Não sei em que ano foi, mas fiquei suficientemente traumatizado para me lembrar como se fosse hoje. Na década de 80, um outono com muita chuva impediu a colheita do milho com o trator nos terrenos mais encharcados e obrigou-nos a andar dias a cortar o milho à mão com a foucinha e arrastá-lo às postas por cima da terra enlameada até à máquina de ensilar colocada num ponto mais alto.
Alguns anos mais tarde, o vento tombou milheirais e as máquinas não conseguiam apanhar esse milho caído.
No ano 2000, no primeiro ano em que colhi o milho silagem com uma ensiladora automotriz, uma cheia na véspera obrigou-me a deixar uma parte para mais tarde desfolhar, à mão e de galochas.
Por causa de tudo isto que passei desde tenra idade, fui antecipando a sementeira e a colheita do milho, conforme permitem os terrenos e o clima.
O facto de cultivar mais de 20 parcelas dispersas num raio de vários kms tem muitos custos mas também tem a vantagem de cultivar solos diferentes, uns mais secos outros mais frescos. Nos terrenos mais secos consigo semear no início de abril, nos outros só um mês mais tarde e, às vezes, em alguns pontos só em junho, colocando aí variedade de milho muito curto. Na maior parte dos terrenos faço milho silagem e escolho alguns terrenos mais secos para milho grão, que tem de ficar mais tempo no terreno a secar. Noutras zonas do país, por causa da temperatura e humidade, só conseguem semear e colher mais tarde.
Andar o mais cedo possível é uma opção minha, que me permite quase sempre colher antes do vento e da chuva, mas também tem custos. Tenho de colher a erva mais cedo e com menos produção. Se vier muita chuva depois da sementeira pode arrastar a terra e encharcar os terrenos mais frescos.
Idealmente o milho silagem tem de ser colhido com uma humidade de 65% em toda a planta e o milho grão só pode ter 14% de humidade no grão para ser armazenado ou utilizado nas rações. Costuma-se colher com mais humidade, idealmente pelos 20%,mas depois tem que ir ao secador, e fica mais caro quanto mais humidade tiver.
Para evitar a despesa com o secador, há regiões no centro da Espanha ou aqui em Chaves e na zona centro / sul de Portugal onde o milho só é colhido só no final do ano ou nos primeiros meses do ano seguinte. São regiões onde chove menos do que aqui no Minho e onde só fazem uma cultura anual, o milho. Se tiver boa sanidade no caule para não cair e a espiga estiver virada para baixo, o grão de milho está protegido e bem conservado… Se não chover torrencialmente e ao longo de meses como aconteceu este ano. Por isso é que ainda há milho sem colher. Começou a chover em Novembro e ainda não houve uma temporada para enxugar a terra.
Produzir um hectare de milho custa cerca de 2000€. É preciso ter uma boa produção para pagar as despesas. Há um pequeno subsídio de 200€ por hectare… mas que só é pago a quem produzir e entregar milho numa organização de produtores.
Vi muitos comentários sobre estas notícias de quem pensa que as pessoas deixaram ficar o milho no campo para receber subsídios. Não façam essas acusações, não faz sentido, é como acusar outras pessoas de ter os telhados mal seguros…
Muita força para quem foi afetado e que venha bom tempo para colher o que se puder aproveitar e reparar o que se estragou nos campos e nas casas.
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O artigo foi publicado originalmente em Carlos Neves Agricultor.














































