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Culturas intensivas dividem agricultores e ambientalistas

por Diário do Alentejo
13-07-2019 | 10:55
em Nacional, Últimas, Sugeridas
Tempo De Leitura: 5 mins
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[Fonte: Diário do Alentejo] A “invasão” do Alentejo por culturas intensivas “atraídas” pelo regadio do Alqueva está a gerar polémica, com populações e ambientalistas a terem receios de impactes negativos e agricultores a dizerem que são infundados.Na área do Alqueva, com 120 mil hectares de regadio instalados, há 95 mil a serem regados, a maioria (60 por cento) ocupados com olival, seguindo-se árvores de fruto, sobretudo amendoal, vinha, milho, forragens e cereais e hortícolas.

Texto Luís Miguel Lourenço (Lusa) 

José Paulo Martins, da associação ambientalista ZERO e do movimento de cidadãos “Alentejo Vivo”, que denuncia impactes negativos da agricultura intensiva, diz que há aldeias com plantações “demasiado perto” de casas. “Há pessoas preocupadas” com a exposição a pesticidas usados nas culturas “tão próximo das zonas onde habitam”, porque “há sempre o receio de que possam afetar a sua saúde”, explica o ambientalista, denunciando que “não se estão a respeitar determinadas regras” quanto ao ambiente e à segurança das populações.

O presidente da Federação das Associações de Agricultores do Baixo Alentejo, Rui Garrido, desdramatiza, embora reconheça que “há sempre alguns impactes menos positivos ou até negativos”. Mas, “temos de os tentar reduzir”, diz à Lusa Rui Garrido, lembrando que quando se fez o Alqueva “já se sabia” que se iria intensificar a agricultura, porque, numa zona onde há água disponível, os agricultores conseguem produzir “bastante mais” e, por isso, intensificam culturas.“Acredito que as pessoas se sintam incomodadas com essas proximidades”, mas “não posso dizer que isso seja associado a riscos para a saúde”, porque “não está estudado”, afirma Filomena Araújo, Delegada de Saúde Pública do Alentejo.  

Filomena Araújo reconhece que chegaram queixas à Administração Regional de Saúde do Alentejo, que foram encaminhadas para autarquias, as quais “têm um papel importante”, porque, com planos diretores municipais (PDM), “podem delimitar as áreas” para instalação de culturas.

O olival ocupa a maior área regada no Alqueva e o presidente da Olivum – Associação de Olivicultores do Sul, Pedro Lopes, recusa a ideia de que os agricultores plantam onde “bem entendem”, explicando que têm de “consultar várias entidades” e os PDM, que “regulam a permissão ou não” de culturas perto de zonas urbanas.

Quanto ao ambiente, José Paulo Martins diz que o uso de “grandes quantidades” de agroquímicos (pesticidas e fertilizantes), “por vezes de forma desregrada”, tem impactes na qualidade de águas superficiais e subterrâneas e na biodiversidade e, em alguns processos de plantação de culturas, como olival e amendoal, há “destruição” de linhas de água e património arqueológico. E algumas culturas, pela forma como são plantadas, pelo “uso abusivo” de pesticidas ou pela falta de vegetação espontânea, “desnudando o solo”, favorecem a erosão de solos, frisa.

Da parte dos produtores, Rui Garrido admite que, “com certeza”, os agricultores aplicam “mais agroquímicos”, porque estão a querer produzir mais, mas o modo de produção integrada tenta “minimizar muitos destes impactes”. Este modo de produção, indica, é seguido pela “esmagadora maioria” dos agricultores no Alqueva e “obriga” ao uso eficiente de água e agroquímicos “menos nocivos para o ambiente” e de acordo com análise dos solos e necessidades das culturas.

“A maior parte” dos alertas e receios sobre impactes negativos da agricultura intensiva “não tem fundamento” e “há uma desinformação muito grande”, que tem “prejudicado bastante” os agricultores, argumenta Rui Garrido. No entanto, continua, “o saldo” entre impactes positivos e negativos “é francamente positivo”, pois o Alentejo sem agricultura “não conseguiria ter o desenvolvimento que tem”, nem daria o contributo que dá para a produção agrícola.

Pedro Lopes diz que os impactos negativos atribuídos à olivicultura estão “por comprovar”, os alertas e receios são “infundados” e os olivicultores querem “desmontar a desinformação” e demonstrar que o olival, que “consome menos água” e utiliza “muito menos” agroquímicos em relação a outras culturas intensivas, é “amigo do ambiente”.

José Paulo Martins contrapõe que os receios e alertas da ZERO são “baseados em factos” e há legislação que não é cumprida e “insuficiente” fiscalização. “Não há uma verdadeira entidade licenciadora” de projetos agrícolas e “há casos em que as coisas ficam pela vontade do agricultor”, frisa, defendendo “uma atitude mais interventiva” do Estado.

O ambientalista aponta ainda outros impactes associados, como a poluição do ar provocada por fábricas de extração de óleo de bagaço de azeitona, “exploração de mão-de-obra barata” imigrante e a alegada morte de aves devido a trabalhos noturnos de apanha mecânica de azeitona.

Pedro Lopes justifica o recurso a mão-de-obra externa para trabalhos agrícolas afirmando que “em Portugal não há”, mas frisa que os agricultores estão “bastante atentos ao problema” da exploração de imigrantes.

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