A área mundial de culturas geneticamente modificadas (GM) atingiu um novo máximo histórico em 2025: 216 milhões de hectares. O valor representa um crescimento de 2,5% face ao ano anterior, ou cerca de 5,3 milhões de hectares adicionais, segundo o mais recente Global GM Crop Area Review, do AgBioInvestor.
✍️ Carla Amaro
O milho esteve na origem de grande parte deste crescimento, enquanto a China protagonizou uma das maiores expansões do ano, aumentando em 79% a sua área de culturas GM. O Brasil, por seu lado, aproximou-se ainda mais dos Estados Unidos, reduzindo a diferença entre os dois países para apenas 5,2 milhões de hectares. No total, 30 países cultivaram 11 espécies geneticamente modificadas durante o ano agrícola de 2025.
A análise do GM Monitor inclui sementes comerciais, sementes fornecidas por entidades governamentais e sementes guardadas pelos próprios agricultores. Para permitir comparações entre os dois hemisférios, o AgBioInvestor considera como ano agrícola o período entre 1 de julho e 30 de junho.
A variedade de culturas abrangidas é ampla: vai de grandes commodities, como soja, milho, algodão e colza, a culturas com áreas mais reduzidas, como trigo, cana-de-açúcar, feijão-frade e beringela.
Milho acelera, mas a soja continua a liderar
A soja continua a ser, de longe, a cultura transgénica com maior expressão mundial. Em 2025, ocupou 106,2 milhões de hectares, o equivalente a 49,2% de toda a área de culturas GM do planeta. Ainda assim, o crescimento foi relativamente modesto, de 1% face ao ano anterior.
O grande destaque foi o milho. A área de milho transgénico aumentou 7,9%, para cerca de 74,6 milhões de hectares, representando 34,6% da área mundial de culturas GM. Seguiram-se o algodão, com 22,6 milhões de hectares, e a colza, com 10,8 milhões.
Os dados mostram também o peso que a biotecnologia já alcançou em algumas culturas. Segundo as estimativas do AgBioInvestor, as variedades GM representam 76,7% da área mundial de algodão e 73,9% da área de soja.
As Américas continuam a concentrar a produção
A América do Sul e a América Central voltaram a ser a principal região produtora de culturas GM, com 103,6 milhões de hectares, mais 3,1% do que em 2024. A América do Norte ocupou a segunda posição, com 86,8 milhões de hectares, embora tenha registado uma ligeira descida de 0,3%. No conjunto, as duas regiões americanas concentraram cerca de 190,4 milhões de hectares, aproximadamente 88% de toda a área mundial de culturas geneticamente modificadas.
O maior crescimento regional ocorreu, contudo, na região Ásia-Pacífico. A área de culturas GM aumentou 12,3%, atingindo 22,1 milhões de hectares, sobretudo devido à rápida expansão do milho transgénico na China.
Na Europa, pelo contrário, a área manteve-se residual, pouco acima dos 70.000 hectares e concentrada quase totalmente em Espanha. Em Portugal, a área de OGM (milho Bt) tem vindo a diminuir devido, sobretudo, às restrições impostas pela UE relativamente à produção de novos eventos.
China dá um salto de 79%
A China foi uma das grandes protagonistas da expansão dos OGM em 2025. A área de culturas geneticamente modificadas aumentou 79% num único ano, para aproximadamente 6,2 milhões de hectares, colocando o país como o sexto maior produtor mundial.
O crescimento deve-se sobretudo à expansão comercial do milho transgénico. A área cultivada com milho GM passou de cerca de 670.000 hectares para aproximadamente 3,2 milhões de hectares em 2025.
Apesar do forte crescimento, os OGM representam ainda apenas cerca de 7% dos aproximadamente 45 milhões de hectares de milho cultivados na China. Existe, por isso, uma margem significativa para uma expansão futura, caso a adoção destas variedades continue a aumentar.
A China também ampliou a área de soja GM, embora esta continue a representar uma pequena parcela da produção nacional.
Segundo o AgBioInvestor, a comercialização de milho e soja GM na China encontra-se ainda numa fase relativamente inicial quando comparada com países como os Estados Unidos, o Brasil e a Argentina, onde a adoção das principais culturas transgénicas já está próxima dos níveis máximos.
Brasil aproxima-se dos Estados Unidos
Os Estados Unidos continuam a liderar o ranking mundial, com 75,2 milhões de hectares de culturas GM. A área, contudo, recuou ligeiramente, 0,2%, em 2025.
O aumento de 8% na área de milho transgénico não foi suficiente para compensar as reduções registadas na soja, no algodão, na colza, na beterraba sacarina e na luzerna.
O Brasil seguiu em sentido contrário. A área de culturas GM aumentou 3,1%, para 70 milhões de hectares, consolidando o país como o segundo maior produtor mundial.
A diferença entre os dois países é agora de apenas 5,2 milhões de hectares, a menor de sempre. A título de comparação, em 2008 os Estados Unidos cultivavam mais 41,5 milhões de hectares GM do que o Brasil.
No Brasil, a soja representa a maior fatia da área transgénica, com 46,9 milhões de hectares, seguida do milho, com 21 milhões, e do algodão, com 2,1 milhões.
A adoção de variedades GM é particularmente elevada no milho e no algodão: as variedades transgénicas representam cerca de 96% e 99%, respetivamente, da área nacional destas culturas.
A Argentina completa novamente o pódio mundial, com 25,4 milhões de hectares, mais 3,4% do que em 2024. A soja destacou-se particularmente, com um crescimento de 10%, para 17,8 milhões de hectares.
O país continua também a ser o principal produtor do único trigo transgénico atualmente comercializado à escala agrícola: o trigo HB4, desenvolvido pela Bioceres. A área cultivada aumentou 14,2% em 2025, para aproximadamente 55.250 hectares.
No conjunto, Estados Unidos, Brasil e Argentina concentram cerca de 79% de toda a área mundial de culturas GM, demonstrando que a produção continua fortemente concentrada, apesar da entrada gradual de novos mercados.
África começa a ganhar terreno
As mudanças registadas em África têm uma dimensão muito menor em termos absolutos, mas são importantes para a expansão geográfica dos OGM.
O Gana começou, em 2025, a produzir feijão-frade transgénico resistente a insetos, tornando-se o mais recente país a cultivar organismos geneticamente modificados.
Trata-se da variedade Songotra-T, baseada no mesmo evento de resistência a insetos utilizado anteriormente na Nigéria.
No Quénia, a área de algodão GM mais do que duplicou, atingindo cerca de 14.600 hectares. Ao mesmo tempo, vários países africanos estão a avançar, em diferentes fases, para a utilização de variedades de milho desenvolvidas no âmbito do projeto TELA, que procura combinar resistência a insetos e tolerância à seca.
O relatório identifica avanços ou processos regulamentares em países como a Nigéria, a Etiópia, o Quénia e Moçambique.
Apesar de África representar ainda uma pequena parcela da área mundial de culturas GM, estes desenvolvimentos podem ser importantes para a próxima fase de crescimento da tecnologia. Em vez de depender sobretudo do aumento da adoção nos mercados já maduros, a expansão poderá passar cada vez mais pela entrada em novos países e sistemas agrícolas.
De 1,7 milhões para 216 milhões de hectares em três décadas
As primeiras plantações comerciais de culturas transgénicas começaram em 1996, quando a área mundial era de aproximadamente 1,7 milhões de hectares.
Quase três décadas depois, em 2025, esse valor chegou aos 216 milhões de hectares — mais de 120 vezes a área registada no início da expansão comercial.
A geografia deste crescimento está, no entanto, a mudar. Em vários dos grandes produtores americanos, a adoção de soja, milho e algodão GM está próxima da maturidade. Ao mesmo tempo, países como a China e várias nações africanas começam a ganhar peso.
O relatório do AgBioInvestor aponta assim para uma possível mudança na próxima fase de expansão dos OGM: além do crescimento das áreas já existentes, a entrada de novos mercados, novas culturas e novas características biotecnológicas poderá desempenhar um papel cada vez mais importante.
Mais informação em ChileBio.
O artigo foi publicado originalmente em CiB – Centro de Informação de Biotecnologia.















































