Se todos vivessem como os portugueses precisaríamos de 2,87 planetas
A partir de hoje, Portugal passa a viver a crédito no planeta. Esgotámos em 127 dias os recursos que a Terra consegue regenerar num ano inteiro.
Se todos os países consumissem como Portugal, precisaríamos de 2,87 planetas, acima da média global de 1,7 planetas.
Nas gavetas portuguesas estão cerca de 16 milhões de smartphones sem utilização, são mais de 600 milhões em toda a Europa.
Portugal recolheu 65 mil toneladas de resíduos eletrónicos em 2025, recorde nacional, valor aquém das 160 mil toneladas produzidas anualmente.
Hoje, Portugal esgota os recursos naturais que consegue regenerar em 2026. Gastámos em 127 dias o que deveria durar um ano inteiro. A partir de agora, o país passa a viver a crédito na Terra, e a consumir recursos que pertencem às gerações futuras. Se toda a humanidade consumisse como Portugal, precisaríamos de 2,87 planetas para sustentar o nosso estilo de vida, muito acima da média global de 1,7 planetas. Os dados são da Global Footprint Network, entidade que anualmente calcula e assinala global e localmente o Dia da Sobrecarga da Terra. Este ano a data chega a Portugal dois dias mais tarde do que em 2025, um sinal ténue de melhoria, mas que não esconde a dimensão do desafio.
Os hábitos de consumo tecnológico são um dos espelhos mais nítidos deste padrão. Com base em dados de 2025, do Instituto Fraunhofer e da refurbed, estima-se que nas gavetas e armários das casas portuguesas estejam guardados cerca de 16 milhões de smartphones sem utilização, mais de 600 milhões de dispositivos em toda a Europa.
O problema não começa no lixo. Começa na fábrica.
A tentação é focar o debate na reciclagem, mas, o referido estudo, mostra que entre 70 e 90% da pegada de carbono de um smartphone é gerada durante a sua produção, muito antes de o aparelho ser ligado pela primeira vez. Os próprios dados da Apple confirmam: no iPhone 16 Pro, cerca de 80% das emissões estão associadas ao fabrico e menos de 1% ao fim de vida.
Os dados mais recentes da Agência Portuguesa do Ambiente indicam que, em 2024, Portugal recolheu cerca de 65 mil toneladas de resíduos de equipamentos elétricos e eletrónicos (REEE), um recorde nacional. Mas, este valor fica muito aquém das cerca de 160 mil toneladas, que a associação Zero estima que sejam produzidas anualmente no país.
“Continuamos a tentar esvaziar uma banheira a transbordar com um balde, sem nunca fechar a torneira. O problema não é apenas o lixo que produzimos, é tudo o que consumimos para chegar até lá.” afirma Kilian Kaminski, cofundador da refurbed e vice-presidente da European Refurbishment Association.
16 milhões de razões para mudar de lógica
Os smartphones parados nas gavetas portuguesas representam mais do que desperdício: são a prova de que já temos os recursos. Precisamos é de os reutilizar.
Estender a vida útil de um dispositivo é uma das formas mais diretas de reduzir a pegada do setor tecnológico. Segundo as Nações Unidas, sem mudança de rumo, a produção global de resíduos eletrónicos deverá atingir 74 milhões de toneladas de globais em 2030, um número bastante superior aos 62 milhões registados em 2022.
“Cada aparelho que volta a circular é um passo para adiar o próximo Dia da Sobrecarga da Terra. Não é preciso deixar de viver. Basta consumir menos e com mais consciência.” conclui Kilian Kaminski.
Fonte: Refurbed














































