Como as políticas europeias divergem de Prémios Nobel – Manuel Chaveiro Soares

Como as políticas europeias divergem de Prémios Nobel – Manuel Chaveiro Soares

Recentemente foram atribuídos dois prémios Nobel, da Química e da Paz, que devem fazer pensar seriamente os líderes políticos da União Europeia.

O primeiro, no âmbito da moderna biotecnologia, foi atribuído a duas cientistas responsáveis pela criação, em 2012, do desenvolvimento de um método extraordinário de edição do genoma, conhecido como CRISPR-Cas9 ou “tesoura molecular”.

Este método permite modificar com precisão o código genético de qualquer organismo, o que apresenta um enorme potencial para diversas aplicações de grande utilidade, designadamente prevenir ou curar doenças genéticas, tratar o cancro, ajustar o genoma das plantas de modo que estas possam suportar melhor as alterações climáticas, reduzir a suscetibilidade a pragas e doenças, e ainda diminuir a produção de substâncias indesejáveis, como o glúten no trigo.

Na União Europeia, todavia, têm sido levantadas as maiores dificuldades à aplicação da moderna biotecnologia ao melhoramento de plantas. Enquanto no mundo já se cultivam cerca de 200 milhões de hectares com plantas geneticamente modificadas (OGM) – é a tecnologia agrícola mais rapidamente adoptada -, na Europa apenas em Espanha e Portugal está autorizada a cultura do milho Bt para alimentação animal (transgénico modificado para resistir à praga da broca e assim evitar a aplicação de inseticidas), ocupando a referida cultura 121 mil hectares.

Devemos ter presente o que o geneticista Sir Paul Nurse (distinguido com o Prémio Nobel da Medicina e, presentemente, Conselheiro Científico Chefe da União Europeia) escreveu no presente ano (What is life? Understand Biology in Five Steps): o que interessa é que as plantas sejam testadas quanto à sua segurança para os consumidores e o ambiente, eficiência e impacto económico, independentemente da tecnologia aplicada no seu melhoramento.

No caso do aludido milho Bt, o mesmo foi aprovado pela Autoridade Europeia para a Segurança dos Alimentos, para além das autoridades nacionais e de outros países, com destaque para a prestigiada agência norte-americana Food and Drug Administration.

Por razões de índole ideológica, algumas pessoas condenam a intervenção do homem na natureza, nomeadamente através do recurso à engenharia genética. Recorde-se que, em 2007, no Algarve assistiu-se à tentativa de destruição de um campo de milho Bt. Porém, o então ministro da Agricultura, dr. Jaime Silva, tomou uma posição firme para evitar vandalismos.

A propósito do que precede, recordo um comentário sábio do eng. António Guterres: «Ao recusar a importância da ciência na fundamentação das decisões políticas, caímos no exemplo do Galileu e naqueles que o combateram. E decisões políticas desse género não têm futuro».

A atual pandemia confirma a afirmação anterior, pois só com base na evidência científica tem sido possível fazer progressos e é na ciência que se deposita confiança para se ultrapassar completamente a atual pandemia, designadamente através do uso de uma vacina adequada (produzida, obviamente, com recurso à engenharia genética).

Não obstante o que antecede, atualmente no ensino público português ensina-se às crianças que os OGM apresentam riscos para a saúde humana e para o ambiente – o que já motivou uma oportuna carta do prof. Pedro Fevereiro, dirigida aos ministros da Educação, e da Ciência, requerendo que sejam ensinados factos corretos e fundamentados cientificamente.

Quanto ao Prémio Nobel da Paz de 2020, o mesmo foi muito justamente atribuído ao Programa Alimentar Mundial das Nações Unidas (PAM), pela liderança no combate à fome e pelo papel importante na melhoria das condições para a paz em zonas atingidas por conflitos.

A referida organização humanitária ajuda 97 milhões de pessoas em cerca de 88 países, sendo que a ONU estima que há 690 milhões de pessoas em situação de fome e, devido ao impacto da atual pandemia, este ano podem juntar-se a este grupo mais 130 milhões de pessoas carenciadas.

A presidente do Comité Norueguês do Nobel declarou que a necessidade de solidariedade internacional e de cooperação multilateral é hoje mais evidente do que nunca, quando o “populismo” e as “políticas nacionalistas” estão a aumentar.

Por sua vez, o secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, congratulou-se com a atribuição do prémio Nobel da Paz ao PAM, que definiu como o “serviço de emergência” global face à fome. Também recordou que o PAM depende das contribuições voluntárias dos Estados membros e dos cidadãos (de salientar que, em 2020, a contribuição dos EUA representa 43% do total), sublinhando que esta solidariedade é hoje muito necessária, sendo inconcebível que, num mundo de abundância, centenas de milhões de pessoas se deitem com fome todos os dias.

Esta observação traz à colação a estratégia «do Prado ao Prato», enunciada pela Comissão Europeia em maio de 2020 e que terá como consequência a diminuição da produção agrícola na UE, em decorrência sobretudo do menor uso de fertilizantes e de pesticidas, a que acresce o cultivo de 25% das terras agrícolas em modo de produção biológica.

A meu ver, esta anunciada redução alimentar no espaço da UE – quando a economia mundial atravessa a maior crise depois da grande depressão da década de 1930 – é chocante face às necessidades alimentares de cerca de 9% da população mundial, não incluindo os subnutridos que vivem no próprio espaço europeu e que todos nós conhecemos, inclusive em Portugal.

Em suma e na minha modesta opinião, os atuais líderes políticos europeus não estão imunes aos tempos de ampla manipulação das opiniões das massas no que concerne não só à política, mas também a outros domínios, como por exemplo, os valores sociais e a engenharia genética; neste caso a argumentação com base científica, suscetível de ser verificada experimentalmente, defronta-se com preconceitos e posições de índole ideológica – refractárias à ciência, à razão e ao progresso.

Manuel Chaveiro Soares

Engenheiro Agrónomo, Ph. D.

Do Prado ao Prato: uma estratégia com consequências negativas – Manuel Chaveiro Soares

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