Num momento em que o setor vitivinícola enfrenta desafios crescentes, desde a volatilidade dos mercados às exigências de investimento, a Agroges e o Millenniumbcp promoveram um espaço de diálogo entre produtores e banca, com o objetivo de aproximar perspetivas e encontrar soluções mais ajustadas à realidade do terreno.
A sessão “Valor à Prova: Wine Finance Lab”, realizada na Ovibeja, foi desenhada como um exercício prático e inovador, inspirado no próprio ciclo do vinho — da vindima ao engarrafamento — combinando análise financeira, partilha de casos e reflexão conjunta. Em foco esteve a forma como se constrói o valor do vinho e como este é percecionado, tanto pelo mercado como pelas instituições financeiras.
Em declarações ao Agroportal, Manuela Nina Jorge, coordenadora da área financeira e da sustentabilidade da Agroges, explicou que a iniciativa surgiu da necessidade de “pôr o valor à prova”, isto é, perceber se o consumidor reconhece o investimento intrínseco ao vinho. “Falamos do impacto de fatores como o estágio, a diferenciação do produto ou até o modo de produção, como o biológico, e se esse valor é efetivamente percecionado no mercado”, referiu.
Mas o objetivo vai além da perceção do consumidor. A responsável sublinhou a importância de sensibilizar o setor financeiro para as especificidades da agricultura, em particular do vinho. “A banca precisa de desenvolver um pensamento diferente e criar instrumentos financeiros ajustados à realidade do setor, que tem ciclos longos e necessidades muito próprias”, afirmou.
Entre os principais constrangimentos identificados está o desajuste entre os produtos financeiros disponíveis e o ciclo produtivo agrícola. Ao contrário de outras atividades, o vinho exige investimentos de longo prazo, com períodos sem retorno imediato. “Desde a plantação até à produção podem passar vários anos, e depois há todo o processo de vinificação e estágio. Isto exige soluções de financiamento com carência de capital e maior flexibilidade”, explicou.
“Desde a plantação até à produção podem passar vários anos, e depois há todo o processo de vinificação e estágio. Isto exige soluções de financiamento com carência de capital e maior flexibilidade”, explicou.
Atualmente, segundo Manuela Nina Jorge, a banca baseia a sua análise sobretudo nos cash flows futuros dos projetos, mas enfrenta dificuldades na sua projeção, devido à falta de conhecimento técnico do setor. É neste ponto que a Agroges assume um papel relevante, ajudando a validar a viabilidade dos projetos e a construir análises financeiras credíveis.
Outro aspeto destacado foi a vulnerabilidade da agricultura a fatores externos, como as condições climáticas, que podem comprometer a produção e a capacidade de cumprimento financeiro. “É um setor que exige maior flexibilidade, porque depende de variáveis que não existem noutras atividades económicas”, alertou.
Do lado dos produtores, a aposta na digitalização e na recolha de dados surge como um fator decisivo para reduzir o risco percebido. “As novas tecnologias permitem evidenciar o que acontece no terreno, tornando mais credível a informação junto da banca”, referiu.
Como mensagem final, a responsável defendeu a necessidade de soluções “à medida” para o setor. “Há projetos viáveis que enfrentam dificuldades apenas porque foram financiados com instrumentos inadequados. É essencial alinhar o financiamento com a realidade dos cash flows e da atividade”, sublinhou.
A sessão terminou com uma síntese das principais conclusões e a identificação de caminhos futuros, com a expectativa de que iniciativas como esta possam contribuir para o desenvolvimento de novas linhas de financiamento mais ajustadas ao setor vitivinícola.
Texto: Sara Pelicano















































