Um estudo liderado por investigadores do Centro de Ecologia, Evolução e Alterações Ambientais (CE3C) da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa (Ciências ULisboa) demonstra que as dimensões de um único dente podem fornecer informação relevante sobre o tamanho corporal e o sexo do lobo-ibérico (Canis lupus signatus), uma subespécie ameaçada e exclusiva da Península Ibérica.
Publicado na revista The Anatomical Record, o trabalho analisou o primeiro molar inferior, ou dente carniceiro, de 78 exemplares de lobo-ibérico, provenientes de coleções científicas, recolhidas entre 1900 e 2006. Os investigadores demonstraram que o comprimento deste dente pode ser utilizado para estimar a massa corporal destes animais. Em média, as estimativas obtidas diferem apenas 2,4 kg da massa corporal real.
A análise revelou também um claro dimorfismo sexual: os machos apresentam, em média, massas corporais 21,4% superiores às fêmeas, com base nos pesos registados, e 11,6% superiores quando a massa é estimada a partir do dente. A morfometria do dente permitiu ainda distinguir machos e fêmeas com uma precisão de aproximadamente 79%.
“O nosso estudo demonstra que um único dente pode preservar informações valiosas para a biologia, a ecologia e a evolução do lobo-ibérico, sobretudo quando não dispomos do esqueleto completo.”, explica Leonardo Cotts, primeiro autor do estudo, investigador do CE3C de Ciências ULisboa e colaborador do Museu Nacional de História Natural e da Ciência (MUHNAC).
A metodologia desenvolvida poderá ser particularmente útil no estudo de espécimes de museu e restos encontrados no campo, permitindo obter informação sobre o tamanho e o sexo dos animais sem necessidade de dispor do animal em vida ou de cadáveres completos. Esta abordagem poderá contribuir para estudos ecológicos, monitorização de populações e para a conservação do lobo-ibérico.
“Conhecer a variação do tamanho corporal entre machos e fêmeas é importante para compreender a ecologia da espécie, nomeadamente a relação entre tamanho, comportamento e utilização dos recursos”, acrescenta Maria da Luz Mathias, investigadora do CE3C de Ciências ULisboa e colaboradora do Museu Nacional de História Natural e da Ciência (MUHNAC).
O estudo analisou ainda possíveis diferenças entre lobos provenientes das regiões a norte e a sul do rio Douro, não tendo encontrado diferenças significativas na massa corporal estimada para os machos adultos. Em comparação com outros canídeos do género Canis, o lobo-ibérico apresenta uma massa corporal média intermédia, sendo maior do que espécies como o coiote e o chacal, mas menor do que alguns lobos de maior porte, como o lobo cinzento canadense.
“Os resultados dessa investigação ressaltam a importância dos museus para além da sua função expositiva, demonstrando o valor das coleções científicas como um património inestimável para investigações sobre a biodiversidade e a conservação.” acrescenta Leonardo Cotts.
Esta investigação foi desenvolvida através de uma parceria bilateral entre a Universidade de Lisboa e a Universidade do Estado do Rio de Janeiro, sendo financiada pela Fundação Carlos Chagas Filho de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro.
Fonte: Faculdade Ciências da Universidade de Lisboa















































