Ontem o Público tinha uma notícia sobre uma reunião de dirigentes que ocorreu no Instituto de Conservação da Natureza e das Florestas (declaração de interesses, sou funcionário dessa instituição e, já agora, amigo de longa data do seu presidente, com quem mantenho profundas divergências no que à gestão do Instituto diz respeito).
Essa reunião já tinha, aliás, sido referida pela Ministra do Ambiente quando uns dias antes foi ouvida na Assembleia da República, e era uma reunião entre dirigentes do ICNF e a tutela política, no contexto de uma putativa reestruturação do ICNF.
Não é habitual haver notícias sobre reuniões internas de organismos públicos, mas o que se passa neste caso resulta de uma longa tensão entre a vontade do Governo aprovar de forma rápida e eficiente projectos que entende que são importantes para o país e a forma como são tomadas decisões pelos organismos ambientais, em especial o ICNF, tensão essa que não é de agora, é historicamente assim, com os diferentes governos e, convenhamos, será sempre assim, dando origem a inúmeras reestruturações (nalgumas delas participei activamente, não é o caso agora) que, desta vez (como em várias outras anteriores) há quem entenda que significam o fim das políticas de conservação tal como têm existido.
A polémica actual é um bom espelho do estado deplorável em que está a administração pública, a acção política e o jornalismo.
Comecemos pelos jornalismo.
A jornalista faz a peça com base em fontes anónimas, isto é, em princípio, dirigentes do ICNF que estiveram na reunião foram a correr para os braços da jornalista, quebrando as suas obrigações legais, mas sobretudo morais, de lealdade institucional.
Como se vê, eu escrevo o que me passa pela cabeça em relação à gestão do organismo em que trabalho, mas duvido que alguém consiga encontrar um único texto meu a falar de processos em curso sobre os quais eu tenha informação que decorre das minhas obrigações institucionais. Não se faz, em primeiro lugar, é ilegal, em segundo.
E das centenas de vezes que fui contactado por jornalistas a propósito de questões profissionais, não penso que exista um único registo meu a falar sob anonimato: ou não podia responder, e não respondia, ou se respondia, sempre, sempre, sempre, assumi a responsabilidade pelo que dizia, assinando por baixo, apesar das inúmeras ofertas de jornalistas me citarem sob anonimato para eu não ter problemas e poder falar mais livremente (a liberdade, caros jornalistas, não se defende escondendo a mão que atira a pedra).
Portanto, o jornalismo, como vem sendo hábito, prefere a intriga à informação, usando fontes anónimas interessadas para fazer peças que não tem maneira de confirmar.
O que o ministro da agricultura fez, depois de ser acusado de dizer que se a lei não permite a aprovação de qualquer coisa se muda a lei, e enquanto a lei não é mudada, relativiza-se a lei, foi disponibilizar um vídeo com a sua intervenção integral nessa reunião onde não podia estar fisicamente, um vídeo indigente, paternalista, com a esperteza habitual nestas matérias, em que diz coisas formalmente correctas, que se sabe que vão ser interpretadas da maneira incorrecta que pretende, mas não pode dizer.
Sim, é verdade que a peça jornalística não traduz correctamente o que ministro disse (e não sabemos se traduz correctamente o que o ministro pretendia dizer, porque não podemos fazer processos de intenções), mas em vez do senhor ministro se limitar a dizer que a peça, por responsabilidade da jornalista ou da sua fonte (é irrelevante), não traduz correctamente o que diz, desembesta em acusações aos dirigentes do ICNF, partindo do princípio de que a jornalista é impoluta (o Ministro não quer comprar uma guerra com jornalistas, outro dos problemas na choldra) e que os dirigentes a quem se dirigiu (alguns, poucos, tem o cuidado de dizer, sonsamente) são uns mentirosos (é sempre politicamente mais fácil atacar os que dependem de si que contestar lealmente quem escreve nos jornais, não é, senhor ministro?).
O Presidente do ICNF, ou seja, o general que parece não saber que quando se perde uma guerra a responsabilidade é sempre do general, nunca do soldado, resolveu (incompreensivelmente para mim), fazer eco das acusações do ministro.
O ministro tem razão em dizer que quando a lei impede um projecto, é preciso perguntar-se se a lei é a adequada ou se não será melhor mudá-la.
Mas essa responsabilidade é sua, Senhor Ministro, não é do técnico que emite o parecer.
A lei de protecção do sobreiro e da azinheira é absurda e estupidamente castradora, há anos que muita gente diz isso, está directamente sob sua tutela, o que fez para a mudar?
Nada, evidentemente, como os seus antecessores, porque significa comprar uma guerra política séria (as ONG e os jornalistas vão-lhe cair em cima a dizer que está ligado aos interesses e desvaloriza a conservação do património e essas balelas do costume, com um ganho político marginal, porque será sempre criticado pela aprovação de projectos que algumas pessoas acham que não deviam existir).
O senhor ministro tem razão quando diz que, frequentemente, a forma como é aplicada a lei e a sua interpretação é, pelo menos, discutível.
Mas a responsabilidade é sua, Senhor Ministro, é o senhor que nomeia gente sem espinha e sem qualificações para os cargos de direcção, usando uma CRESAP completamente desacreditada com máquina de lavar responsabilidades das suas escolhas de dirigentes, é o senhor que aceita a forma como funciona uma administração pública sem avaliação séria de resultados, é o senhor que varre para debaixo do tapete as responsabilidades que deveria exigir dos serviços que tutela, é o senhor que tem gabinetes de apoio mastodônticos que pretendem substituir a administração pública no apoio à definição de políticas, porque não confia (e bem) numa administração pública em estado miserável.
Tem razão, Senhor Ministro, o seu vídeo não diz o que a jornalista diz que diz, mas diz muito mais e, infelizmente, muito pior, do estado a que se chegou no jornalismo, na administração e na acção política.
Para além de uma choldra, D. Carlos dizia do país que era uma piolheira.
Infelizmente, as suas apreciações, hoje, parecem bem mais suaves que o que realmente caracteriza o país com rigor.
O artigo foi publicado originalmente em Corta-fitas.
















































