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Manuel Chaveiro Soares

Aplicações da moderna biotecnologia em prol da humanidade – Manuel Chaveiro Soares

por Manuel Chaveiro Soares
28-12-2020 | 12:15
em Últimas, Notícias inovação, Opinião, Inovação, Dossiers
Tempo De Leitura: 6 mins
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Foi com emoção que assisti à chegada a Portugal da primeira vacina contra a covid-19, ademais transportada em viatura protegida por forte dispositivo de segurança e recebida por altas individualidades – o que ilustra o valor atribuído a este fruto da moderna biotecnologia.

Acresce que esta primeira vacina, com uma eficácia de 95%, foi fornecida pela BioNTech-Pfizer, tendo o processo de fabrico demorado apenas 11 meses, quando normalmente demora vários anos. De salientar a competência e o esforço dos cientistas envolvidos no desenvolvimento da vacina, a disponibilidade da UE para apoiar financeiramente a empresa alemã BioNTech, tanto na investigação como no aumento da capacidade de produção, bem como a decisão da farmacêutica norte-americana Pfizer em participar ativamente no desenvolvimento de uma nova vacina, através de uma tecnologia inovadora, para além de colaborar ativamente na realização dos ensaios clínicos, que permitiram garantir a eficácia e a segurança desta primeira vacina contra a covid-19. Trata-se de um sucesso científico extraordinário, levado a cabo por duas empresas privadas que receberam apoios públicos, para assim combaterem uma pandemia que já causou cerca de 1,8 milhões de mortes e abalou a economia mundial.

A propósito do desenvolvimento da vacina em apreço, o prestigiado jornal Finantial Times elegeu como personalidades do Ano 2020 Ugur Sahin e Ozlem Tureci, co-fundadores da BioNTech, como símbolo de uma história científica notável e de um negócio de sucesso. Os pais deste casal de médicos emigraram da Turquia para a Alemanha em busca de uma oportunidade económica, tendo-se os filhos dedicado à investigação do cancro com recurso à biotecnologia, na Universidade de Mainz.

Dois meses antes da OMS anunciar a existência de uma pandemia, o referido casal entendeu que a sua pequena empresa (BioNTech) dispunha de competências no domínio da moderna biotecnologia para desenvolver uma vacina contra o novo coronavírus. A fim de promoverem a imunização contra o SARS-COV-2, Sahin e Tureci utilizaram uma nova tecnologia denominada mensageiro do ácido ribonucleico (mRNA, desenvolvido em laboratório), que induz as nossas células a produzir proteínas que geram anticorpos que preparam a pessoa vacinada para destruir o SARS-COV-2, o que impedirá que a infeção da covid-19 se instale. As vacinas com mRNA representam uma estratégia biotecnológica inovadora extraordinária, não se conhecendo ainda quanto tempo dura a imunidade desenvolvida, devendo continuar a serem testadas, pois ao contrário do que acontece com as medicinas alternativas (e.g. homeopatia), tendo aqueles uma base científica importa por definição provarem a sua eficácia e segurança.

O Prof. David Marçal (2020) explica de forma muito simples o modo de atuação: «É o tipo de coisa que nos acontece sempre que apanhamos uma constipação, mas muito mais limitada, pois apenas é produzida uma proteína e não o vírus inteiro».

Se existe uma lição para a sociedade que se possa tirar deste sucesso – que provavelmente irá proporcionar o Prémio Nobel aos inventores – é a seguinte: “Nada de bom acontece se alguém não o faz acontecer”.

E, acrescente-se, tomando como exemplo Sahin e Tureci, que mais cientistas se aventurem no mundo da educação, da tecnologia e dos negócios.

O modo entusiástico com que muitos decisores políticos apoiaram o recurso à moderna biotecnologia, demonstrando uma clara confiança na ciência (infelizmente nem todos, pois ainda conhecemos negacionistas da covid-19, das alterações climáticas e também opositores à modificação genética das plantas – OGMs).

É oportuno recordar que o médico e humanista Hans Rosling, que morreu em 2017, apontou os cinco riscos globais que mais o preocupavam: pandemia global (em primeiro lugar), alterações climáticas, pobreza extrema, guerra mundial e o colapso financeiro.

Note-se que a moderna biotecnologia pode desenvolver um papel relevante no que toca aos três primeiros riscos apontados. Todavia, na UE apenas é bem aceite no âmbito da farmacologia. Contudo, as plantas geneticamente modificadas (GM) são cultivadas em 200 milhões de hectares, inclusive no país mais desenvolvido do mundo; no entanto, os europeus importam em larga escala alimentos GM e só em Espanha e Portugal está autorizada uma cultura GM (Milho Bt, resistente à broca, evitando assim a aplicação de inseticidas).

No entanto, a referida expansão no mundo é demonstrativa das vantagens que as plantas GM apresentam, designadamente agronómicas (resistência aos inseticidas e aos herbicidas, à secura, enriquecimento em pró-vitamina A, etc).

Também a edição do genoma, denominada CRISPR-Cas9 ou “tesoura molecular”, descoberta em 2012 e que veio revolucionar o mundo científico, não merece especial atenção por parte da UE, nomeadamente no que respeita ao melhoramento das plantas. No entanto, para além dos inúmeros benefícios que traz no campo da medicina, a referida técnica também permite em apenas poucas semanas reescrever o código genético e, por exemplo, conferir às plantas maior resistência às alterações climáticas, às pragas e às doenças. Acrescente-se que o desenvolvimento do sistema CRISPR-Cas9 justificou a atribuição do Prémio Nobel da Química de 2020 a duas cientistas: a francesa Emmanuelle Charpentier e a norte-americana Jennifer Doudna.

A propósito dos avanços extraordinários que se têm alcançado no domínio da moderna biotecnologia, refira-se também que um grupo de cientistas norte-americanos e israelitas– preocupados com as mudanças climáticas – recentemente propôs uma estratégia para remover o CO2 da atmosfera, utilizando para o efeito uma tecnologia inovadora – que inclui poderosos métodos de biologia sintética e de sistemas (SSB) – suscetível de modificar as plantas de modo a removerem irreversivelmente o CO2 da atmosfera (DeLisi et al., 2020).

Os mencionados cientistas apontam vários exemplos suscetíveis de aplicação da mencionada tecnologia, tais como: (i) alterar a relação entre as raízes e a parte aérea da planta, para aumentar a quantidade de CO2 retido no solo; (ii) aumentar a eficiência fotossintética das plantas; (iii) tornar as plantas mais resistentes à secura, modificando as folhas de modo a diminuírem a evaporação da água; (iv) elevar a produtividade das culturas, o que irá aumentar a sustentabilidade, na medida em que é necessária menor área de cultivo para determinada produção.

Adicionalmente, os aludidos cientistas sugerem outras modificações genéticas das plantas (e.g. trigo) que se revestem de muito interesse, designadamente a capacidade de fixarem o azoto, à semelhança do que se verifica com as leguminosas, podendo desse modo consumirem grandes quantidades de óxido nitroso – um gás com efeito de estufa relevante. Sugerem ainda que as bactérias poderiam ser modificadas para utilizarem o CO2 como fonte de carbono, em vez de hidratos de carbono.

É interessante assinalar como a UE ao promover, atualmente, a expansão do modo de produção biológica, afasta-se das decisões tomadas há duas décadas – Lisbon European Council (2000) e Stockholm European Council (2001) – quando foi decidido como estratégia para a década seguinte tornar a economia da UE, com base no conhecimento, como a mais competitiva e dinâmica do mundo. Este objetivo foi reafirmado e sublinhado em 2001, tendo então sido especificado que a estratégia implicava que fossem desenvolvidos esforços em novas tecnologias, especialmente na biotecnologia (sic).

Tendo em mente sobretudo o défice português de 3,7 mil milhões de euros da balança comercial dos produtos agrícolas e agroalimentares, e, especialmente, pensando no sofrimento dos cerca de mil milhões de seres humanos (o dobro da população da UE) que diariamente se deitam com fome, e que vivem em condições de habitabilidade miseráveis (sem água potável, esgotos e eletricidade), termino citando Sir Paul Nurse (2020), geneticista e Prémio Nobel da Medicina: «o que interessa é que todas as plantas sejam testadas quanto à sua segurança para os consumidores, eficiência e previsível impacto ambiental e económico, independentemente de como foram melhoradas». Nurse (2020) acrescentou: «nós devemos considerar o que a ciência tem para dizer sobre riscos e benefícios, independentemente dos interesses comerciais das empresas, das opiniões ideológicas das ONGs, ou dos interesses financeiros de ambos».

Manuel Chaveiro Soares

Engenheiro Agrónomo, Ph. D.

Como as políticas europeias divergem de Prémios Nobel – Manuel Chaveiro Soares

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