Um Partido da Agricultura? – Carlos Neves

Um Partido da Agricultura? – Carlos Neves

Há dez mil anos atrás, os humanos descobriram a agricultura, começando a utilizar sementes e domesticando os primeiros animais. Deixaram de ser apenas caçadores-recolectores e com o tempo livre criaram as primeiras civilizações. A agricultura evoluiu de forma lenta ao longo de milhares de anos, de tal modo que ainda há poucas dezenas de anos a maioria da população dedicava-se à agricultura. A parte restante tinha os avós na aldeia ou pelo menos respeitava um setor cuja evolução acompanhava semanalmente através do TV Rural apresentado pelo Engº Sousa Veloso no canal 1 da RTP, a única televisão que existia.  Hoje a agricultura representa menos de 6% da população ativa, a maioria da população vive em zonas urbanas e até os que ainda dormem no meio rural desconhecem como a agricultura evoluiu. Em paralelo, a luta pelas audiências na TV tornou-se frenética, jornais e revistas disputam leitores para sobreviver e novos “influenciadores” buscam “cliques e likes” no facebook, no youtube, no instagram, nos documentários e por aí fora. Para eles, a alimentação e o ambiente são temas apetecíveis porque interessam a toda a população e a agricultura torna-se vítima colateral dessa guerra de protagonismo. Na procura de novas “causas” que às vezes parecem novas “religiões”, multiplicam-se as críticas, ataques e tentativas de proibições sobre pecuária, touradas, caça e até sobre a agricultura convencional, a agricultura “normal”, praticada por 95% dos agricultores. A agricultura está debaixo de fogo.

Perante este movimento que passa das redes sociais para os bancos dos parlamentos e quer à força do ativismo converter a agricultura e o mundo rural àquilo que a  visão urbana  baseada no Google e Youtube quer determinar, perante a pouca resposta dos partidos tradicionais, surgem algumas vozes a defender a criação de um partido da agricultura e do meio rural, que poderia ter alguma expressão eleitoral por representar os interesses de centenas de milhares de pessoas ligadas à agricultura e atividades relacionadas.

É certo que um dos pilares básicos da democracia é o direito de associação e reunião. É verdade que apesar do desgaste dos partidos tradicionais os novos partidos que surgiram também não parecem mobilizar os eleitores. Contudo, discordo que seja boa ideia lançar “o partido da agricultura” e passo a dizer porquê:

– Um novo partido iria excluir os votos urbanos e disputar os votos “rurais” com os partidos existentes. Uma parte dos eleitores pode mudar o voto, mas outra parte tem o seu partido definido e não vai mudar. Veja-se como falharam até agora os “partidos dos reformados”, apesar de existirem em Portugal três milhões e meio de pensionistas.

– Lançar um novo partido demora tempo e custa muito dinheiro. Para haver dinheiro é preciso haver muita gente a contribuir. Os agricultores e demais habitantes do meio rural já são poucos e pela evolução natural serão menos no futuro.

– Um novo partido exige líderes com carisma, capacidade, experiência. Não será fácil encontrar por aí gente com essas capacidades que ainda esteja livre e disponível.

– Os interesses dos agricultores do Norte são diferentes dos seus colegas do Centro, Sul e Ilhas, do litoral ou do interior, dos horticultores aos viticultores, dos mais jovens aos mais velhos, da caça à pesca.

– Os partidos de “causas específicas” podem ser motivadores num dado momento, sobretudo pela novidade, mas acabam por “mancar” fora do seu tema. No Parlamento Europeu, na Assembleia da República ou em qualquer Assembleia Municipal discutem-se e votam-se todas as leis que regem todos os aspetos da nossa vida em sociedade. Os partidos têm de ter uma visão, uma política, uma posição em relação a todos os temas, não podem apenas votar as leis que lhes interessam e abster-se de tudo o resto.

 Dito isto, não creio que seja motivo para desanimar e desistir. Primeiro, há que assumir sem lamentações que vivemos tempos diferentes: O trabalho agrícola tornou-se fisicamente mais fácil mas psicologicamente mais duro. Tecnicamente, temos a experiência acumulada de milhares de anos, temos investigadores a trabalhar para nos ajudar a resolver as dificuldades que surgem, temos apoio técnico, tratores com ar condicionado, sensores e software que ajudam a gerir as atividades. Mas temos novas dificuldades de interação com a sociedade que precisam também de uma resposta científica e profissional ao nível de comunicação.

Os agricultores, os seus familiares, funcionários, fornecedores, técnicos e todos os que fazem parte da cadeia “do prado ao prato” também podem ser ativistas, “agvogados”, advogados da agricultura, na rua ou nas redes sociais. Nem todos poderão ser “agro-influencers”, mas podem ao menos apoiar aqueles que os tentam defender.

As organizações de agricultores, nomeadamente associações e cooperativas, devem fazer o seu trabalho de representar os interesses dos associados, fazer contactos com todos os partidos, sugerir, exigir, intervir na sociedade, comunicar, organizar eventos e, apesar das suas diferenças, devem ser capazes de cooperar em tudo o que for essencial. E precisam de massa crítica, precisam que os seus associados participem, ajudem e exijam ação dos seus dirigentes. Por último, em vez de termos um partido da agricultura, proponho termos agricultura em todos os partidos. Os agricultores podem e devem participar ativamente na vida dos partidos políticos. Da agricultura depende a alimentação da população, a ocupação do território, a modulação da paisagem, o equilíbrio ambiental. A presença de agricultores ativos em todos os partidos permitirá aos partidos terem uma ligação permanente com a agricultura e permitirá ao setor ser defendido por todos. Sabemos que nenhum partido é perfeito e temos uma imagem péssima dos partidos porque eles são muito melhores a deitar abaixo os adversários do que a defender as suas propostas. Mas os partidos têm a força, os defeitos e virtudes que as pessoas levam para lá. Há que escolher o menos mau. Entre os 17 partidos das últimas eleições e mais algum que possa nascer, se formos razoáveis, haverá algum capaz de merecer o nosso voto e a nossa participação cívica por um futuro melhor para a agricultura e para o país.

Carlos Neves, agricultor, produtor de leite e vice-presidente da Aprolep

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