Vaca, para que te quero? – João Adrião

Vaca, para que te quero? – João Adrião

“It’s about whether you are going to be a sinner, or saved. Whether you are going to be one of the people on the side of salvation, or on the side of doom. Whether you are going to be one of us, or one of them.”

Michael Crichton, 2003

Após milénios ao lado do Homem, mistificada por algumas culturas, divinizada por outras, a vaca está em maus lençóis. O bafo que aqueceu o menino Jesus, é afinal algo terrível para o ambiente… Está aberta a guerra: “comer carne é a principal causa das Alterações Climáticas”, dizem-nos as Environmental Research Letters, documentários falam mesmo em mais de metade do carbono emitido (Cowspiracy), a ONU recomenda baixar o consumo, figuras públicas como A. Schwarzenegger, P. McCarthney, ou o “nosso” João Manzarra convertem-se, por cá, o Roteiro para a Neutralidade Carbónica prevê uma redução bovina de 25 a 50%, o reitor da Univ. Coimbra expurgou-a da cantina e até o Governo a baniu da ementa.

E, afinal, a culpa é das vacas? Bom, se há alguns pontos na temática das alterações climáticas que são consensuais, já no campo do impacto alimentar reina a incerteza, a confusão e os estudos com resultados para todos os gostos. Típico aliás, em tudo o que a comida diz respeito – ainda o outro dia Ricardo Araújo Pereira brincava com a multiplicidade de estudos ora a dizer que os ovos fazem mal, ora que fazem bem. Entre as pesquisas, várias há a desonerar as vacas (Tom et al 2016, Ramirez 2019, Stocks 2019, etc.), alguns mostrando mesmo que retirar a carne da alimentação, além de menos saudável, seria sinónimo de mais energia gasta, mais água consumida e mais GEE emitidos.

Medir a pegada do prato? São contas complicadas. Mas mais complicadas ficam se atendermos a outros aspectos:

  • As emissões pecuárias globais andam pelos 10 a 15% (IPCC 2007, FAO 2013). Obviamente estão a emitir carbono antes consumido, sob a forma de Metano que dura pouco tempo na atmosfera e volta a ser reabsorvido, algo que faz parte do próprio ciclo da vida. Comparar esta fonte com outras como seja a queima de combustíveis fósseis, que acrescenta carbono que estava sumido do ciclo é desonesto. Por outro lado, estudos vários apontam para vantagens das pastagens na fixação de carbono no solo. E apontam também para incêndios como importantes emissores, e que, nas nossas paisagens, dificilmente se conseguem controlar sem gado;
  • Não estamos a falar de carros de luxo ou navegação na internet com um smartphone, antes de produção de alimentos. A carne é uma fonte barata de proteínas, e não só a fome no mundo ainda é, infelizmente, uma realidade, como também as projecções do crescimento populacional mostram que, no futuro, mais comida será necessária. Estudos há (Peters et al 2016) mostrando que dietas com componente animal podem alimentar mais pessoas. Acresce que os animais são o único uso possível em muitas terras imprestáveis para a agricultura, produzindo riqueza a partir de produtos fibrosos de escasso valor nutritivo;
  • As culturas vegetais são estrumadas – importância dos animais, que ainda comem os restos – e/ou adubadas, muitas plantadas em monoculturas intensivas, regadas com produtos fitofarmacêuticos, também modificam paisagens, também poluem água, ar e solo, dietas variadas implicam ainda consumir produtos importados, etc. Com efeito, mais complexas as contas ficam, se atendermos a factores como as formas de produção ou a distância percorrida pelo produto ou os métodos de acondicionamento, transversais ao consumo da generalidade dos alimentos. Por exemplo nasceu no Brasil, a campanha “segunda sem carne”; Ora um dia sem consumo de carne equivale a não andar 8 km de carro (Garnsworthy, 2019). 8 km? É que fora da cidade, uma ida às compras fica em bem mais que isso, ou vêm em carrinhas a fazer dezenas de kms de aldeia em aldeia;
  • Adicionalmente, as vacas não nos dão só carne, providenciando dezenas de outros produtos, de alimentos como leite, queijo, manteiga, natas, iogurtes, chocolates, gelados, pastilhas, gelatina a coisas como sapatos, solas, cintos, casacos, carteiras, tapetes, peças decorativas, papel de parede, cordas de guitarra, velas, pincéis, filtros de ar, perfumes, desodorizantes, champôs, medicamentos, vitaminas, anticongelantes, tintas, óleos, isolantes, corantes, detergentes, fertilizantes, etc, etc… Coisas que se podem produzir com materiais alternativos? Certo, mas que não são isentos de impactos…

É ao arrepio de tudo isto, e esquecendo ainda o destino a dar a dezenas de milhares de milhões de animais e como ocupar mil milhões de pessoas com o emprego perdido, o Veganismo e o Animalismo cavalgam a discussão sobre acção climática para defesa das suas agendas radicais, ignorantes, presunçosas e preconceituosas – bandidos do mundo rural que exploram animais e os matam e vendem, e atrasados de quem os come – de imposições, taxas, proibições, moralismo – de poucas décadas face a muitos milénios de cultura humana – sobre a liberdade de escolha, a preferência individual de cada um de nós…

Face a contas muito controversas, se queremos optar por escolhas ambientalmente responsáveis, devemos antes pesar o enquadramento da realidade sócio-económica do nosso país, da nossa balança comercial – em que a alimentação é, a par da energia, a principal dor de cabeça – das necessidades de animais na gestão da nossa paisagem – do fogo à biodiversidade e incluindo a função de sumidouro de carbono – do que são vários factores transversais a todos os alimentos, casos das formas de produção, boas práticas, distância, acondicionamento, etc, assim como da nossa cultura, cozinha, dinâmica demográfica, coesão territorial, e ainda das pessoas – portugueses também – que fazem disto o seu ganha-pão…

Dito de forma simples: acha que está a ajudar o ambiente fechando a boca à carne? Não está.

Num recente relatório de Agosto de 2019, é o próprio IPCC que refere: “dietas balanceadas à base de alimentos vegetais e alimentos de origem animal, produzidos em sistemas de produção resilientes e sustentáveis representam grandes oportunidades para adaptação e mitigação de efeitos ambientais gerando simultaneamente grandes benefícios em termos de território e nutrição e saúde humana”.

Raça Maronesa num Carvalhal do Norte do País – “Auroques-Bombeiros” 2019, Carlos Aguiar. Reprodução Autorizada

João Adrião,

Gestor Ambiental e Florestal

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