Fui recentemente contactado pelo programa TechLaunch 2025 da Universidade de Austin, no âmbito de uma iniciativa conjunta com a Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT), para partilhar uma reflexão sobre as dificuldades que o setor agrícola português enfrenta no processo de digitalização.
A experiência permitiu-me divulgar algo que há muito observo no terreno:
a tecnologia avança a um ritmo impressionante, mas a agricultura continua a tropeçar nas mesmas traves-mestras; as estruturais, as humanas e as institucionais, que a impedem de dar o salto digital. “A promessa tecnológica”, a digitalização da agricultura é há anos apresentada como o futuro inevitável. Mas entre a retórica e a realidade há um fosso profundo.
𝟭. 𝗔 𝘁𝗿𝗮𝘃𝗲 𝘁𝗲𝗰𝗻𝗼𝗹ó𝗴𝗶𝗰𝗮
Em muitas regiões agrícolas, o 4G ainda falha e o 5G é uma miragem.
Sem conectividade, não há recolha nem transmissão de dados, que é a base da chamada “agricultura de precisão”. A isto soma-se ainda a falta de interoperabilidade entre plataformas e equipamentos, que cria sistemas isolados e incapazes de comunicar.
𝟮. 𝗔 𝘁𝗿𝗮𝘃𝗲 𝗵𝘂𝗺𝗮𝗻𝗮.
A literacia digital agrícola é reduzida e a formação prática quase inexistente.
Muitos agricultores olham para a tecnologia com desconfiança porque raramente lhes é apresentada de forma acessível e útil. Falta demonstração, acompanhamento e tradução: alguém que transforme o digital em linguagem de campo.
𝟯. 𝗔 𝘁𝗿𝗮𝘃𝗲 𝗲𝗰𝗼𝗻ó𝗺𝗶𝗰𝗮
A inovação custa caro e o retorno é incerto. Os apoios públicos existem, mas estão dispersos, e as linhas de financiamento não se ajustam à realidade agrícola. O risco é claro: uma agricultura a duas velocidades, uma moderna e conectada; outra, tradicional e marginalizada.
𝟰. 𝗔 𝘁𝗿𝗮𝘃𝗲 𝗶𝗻𝘀𝘁𝗶𝘁𝘂𝗰𝗶𝗼𝗻𝗮𝗹
PEPAC, PRR, Portugal Digital e programas europeus coexistem sem coordenação. Falta uma estratégia nacional de maturidade digital agrícola, com metas e indicadores partilhados. E a ausência de dados abertos e interoperáveis trava a inovação colaborativa entre universidades, centros tecnológicos e startups.
𝟱. 𝗔 𝘁𝗿𝗮𝘃𝗲 𝘁𝗲𝗿𝗿𝗶𝘁𝗼𝗿𝗶𝗮𝗹
O interior rural continua, literalmente, fora da rede. As zonas mais envelhecidas e dispersas são as menos servidas por conectividade, polos de inovação ou serviços técnicos.
A revolução digital, se não for inclusiva, pode aprofundar as desigualdades territoriais.
Alerto para o facto que mais do que tecnologia, é uma questão de coesão.
𝗦𝗲𝗺 𝗳𝗼𝗿𝗺𝗮𝗰ã𝗼, 𝗿𝗲𝗱𝗲 𝗲 𝗽𝗼𝗹í𝘁𝗶𝗰𝗮𝘀 𝗰𝗼𝗼𝗿𝗱𝗲𝗻𝗮𝗱𝗮𝘀, 𝗮 𝗱𝗶𝗴𝗶𝘁𝗮𝗹𝗶𝘇𝗮𝗰ã𝗼 𝗽𝗼𝗱𝗲 𝘁𝗼𝗿𝗻𝗮𝗿-𝘀𝗲 𝗮𝗽𝗲𝗻𝗮𝘀 𝗺𝗮𝗶𝘀 𝘂𝗺𝗮 𝗻𝗮𝗿𝗿𝗮𝘁𝗶𝘃𝗮 𝘂𝗿𝗯𝗮𝗻𝗮 𝘀𝗼𝗯𝗿𝗲 𝗼 𝗺𝘂𝗻𝗱𝗼 𝗿𝘂𝗿𝗮𝗹.
Porque a inovação só é progresso quando chega a todos!
Fonte: António Martins Bonito















































