Estive ontem numa sessão organizada pelo Conselho Nacional do Ambiente e Desenvolvimento Sustentável que tinha como objectivo ajudar o referido Conselho a participar no processo de elaboração do Plano Nacional de Restauro da Natureza.
Pessoalmente, o referido Plano Nacional de Restauro da Natureza interessa-me relativamente pouco (eu conheço o suficiente da administração pública portuguesa para saber o que é mais provável acontecer) e mesmo a ideia de ter uma política nacional e comunitária de restauro da natureza, nos termos em que esta existe, é uma ideia que me atrai pouco.
As minhas razões são essencialmente ideológicas, não me parece que seja possível ter uma política de restauro da natureza feita de cima para baixo, em especial tendo uma administração pública como a portuguesa (e, dentro desta, o actual Instituto da Conservação da Natureza e Florestas) a puxar a carroça.
Independentemente disso, e esperando francamente que eu esteja completamente enganado em relação à utilidade deste processo, a sessão foi muito interessante porque assentou na apresentação do trabalho de gente que anda a fazer restauro da natureza por vontade própria, sem esperar pelas decisões do Estado nessa matéria.
Cada uma das apresentações tinha as suas especificidades e as diferentes organizações têm, forçosamente, as suas idiossincrasias, sendo provável que traço mais comum entre toda a gente que anda a fazer restauro da natureza seja o facto de todos fazerem asneiras, inevitavelmente.
Dentre as organizações que apresentaram o seu trabalho, estava a Montis, cujo Vice-Presidente, Luís Lopes, fez uma apresentação que me pareceu bastante boa, sobretudo por ser muito ilustrativa de uma das características identitárias da Montis: a sua opção por produzir biodiversidade a partir de terras marginais que não têm interesse para ninguém, nem para os conservacionistas.
Um bom exemplo do que tem vindo a ser feito está implícito neste post recente do blog da Montis, sobre algum do trabalho que foi sendo feito em Fevereiro, no baldio de Carvalhais.
Quando a Montis começou a gerir 100 hectares no baldio de Carvalhais, a área sob sua responsabilidade era praticamente um giestal contínuo, com três, quatro metros de altura, resultante de um fogo ocorrido dez anos antes, e a Montis não tinha recursos praticamente nenhuns, nem dinheiro, nem gente, nem redes de contactos, nem grande conhecimento, diga-se de passagem, incluindo sobre a área que ia começar a gerir, até porque penetrar o dito giestal era praticamente impossível, para além de largamente inútil.
Aceitar gerir esses 100 hectares, nessas condições, não foi pacífico dentro da Montis, havendo quem, com razões bastante racionais, entendesse que era preferível começar numa área mais pequena, com alguns valores de conservação identificados.
Lá se conseguiu arranjar meia dúzia de tostões (através de crowdfunding) e, ao fim de algum tempo, conseguimos fazer um primeiro fogo controlado, em vinte hectares, integrado num programa de gestão que previa queimar, em anos seguidos, mais duas parcelas, uma de dez e outra de vinte hectares, um ano sem queimar, e retomar o ciclo de fogos em anos sucessivos nas mesmas parcelas, de maneira a que cada parcela seria queimada de quatro em quatro anos.
Também esta opção de gestão não foi pacífica, mas a verdade é que permitiu o acesso às áreas tratadas com fogo controlado, sobretudo procurando reter solo nas zonas mais baixas através de técnicas de engenharia natural, complementadas por sementeiras e plantações que trouxessem diversidade estrutural à área, já que uniformidade tinha impedido a existência de uma base florística diversificada que fosse produzindo sementes que sustentassem uma regeneração da vegetação natural diversificada.
Partindo do pressuposto de que a área arderia de qualquer maneira (ainda não ardeu, por puro acaso, esteve para acontecer em vários dos grandes fogos da região), a ideia central era permitir que a regeneração pós fogo não fosse o giestal monótono e contínuo, mas uma regeneração pirodiversa, isto é, com diversidade induzida pela diversidade das características do fogo, em função do combustível disponível.
Não ardendo, até agora, por puro acaso, volto a frisar, a evolução em mosaico tem vindo a processar-se em função do programa de fogo entretanto aplicado (e, actualmente, em revisão), das alterações do solo induzidas pelo próprio fogo, pela dinâmica da vegetação e pelas técnicas de engenharia natural, e da introdução de propágulos diversificados através de plantações localizadas e sementeiras.
Esta evolução induz uma diversidade de habitats que é explorada por uma fauna cuja diversidade vai aumentando, o que se traduz, também, por um efeito relevante de dispersão de sementes e outras microalterações de habitat e das próprias comunidades faunísticas.
Quando vier o próximo fogo, e ele virá, mais tarde ou mais cedo, em vez de um giestal maduro e contínuo que arde de forma mais ou menos igual, dando origem a uma resposta igualmente uniforme de regeneração (destruição da camada superficial do solo por fogo intenso e regeneração abundante de giesta), encontrará cem hectares dos quais 50 são do tal giestal maduro, mas não tão contínuo, e outros cinquenta terão uma diversidade acentuada de acumulação de combustível, que dará origem a alterações de intensidade do fogo, o que resulta em diferenças na resposta do ecossistema, para além de uma diversidade florística que tenderá a ter maior capacidade de reacção ao fogo, através de uma regeneração muito mais diversa.
Se, como comentava alguém, houver dúvidas de consignação do IRS a organizações suficientemente grandes para ter gente famosa a fazer publicidade nas televisões (frequentemente essa publicidade é gratuita, um gesto de boa vontade das pessoas envolvidas), a resposta pode estar nestas organizações mais pequenas, que comunicam mal, que não têm sido capazes de atrair gente que lhes dê mais notoriedade, mas que, devagar, devagarinho, e de forma suficientemente transparente para que qualquer pessoa possa verificar em que é que é gasto o dinheiro, sempre vão tornado úteis paisagens a que antes ninguém dava atenção.
O artigo foi publicado originalmente em Corta-fitas.














































