Como deixamos o animalismo sequestrar o debate ambiental? – Carlos Neves

Como deixamos o animalismo sequestrar o debate ambiental? – Carlos Neves

“Alguns usam as estatísticas como os bêbados usam os postes: mais para apoio do que para iluminação” – Andrew Lang

Nota prévia: Não sou um negacionista climático. O aquecimento global está registado e aumentaram os extremos climáticos:  mais secas, mais inundações, mais tempestades. Nós, agricultores, somos os primeiros a sentir e sofrer com essas alterações. Algumas pessoas têm dúvidas sobre a origem dessa mudança, mas parece-me credível aquilo que defende a maior parte dos cientistas – há evidência de que o aquecimento global registado está relacionado com o aumento dos gazes de efeito de estufa (GEE), devido à utilização de combustíveis fósseis desde a revolução industrial.

Primeira etapa: “Menos vacas e menos incêndios florestais: como descarbonizar um país” foi capa do Jornal Público a 4 de dezembro de 2018, a propósito do roteiro do Governo para a neutralidade carbónica, com entrevista ao Ministro do Ambiente. Menos incêndios florestais? Todos de acordo. Problema: Sobreponham o mapa das vacas com o mapa dos incêndios e poderão ver a contradição: onde há menos vacas há mais incêndios. Segundo problema: Energia, Transportes e indústria representam 75% das emissões dos GEE em Portugal, a pecuária só representa 5% dos GEE, mas ninguém discute aviões, cruzeiros, indústria, centrais elétricas, melhoria da eficiência energética das habitações.  Debater “to beef or not to beef” vende jornais e gera audiências, clickbaites e discussões apaixonadas entre vegans e amantes dos bifes. E assim começou a má-fama das vacas em Portugal…

Segunda etapa: A 17 de setembro de 2019, o reitor da Universidade de Coimbra anunciou que vai eliminar a carne de vaca das cantinas em janeiro de 2020, por razões ambientais. Podia ter anunciado a redução dos automóveis da universidade, do consumo energético dos edifícios universitários ou do desperdício alimentar.  Gerou-se um enorme debate, o setor agrícola reagiu em coro, especialistas desmentiram a validade da decisão e ainda não sabemos o que irá substituir a carne, para fazermos as contas todas do impacto ambiental da decisão. Será com  “gratô, alimento “eco-inovador, saudável, para todos, de origem vegetal”, anunciado em 2017 pelo então Vice-Reitor? Entretanto, quem fez contas ao atual consumo de carne de vaca nas cantinas de Coimbra diz que dará 3 almondegas por pessoa, por mês. Quem lá comeu disse não se lembrar de ver carne de vaca na cantina. Também houve quem pensasse que cortavam a carne para poupar dinheiro. Mas se, por razões económicas, reduzissem para metade ou para a décima parte, ninguém daria pela diferença. Anunciar tal medida 19 dias antes das eleições legislativas, em plena pré-campanha eleitoral, onde participava um partido que defende abertamente o fim do consumo de carne (e que era alvo de enormes críticas por causa do seu animalismo e veganismo), foi um ato com consequências políticas, uma espécie de apoio científico a partir de um lugar privilegiado e que desviou atenções. Durante mais de uma semana, enquanto o Reitor foi alvo de todas as críticas, o PAN e o seu líder passearam tranquilos e agora usam a decisão de Coimbra como falácia de autoridade, argumento na campanha doutrinal vegana que querem levar a todas as escolas que lhes abram a porta. Pergunto agora, vamos desistir da carne nas cantinas de Coimbra? Não devíamos!

Terceira etapa : a 9 e Outubro, precisamente no dia em que um militante do PAN se preparava para ir a uma escola de Barcelos debater com os alunos o documentário cowspiracy que acusa (erradamente) as vacas de serem responsáveis por 51% dos GEE e assusta os miúdos de tal modo que muitos deixam de comer carne (até ficarem doentes e voltarem a ser omnívoros), houve mais uma emissão do programa “Olhe que não”, na TSF, com o tema “Prego no prato? Ou no planeta?” Ouvi em direto o programa moderado pelo jornalista Pedro Pinheiro, meu conterrâneo, enquanto preparava a sementeira de um terreno bastante perto da casa onde nasceu. A erva que lá vou semear vai captar dióxido de carbono e libertar oxigénio. Quando as vacas a digerirem, vão libertar metano que após poucos anos se vai decompor e o carbono poderá ser de novo absorvido pelas plantas. É um ciclo, diferente do carbono libertado pela combustão dos hidrocarbonetos armazenados no subsolo há milhões de anos. Se puderem ouçam o programa. E olhem que não, não houve discussão (lá está, faltou um animalista).  Firmino Cordeiro, Diretor Geral da AJAP e Filipe Duarte Santos, especialista em alterações climáticas, estiveram muito bem e quase sempre de acordo, a começar pela afirmação que a pecuária só representa 5% das emissões. Problemático foi o titulo da notícia que anunciou o debate, partilhada na restante comunicação social e que atingiu muito mais gente do que o próprio debate: “Vacas lideram aumento do metano em Portugal”. Cliquem e leiam toda a notícia. Tem dados da APA com a evolução entre 1990 e 2017 das emissões de metano através do processo digestivo dos animais na pecuária. Mostra que as emissões de porcos, ovelhas, cabras e vacas leiteiras diminuíram (porque há menos vacas, mais eficientes, a produzir o mesmo leite). Nas TVs, abordaram a notícia. Na RTP, só mostraram declarações de um ambientalista e imagens de arquivo de vacas leiteiras, por acaso, da minha vacaria! E então, onde está a maior emissão do metano? No Alentejo, nas vacas de carne, em pastoreio extensivo. Mas isso não tem de ser mau, isso acontece por causa da alimentação em pastagem e porque aumentaram as pastagens, que também captam muito carbono! Portanto, o saldo final pode ser positivo. Façam as contas e digam-nos o resultado final, por favor. Não nos enganem com metade da verdade.

Entretanto, quem ganha com este “avacalhar” do debate ambiental? Ganha força o movimento animalista, ganha dinheiro quem vende bebidas vegetais esbranquiçadas  menos nutritivas que custam o dobro do leite, ganha quem se prepara para fabricar “carne artificial” ou  outras alternativas e folgam as costas das empresas petrolíferas, das empresas elétricas, dos transportes e da indústria, cujas opções ninguém discute porque já temos a boca cheia na discussão entre o fim dos bifes e o fim do mundo.

Quem perde? Perdemos todos: perdem a paciência os agricultores e perde o ambiente, enquanto discutimos o rato e ignoramos a montanha. Enquanto os animalistas sequestram o debate ambiental, perdemos a oportunidade de convocar os agricultores para participar no sequestro do carbono.

Um alerta final: Sequestros podem provocar pânico e fugas descontroladas em modo “salve-se quem puder”, começando por um debate ridículo do tipo “a minha pecuária polui menos que a tua”. Não sejam tontos. Há um ataque geral a todas as vacas e toda a pecuária. Nestes momentos de crise também se revelam as pessoas de valor. Para além de excelentes artigos científicos que rebateram o ataque às vacas do senhor reitor, as respostas que mais me tocaram vieram da horticultura, da floresta e da suinicultura. Gente solidária, com bom senso, que vê ao longe e percebe que estamos cercados no mesmo castelo contra radicalismos que sequestram o debate em vez de sequestrar carbono.

Carlos Neves, agricultor, produtor de leite e vice-presidente da Aprolep

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