Basta sintonizar qualquer canal de televisão estrangeiro para perceber o que realmente acontece na Europa. Digo “estrangeiro” porque, por cá, as imagens da revolta chegam-nos a conta-gotas, como se houvesse medo de contagiar a opinião pública.
Mas a verdade não se esconde: de Madrid a Varsóvia, passando por Bruxelas e Paris, os agricultores perceberam uma lição simples, mas brutal: na política atual, quem não faz barulho, não existe.
Em Portugal, vivemos numa realidade paralela. Estamos na antecâmara da definição da próxima Política Agrícola Comum (Pós-2027) e sob a ameaça iminente do acordo Mercosul. No entanto, enquanto lá fora se luta pelo futuro, em Lisboa reina um silêncio institucional ensurdecedor.
A pergunta impõe-se: Porque têm a CAP e a CONFAGRI medo da rua?
A Lição da Europa: Quem luta, ganha
Dizem-nos muitas vezes, em reuniões fechadas, que o protesto de rua é “radicalismo” e que a via correta é o “diálogo institucional”. A realidade dos factos desmente essa tese.
Olhemos para os nossos vizinhos. Nos últimos tempos, agricultores de França, Espanha, Bélgica, Alemanha, Polónia, Itália, Roménia, Grécia e Países Baixos encheram as estradas de tratores. Não foram passear; foram exigir linhas vermelhas para o futuro. E o resultado está à vista:
- Em França e na Bélgica, a força dos bloqueios obrigou a Comissão Europeia a recuar na Lei dos Pesticidas e a travar a assinatura imediata do Mercosul.
- Em Espanha, a ASAJA e a COAG conseguiram o reforço da Lei da Cadeia Alimentar e a manutenção dos subsídios ao gasóleo.
- Na Alemanha, a pressão da rua travou o fim imediato das isenções fiscais.
- Em Bruxelas, a simplificação das regras de condicionalidade só aconteceu porque os tratores derrubaram as barreiras do Bairro Europeu.
Nenhum destes ganhos foi obtido com “pareceres técnicos” enviados por email. Foram conquistas arrancadas a ferros no asfalto.
A Negociação da Próxima PAC: O Silêncio é Suicídio
Perante isto, a postura portuguesa é incompreensível. A CAP, apesar da excelência técnica dos seus quadros, parece presa a uma “diplomacia de gabinete”. A CONFAGRI mantém uma passividade histórica.
Acreditar que vamos garantir um orçamento robusto e travar as loucuras ambientalistas da próxima PAC apenas com reuniões simpáticas e “sentido de Estado” é uma ingenuidade perigosa. Se continuarmos assim, o destino está traçado: vamos continuar a ter de aceitar o que nos dão, sem ter uma palavra a dizer, sem pressionar e sem força negocial.
Um Aviso aos Agricultores: Abram os Olhos
Mas a culpa não morre apenas nas direções das Confederações. É urgente que os próprios agricultores de Portugal abram os olhos.
O comodismo paga-se caro. Quem acha que pode ficar no sofá, à espera que outros resolvam os problemas, está a assinar a sua própria sentença.
Se os agricultores não exigirem aos seus dirigentes uma postura de combate, se não se mobilizarem e se continuarem a aceitar tudo impavidamente, então não se podem queixar depois.
Não se queixem quando a carne do Mercosul entrar sem controlo; não se queixem quando a próxima PAC vos cortar mais 20% ou 30% das ajudas. Quem não luta quando é tempo, perde o direito a lamentar-se quando é tarde.
Conclusão: Menos Política, Mais Ação
É fundamental que os atuais dirigentes da CAP e da CONFAGRI tenham consciência do peso histórico que carregam. Se deixarem cair a agricultura nacional por falta de coragem, os seus nomes ficarão para sempre ligados a esse desastre.
O tempo das conversas de corredor acabou.
O que o setor exige hoje é claro: menos política e mais ação.
Se a CAP e a CONFAGRI têm medo da rua, que dêem lugar a quem não tem. Porque a próxima PAC não se define nos gabinetes; define-se na capacidade de luta que mostrarmos no terreno. E a história não perdoa a quem se rende sem combater.
Direção da APROSERPA















































