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Agroportal
ESAC

Portugal está a deixar a cortadéria invadir

por Agroportal
07-09-2026 | 15:18
em Últimas, Comunicados
Tempo De Leitura: 8 mins
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Uma das plantas invasoras mais rápidas e perigosas do país já está presente em mais de 200 municípios. Especialistas alertam “cada ano em que se atrasa a intervenção torna o problema mais caro, mais difícil e praticamente impossível de travar. É urgente intervir!”

“A cortadéria não está a invadir Portugal. Portugal é que está a deixar a cortadéria invadir”, defende responsável pelo projeto LIFE COOP Cortaderia na Escola Superior Agrária de Coimbra

Há uma invasão a acontecer em Portugal que cresce à margem das estradas, ocupa terrenos abandonados, invade áreas naturais, margens de rios e zonas costeiras e, em muitos locais, já faz parte da paisagem ao ponto de deixar de ser reconhecida como uma planta que veio de fora há menos de um século. Também cresce em jardins privados, de municípios, de juntas de freguesias, de escolas, de empresas e de outras entidades! É a erva-das-pampas, penachos, plumas, cortadéria ou Cortaderia selloana.

Bonita, ornamental, plantada em jardins e colocada em jarras, aparentemente inofensiva, esta gramínea originária da América do Sul é, na realidade, uma espécie exótica invasora com uma enorme capacidade de dispersão. Um estudo científico recente [1] sobre a distribuição das plantas invasoras em Portugal continental identificou Cortaderia selloana em 208 municípios (é possível que esteja em mais!), colocando-a entre as dez plantas invasoras com distribuição mais ampla no país.

“Não estamos perante uma ameaça futura. A invasão já está instalada. E está a avançar rapidamente. O problema não é a falta de conhecimento. É a falta de ação à escala necessária. Portugal sabe há anos que a cortadéria é uma espécie invasora”, reforça Hélia Marchante, professora na Escola Superior Agrária da Universidade Politécnica de Coimbra, entidade parceira do projeto LIFE COOP Cortaderia.

O Decreto-Lei n.º 92/2019, que estabelece o regime nacional de prevenção e gestão das espécies exóticas invasoras, inclui expressamente a Cortaderia selloana na Lista Nacional de Espécies Invasoras. A legislação interdita, entre outros, a sua detenção, cultivo, comércio, transporte e utilização como planta ornamental e determina a adoção de medidas de gestão adequadas. Mais importante, a própria legislação estabelece uma lógica inequívoca: prevenir, detetar cedo e agir rapidamente.

O artigo 23.º determina a existência de um sistema de vigilância; o artigo 24.º estabelece a comunicação imediata de novas ocorrências; e o artigo 28.º determina que as espécies invasoras com ocorrência no território nacional sejam objeto de planos de ação para controlo, contenção ou erradicação, com prioridades definidas em função da gravidade da ameaça e da dificuldade de intervenção. O Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF) tem o Plano de Ação para controlo de Cortaderia praticamente pronto, mas a sua publicação e, mais relevante ainda, a sua implementação teima em não acontecer…

“A ciência diz para agir cedo. A legislação diz para atuar. A experiência internacional mostra que esperar torna tudo pior. Então, porque continuamos a assistir à expansão da cortadéria?”, pergunta a investigadora e especialista em espécies invasoras.

“Cada planta que se deixa produzir sementes é uma fábrica de novas invasões!”, assegura Hélia Marchante.

Uma única planta feminina pode produzir dezenas de milhares de sementes, transportadas pelo vento a grandes distâncias. A espécie instala-se particularmente bem em solos perturbados e áreas humanizadas e, a partir daí, pode avançar para habitats naturais. Quando a população ainda é pequena, a intervenção pode ser relativamente simples. Arrancar com uma enxada pode ser suficiente. Quando já existem centenas ou milhares de plantas, a realidade muda radicalmente: a erradicação torna-se tecnicamente impossível! O controlo e contenção tornam-se mais difíceis, mais prolongados e muito mais dispendiosos. É precisamente por isso que a deteção precoce e a rápida intervenção são princípios fundamentais na gestão das invasões biológicas, explica Pedro Gomes, investigador do projeto LIFE COOP Cortaderia.

No caso da cortadéria, uma investigação científica publicada em 2024 salienta precisamente os elevados custos de controlo associados ao seu extenso sistema radicular e à capacidade de rebentamento após danos físicos [2]. Nessa medida, “o que hoje pode ser travado com uma intervenção atempada pode amanhã exigir anos de trabalho e muito mais dinheiro público e privado”, avisam os especialistas.

“E há outra dimensão que não podemos continuar a ignorar: a saúde humana.” A cortadéria não é apenas um problema de biodiversidade. O seu pólen pode ser alergénico. Um estudo clínico publicado na revista Scientific Reports encontrou evidências fortes de que pessoas sensíveis ao pólen de outras gramíneas podem também reagir ao pólen da cortadéria. Os autores alertam para o potencial da espécie em se constituir um problema de saúde ambiental, particularmente porque a sua floração tardia pode prolongar o período de exposição ao pólen [3]. Outro artigo reforça esta preocupação: em regiões mediterrânicas, espécies exóticas como a cortadéria podem criar uma segunda época de exposição ao pólen no outono, com implicações para a saúde pública [4].

“A discussão sobre a Cortaderia não pode continuar confinada à conservação da natureza.

É uma questão de biodiversidade.

É uma questão de território.

É uma questão económica.

É uma questão de saúde pública.

É, em última análise, uma questão de qualidade de vida.

O custo da inação será pago por todos!”, garantem os investigadores.

Os impactes das invasões biológicas não terminam quando uma planta ocupa um terreno. A cortadéria altera habitats, compete com a vegetação autóctone, degrada áreas naturais e afeta atividades produtivas e o valor recreativo e paisagístico dos territórios. A literatura científica sobre a espécie identifica impactes ambientais e socioeconómicos e alerta para os elevados custos associados ao seu controlo [2].

“E existe uma regra simples que precisamos de levar a sério: quanto mais esperamos, mais pagamos.

Pagamos em dinheiro público.

Pagamos em biodiversidade perdida.

Pagamos em qualidade da paisagem.

Pagamos em áreas naturais degradadas.

Pagamos em horas de trabalho que poderiam ter sido evitadas.

Pagamos também em degradação da saúde Pública.

Não basta pedir aos cidadãos que arranquem todas as plantas. Os cidadãos têm um papel fundamental: reconhecer a espécie, evitar a sua utilização e disseminação, controlar nos seus jardins e terrenos e comunicar novas ocorrências. Podem fazê-lo na App iNaturalist, projeto invasoras.pt. Mas não podemos transferir para os cidadãos a responsabilidade de resolver uma invasão à escala nacional.”

“É necessária uma resposta coordenada entre administração central, municípios, proprietários, gestores de infraestruturas, empresas, agricultores, entidades gestoras de áreas protegidas, investigadores, organizações não governamentais e cidadãos.

E é necessária uma mudança de paradigma: não podemos continuar a intervir apenas onde e quando a cortadéria já domina. Temos de procurar e eliminar os novos focos antes que se transformem em grandes focos.”

“E os meios de comunicação também têm um papel a desempenhar: a comunicação social tem um papel decisivo na prevenção das invasões biológicas.

Uma planta invasora que passa despercebida é uma planta que pode continuar a reproduzir-se. Durante anos, a cortadéria foi frequentemente apresentada como uma planta ornamental, bonita ou característica da paisagem, sem que fosse explicado ao público que se trata de uma espécie invasora legalmente reconhecida como tal. A normalização de uma invasora também contribui para a sua expansão. Os media não têm de transformar cada avistamento numa notícia. Mas têm condições únicas para fazer aquilo que muitas campanhas de conservação não conseguem fazer sozinhas: tornar o problema visível, explicar como reconhecê-lo e criar pressão social para que a resposta aconteça.

É urgente que a comunicação sobre espécies invasoras deixe de acontecer apenas quando há uma campanha, um projeto europeu ou uma ação de voluntariado.

O problema exige atenção quando está a acontecer — não quando já se tornou impossível ignorá-lo. Portugal ainda pode travar a invasão. Mas não pode continuar a esperar”, asseveram os entendidos na matéria.

O projeto europeu LIFE COOP Cortaderia, que envolve Portugal, Espanha e França, está a trabalhar para reforçar a cooperação, a governação e a ação coordenada contra esta espécie no Arco Atlântico, incluindo a proteção de zonas da Rede Natura 2000 e corredores fluviais.

Existe conhecimento científico.

Existem métodos de controlo.

Existe legislação.

Existem projetos e redes de cooperação.

Existem cidadãos disponíveis para ajudar.

“O que falta é transformar estes recursos numa resposta rápida, abrangente e continuada”, defendem Hélia Marchante e Pedro Gomes.

E prosseguem, “a cortadéria não vai esperar pela próxima estratégia, pelo próximo plano, pelo próximo financiamento, pela próxima campanha de sensibilização…

Vai continuar a produzir sementes.

Vai continuar a dispersar-se.

Vai continuar a ocupar território e a causar problemas.”

Segundo estes dois especialistas, a pergunta à qual todos temos de responder é simples: “Vamos agir enquanto ainda conseguimos travá-la — ou vamos esperar que outros o façam, quando for demasiado tarde?”

Fonte: ESAC

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