Uma Povoação isolada para “apertar o cerco” à covid-19

Uma Povoação isolada para “apertar o cerco” à covid-19

Na zona da Gaiteira, uma das entradas para o concelho da Povoação, entre Vila Franca e as Furnas, Açores, foram poucos os carros a circular durante a tarde desta segunda-feira. Tem sido assim durante o dia, segundo os guardas da PSP no local, que não estavam autorizados a prestar mais declarações. São eles os responsáveis por gerir os acessos à Povoação, concelho isolado desde domingo e que assim irá permanecer até 13 de Abril, devido a quatro casos positivos e à existência de transmissão local de covid-19.

O objectivo é impedir a transmissão comunitária, que ainda não existe no arquipélago onde estão confirmados 47 casos positivos: 18 em São Miguel, cinco no Faial, oito no Pico, sete em São Jorge e nove na Terceira – Corvo, Flores e Graciosa não registam qualquer caso.

Passado mais de meia hora, aparece uma carrinha, uma excepção neste dia. Ao volante, Fábio Sousa diz estar autorizado a passar o cerco para transportar mantimentos para as padarias. “Vim entregar bens essenciais, tenho uma declaração da Autoridade de Saúde.” Passou. Apenas estão autorizadas “deslocações necessárias e urgentes” ou a entrada de residentes, como referiu o executivo açoriano aquando do decreto do cerco sanitário naquela localidade, com cerca de seis mil habitantes e que dista cerca de 45 quilómetros do centro de Ponta Delgada.

Entre os residentes, Miguel Pimenta é dos que concorda com a medida, como explica ao telefone. Estudante em Lisboa, chegou aos Açores a meados do mês e desde daí que se encontra em quarentena numa casa sozinho. Inicialmente, não queria regressar à terra, mas voltou porque em Lisboa partilhava o apartamento com uma pessoa que continuava a sair para trabalhar. “O risco era maior para todos”, refere, apontando que Autoridade de Saúde o contacta todos os dias para se inteirar do estado clínico. Até agora, nada de anormal. Sobre o isolamento do concelho, diz tratar-se uma “boa medida”, uma vez que é uma “terra muito pequenina”, onde “vão todos ao mesmo supermercado”, por exemplo. “Vai servir como abre-olhos, vejo muita gente a pensar que não vai acontecer nada aqui porque somos um território pequeno.”

Pessoas em quarentena num hotel em Ponta Delgada Rui Soares

Em situação oposta está António Pacheco, 35 anos, para quem a vida decorre com normalidade. É agricultor e continua a ir todos os dias tratar das vacas. A seu cargo, tem uma equipa com mais duas pessoas, estando uma delas em quarentena por prevenção. Estando o abastecimento de ração e adubo assegurado e a circulação do leite garantida, o cerco sanitário não vai trazer “grandes condicionantes” à sua vida. Ainda assim, não concorda com ele, porque, apesar de ser necessário “tomar todas as precauções”, a “vida vai ter de continuar”. “Não podes parar a ilha toda durante um ano, porque o vírus está no início. Há que arranjar formas de lidar com isso e meter na cabeça que ainda vai durar”, defende.

A decisão parece mais consensual entre o poder local. O presidente da Câmara Municipal da Povoação Pedro Melo diz que foi “a medida correcta a tomar”, porque se está a actuar a “pensar na saúde, no presente e no futuro” dos povoacenses, começa por dizer ao PÚBLICO. O autarca vinca que nos últimos dias já havia “muita pouca gente a circular no concelho”, mas que, daqui para a frente, a “exigência vai ser ainda maior”. Ainda assim, não há motivo para alarme. “Os povoacenses têm de se manter tranquilos, sem alarmismo porque a situação não requer isso”, afirma, para frisar em seguida o carácter preventivo da medida: “Foi tomada com a preocupação de travarmos a propagação do vírus.”

Também Sandro Ferreira, presidente da Junta de Furnas, uma das seis freguesias do concelho — as outras são Água Retorta, Faial da Terra, Nossa Senhora dos Remédios, Povoação e Ribeira Quente — concorda com o cerco, que entende ser “necessário para proteger as pessoas”. As Furnas, onde a terra vulcânica lança vapor por qualquer fenda que encontra, fazem parte de qualquer guia turístico da região e é ponto de passeios entre os residentes, seja devido às fumarolas (as conhecidas caldeiras), quer pelo cozido confeccionado debaixo do solo ou pelas nascentes de água termal amarelada. O isolamento da freguesia irá deixar o presidente da junta menos preocupado. “O que me preocupava mesmo eram os domingos. Vinham pessoas de outras localidades passear, o que é impensável”, explica. Devido a estes passeios, “algumas pessoas ficaram fechadas” na freguesia quando o cerco foi implementando. Precisamente num domingo. Agora, para Sandro Ferreira, é preciso manter a “calma” e ter “esperança”. “Estamos a actuar por antecipação, vamos ter a esperança de que vamos controlar as coisas.”

“Apertar” cada vez mais o “cerco”

É com o objectivo de “controlar as coisas” que o Governo e a Autoridade de Saúde regionais têm aplicado medidas mais restritivas do que no resto do país. Isolar uma localidade quando estavam confirmados três casos (entretanto subiram para quatro) é disso exemplo.

O facto de os Açores serem uma “região arquipelágica com nove ilhas isoladas” e com uma “densidade populacional muito baixa” são os principais motivos para estas medidas “restritivas e duras”, expressões utilizadas por Teresa Machado Luciano, secretária regional da Saúde, ao PÚBLICO. “Temos vindo cada vez mais a apertar o cerco para manter esta fase de contenção alargada o máximo tempo possível, diferente da fase de mitigação do continente”, assinala, referindo que o cordão sanitário na Povoação foi criado “não pelo número de casos”, mas pela “complexidade da situação”, que envolvia “várias localidades e portas de entrada” e pela existência de contaminação local.

Para a definição de caso suspeito por covid-19, “além das condições clínicas é considerado caso suspeito todos os que vêm do continente”, explica ainda a governante, justificando porque existem 113 casos suspeitos e 2278 casos de vigilância activa numa região com menos de 250 mil habitantes. 

Rui Soares

Confinados nos hotéis

Outra medida implementada pelas entidades regionais na semana passada foi a obrigação de confinamento obrigatório em hotéis específicos para todos aqueles que chegam à região, independentemente de serem residentes ou não. Uma medida mais “dura” do que a aplicada a 15 de Março que decretava a obrigatoriedade de quarentena a todos os que se deslocassem ao arquipélago, depois de António Costa não ter acorrido aos pedidos de encerramento dos aeroportos solicitados pelas regiões autónomas.

Neste momento, um dos três hotéis destinados ao confinamento obrigatório é o Hotel Marina. “Hoje esgotámos a capacidade máxima definida porque ficámos com 75 quartos em quarentena”, explica Nuno Borges, da comunicação do grupo gestor do hotel, reiterando que os hóspedes estão obrigados a permanecer nos quartos e que as refeições são servidas em kits descartáveis. Depois de nos primeiros dias terem existido “problemas” com hóspedes que “não estavam avisados das medidas”, Nuno Borges diz que agora “está tudo a correr de forma natural”. “As pessoas estão mais conscientes.”

Sobre a constitucionalidade das medidas, a secretária regional diz estar de consciência tranquila, uma vez que todas elas tiveram “o aval do representante da República” Pedro Catarino, responsável pela aplicação do estado de emergência nos Açores. Numa região que tem vindo a registar novos casos todos os dias, Teresa Luciano não quer fazer previsões. “Não sabemos o futuro, estamos a fazer o melhor. A atitude de cada um é que vai ajudar.” Para combater a pandemia, a fórmula é igual em todo o lado.

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O artigo foi publicado originalmente em Público.

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