políticas públicas, inventário florestal nacional (IFN) ou monitorização de créditos de carbono.
  • Intermunicipal e Municipal: Apoio aos Planos Municipais de Defesa da Floresta (PMDFCI) e Ordenamento do Território (PDM).
  • Local: Apoio a estudos de impacte ambiental (EIA), levantamento de espécies protegidas (segundo a metodologia aplicada pelo Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas – ICNF) ou cartografia de habitats
  • Propriedade ou Unidade de Gestão Florestal: Permite ao proprietário a gestão da sua área florestal e monitorizar cada árvore como um ativo individual, viabilizando a silvicultura de precisão.

“A transição para este modelo tridimensional de larga escala resolve também a incerteza associada à quantificação por amostragem, que é tradicionalmente usada nos inventários”. Isto não significa que o inventário florestal clássico esteja ultrapassado, porque ele permite um retrato rigoroso, completo e fidedigno das existências arbóreas e arbustivas, incluindo uma classificação qualitativa e de observação direta nas zonas de amostra.

A vantagem está, para Alexandre Sarmento, na sua combinação com o mapeamento remoto feito com tecnologia LiDAR, que permite mapear a estrutura vertical e horizontal de centenas de hectares por dia, extraindo métricas de forma semiautomática com um elevado grau de certeza e precisão. “Isto traz ao processo um factor de escala sem precedentes, uma redução significativa do custo por hectare e proporciona aos dados recolhidos um nível de detalhe, confiança e precisão que contribui diretamente para a valorização dos ativos florestais”.

O valor estratégico que a informação espacial traz à gestão florestal não termina com o seu retrato 3D. “Devemos considerar uma pirâmide de valor com três níveis”:

– Nível base. Após a aquisição da informação geoespacial recurso a LiDAR, são extraídos os primeiros produtos cartográficos. Nesta fase é possível obter:

Modelo Digital de Terreno (MDT), que representa a topografia do terreno, ou seja, a altura do solo desprovida de qualquer outro elemento;
Modelo Digital de Superfície (MDS), que capta a cota do topo de todos os elementos acima do solo, como a crista das copas das árvores e as infraestruturas.

– Nível intermédio. Neste nível intermédio, a informação de base é utilizada para medir, estimar e converter dados geoespaciais em métricas concretas e indicadores que permitirão caracterizar o coberto florestal em várias camadas temáticas:

  • Biofísica, como dados de fito-volume (carbono/combustível) e biomassa;
  • Estrutural, com contagem de árvores, conhecimento sobre as suas densidades, heterogeneidade e estratificação vertical;
  • Estatística, para validação de parcelas inventariadas por métodos clássicos;
  • Ecológica, com identificação de habitats, de recursos a proteger e também de riscos, identificando, por exemplo, locais onde a verticalidade da vegetação possa elevar o risco de incêndio de copas.

Mapeamento LiDAR – vários níveis de conhecimento e decisão

– Nível de topo. Os resultados da análise combinada de múltiplas variáveis apoiam a tomada de decisão a diferentes escalas e entre diferentes sectores. Neste nível, as métricas obtidas são integradas e cruzadas com bases de dados financeiras, legais e ambientais para suportar decisões estratégicas e de longo prazo. Neste sentido, são uma mais-valia em áreas como:

  • Certificação de créditos de carbono, com transparência e rigor centimétrico;
  • Valorização de madeira e biomassa, em resultado de auditoria de ativos para transações comerciais;
  • Conservação, com o desenvolvimento de modelos de suporte à gestão do capital natural;
  • Gestão de risco, com cartografia de interface urbana-florestal e de apoio a planos de defesa da floresta.

A importância de tornar os dados acessíveis e utilizáveis

Para que este potencial se materialize, as entidades envolvidas na Gestão e Ordenamento Florestal (DGT, ICNF, SGIFR, AGIF, entre outros) deverão desempenhar um papel fundamental, garantindo que os dados LiDAR e as métricas derivadas estão acessíveis e são utilizáveis para o apoio à decisão transversal, criando uma base de comunicação assente em dados fidedignos e atualizados, adverte Alexandre Sarmento.

“Algumas plataformas, como o ForestStats.pt, já iniciaram este caminho de democratização da informação, mas o futuro reside na integração desta componente tridimensional em todos os sectores que recorram à informação geográfica para o apoio à tomada de decisão”, acrescenta.

“A tecnologia LiDAR altera radicalmente a forma como vemos a floresta. Ao contrário de outras metodologias convencionais, como o inventário florestal por amostragem ou a fotogrametria por imagem, o sensor LiDAR aéreo emite um feixe laser que penetra nos espaços entre a folhagem e atinge o solo. O feixe é depois devolvido ao sensor, que regista a distância dos objetos. São estas medições que permitem mapear a estrutura do coberto florestal ou arbustivo e obter uma imagem detalhada e completa da sua arquitetura”, explica o especialista.

O especialista exemplifica a importância do acesso à informação consolidada no caso do Mercado Voluntário de Carbono (MVC), cujo funcionamento assenta na medição fundamentada dos créditos de carbono e na capacidade de tornar rastreável e auditável o cálculo destes créditos que são aceites para transação. “Embora o enquadramento preveja a utilização de produtos cartográficos de larga escala, ainda são usadas metodologias baseadas em estimativas indiretas, perdendo-se a oportunidade de estabelecer a tecnologia LiDAR e a deteção remota como pilares de um modelo de alta fiabilidade”.

A integração sistémica destas métricas estruturais diretas é um fator de confiança crítico para os mercados de carbono: “ao quantificarmos o sequestro de carbono com rigor centimétrico, valorizaríamos efetivamente o ativo de quem investe na sustentabilidade”, sublinha Alexandre Sarmento. Para ele, superar a escala generalista das ferramentas tradicionais (incluindo o uso de imagens satélite de baixa resolução) é o passo necessário para posicionar Portugal como um exemplo de integridade e transparência no mercado internacional de capitais naturais.

O artigo foi publicado originalmente em Florestas.pt.

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