Há algo de simultaneamente improvável e inevitável naquilo que aconteceu nos últimos meses no Instituto Superior de Agronomia. Noventa e sete alunos do segundo ano transformaram-se, ao longo de um semestre, em programadores, analistas de dados, utilizadores de sensores e robots, e no final, também em apresentadores de produtos tecnológicos perante um painel especializado de jurados. A disciplina que tornou isto possível chama-se Sistemas Inteligentes e Robótica, SIR.
A SIR nasceu da convicção de que o profissional do setor primário do século XXI não pode ser alheio à revolução tecnológica que já está a transformar os campos, as florestas, as cadeias alimentares e os sistemas ambientais. Por isso, a unidade curricular foi desenhada com uma lógica deliberadamente interdisciplinar e plurinstitucional: ao longo do semestre, os alunos beneficiaram do contributo de docentes e investigadores provenientes de várias universidades, incluindo a Faculdade de Ciências e Tecnologia e o Instituto Superior Técnico, que trouxeram para a sala de aula perspetivas complementares sobre inteligência artificial, ciência de dados, robótica e gestão de projetos.
O programa percorreu um conjunto amplo de temas, inteligência artificial, ciência de dados e visualização, princípios de dinâmica e cinemática, robôs móveis e manipuladores, sensorização aplicada à agricultura e à rega, e desenvolvimento de projeto criativo, e sempre com um fio condutor: a aplicação ao mundo real. As sessões teóricas foram, semana após semana, seguidas de práticas em laboratório, onde os alunos trabalharam com IA e ferramentas de programação e visualização de dados.
A segunda metade do semestre foi inteiramente dedicada ao desenvolvimento de projetos em grupo. Aqui, a disciplina fez uma escolha pedagógica com relevância para além da sala de aula: as ideias a desenvolver podiam surgir de desafios propostos por empresas do setor, que apresentaram problemas reais à espera de solução, ou da iniciativa própria dos alunos, que identificaram necessidades e construíram respostas a partir do que tinham aprendido. Em ambos os casos, o processo foi o mesmo: levantamento do problema, conceção de uma solução tecnológica, programação, e iteração com o apoio de sessões de coaching com os docentes e com as empresas parceiras.
O Pitch Day que encerrou a disciplina foi o momento de síntese de tudo isto. Cada grupo apresentou o seu projeto em três dimensões: uma apresentação oral estruturada, uma demonstração da aplicação ou protótipo desenvolvido, e um vídeo comercial do produto, exercício que obrigou os alunos a pensar não apenas como engenheiros, mas como comunicadores e, em certo sentido, como empreendedores. Os projetos cobriram um espectro impressionante de domínios: monitorização inteligente de culturas com visão computacional, sistemas de apoio à decisão para gestão florestal, plataformas de sensorização da rega, otimização de rega em campos de golfe, ferramentas de estimativa de biomassa, contagem de animais, avaliação do stress animal, classificação automatizada de frutos e sistemas de certificação digital para produtos agrícolas, entre outros.
O que tornou este Pitch Day particularmente significativo não foi apenas a qualidade técnica das soluções, embora ela tenha surpreendido, mas a consciência que os próprios alunos revelaram sobre o seu percurso. São estudantes no segundo ano das suas licenciaturas. Sabem de onde vêm: da agronomia, da floresta, do ambiente, da produção animal, da alimentação. E sabem, cada vez com mais clareza, para onde vai o seu futuro: para um setor primário que vai precisar, inevitavelmente, de inteligência artificial, de dados, de robótica, de sistemas autónomos. A SIR não os converte em programadores. Dá-lhes ferramentas para serem engenheiros mais completos, capazes de dialogar com a tecnologia, de a usar e de a adaptar ao terreno.
Este é, acreditamos, o modelo de formação que o país precisa para enfrentar os desafios da transição digital no setor agroalimentar e ambiental. Não chega ensinar agronomia sem tecnologia, nem tecnologia sem agronomia. A SIR é uma aposta na convergência entre estes dois mundos, e os 97 alunos que saíram do Pitch Day com um produto desenvolvido, apresentado e filmado são a melhor prova de que esta aposta vale a pena.
Fonte: António Reis Pereira e Theo Fernandes
António Reis Pereira é investigador do INESC INOV-Lab no Instituto Superior Técnico e docente do ISA, Universidade de Lisboa, com investigação nas áreas de veículos autónomos partilhados e mobilidade inteligente. Theo Fernandes é docente da FCT e do ISA, com especialização em inteligência artificial e ciência de dados aplicadas ao setor do Ambiente e Sustentabilidade














































