O Fórum para o Futuro da Agricultura decorreu em Bruxelas, no dia 14 de abril, reunindo especialistas mundiais em torno do tema ‘Rebooting the Food System’. Seremos capazes?
O chairman do FFA – Fórum para o Futuro da Agricultura, Janez Potočnik, reconheceu o problema planetário que nos afeta a todos — estamos a sobre explorar os recursos naturais — e indicou a solução óbvia: temos de cooperar para ultrapassar os problemas.
Quais as consequências da nova ordem mundial para a agricultura e o ambiente?
Michael Werz, senior fellow do Council on Foreign Relations, denunciou a instrumentalização da comida como arma na Faixa de Gaza, no Sudão, na Nigéria e na Ucrânia, e apelou à assinatura de um tratado internacional que classifique tais atos como crimes de guerra. “Há uma necessidade urgente de alargar o conceito de segurança à alimentação, porque estamos a viver numa década em que mais investimento será aplicado em defesa do que no crescimento económico da Europa”, alertou o responsável deste think tank americano.

No cenário atual de instabilidade geopolítica, a soberania alimentar da Europa pode estar em risco, considerando que 40% dos alimentos que consumimos são produzidos fora da Europa, disse Sandrine Dixson-Declève, embaixadora global do think tank Clube de Roma. “A Europa tem de pensar na transição do seu sistema alimentar, pois não estamos a inovar, estamos a andar para trás; temos de apoiar os agricultores e investir nas comunidades rurais”, acrescentou, a também presidente executiva do movimento empresarial Earth4All.
Tassos Haniotis, conselheiro especial do FFA em produtividade sustentável e ex-dirigente da DG AGRI da Comissão Europeia, reconheceu que “as identidades nacionais na União Europeia são a nossa força, mas também a nossa fraqueza do ponto de vista das decisões políticas”.
Mariangela Hungria, laureada com o Prémio Mundial da Alimentação em 2025, enalteceu as vantagens das soluções biológicas na agricultura como ferramenta para um novo sistema alimentar mundial.
Microbiologista de São Paulo, Mariangela Hungria desenvolveu dezenas de tratamentos biológicos de sementes e solo que ajudam as culturas a obter nutrientes através das bactérias do solo, aumentando a produtividade agrícola e reduzindo a necessidade de fertilizantes sintéticos. Estima-se que os produtos que desenvolveu tenham sido utilizados em mais de 40 milhões de hectares no Brasil, sobretudo na cultura da soja, economizando aos agricultores até 25 mil milhões de dólares por ano em fatores de produção e evitando mais de 230 milhões de toneladas de emissões equivalentes de CO₂ por ano.
“Temos centenas de soluções para os pequenos agricultores, para a melhoria do solo, mas quem investe nelas se não geram lucros de biliões de dólares?”, questionou esta cientista, que trabalha para a Embrapa, o instituto público de investigação agrária do Brasil.
Como financiar e acelerar a transição no terreno?
O exemplo inspirador veio da Mongólia, que há 30 anos adotou uma visão conservacionista pioneira, decidindo proteger 30% das paisagens naturais do país.
Atualmente, mais de 70% do território da Mongólia é afetado pela degradação dos solos e pela desertificação, devido ao aumento da temperatura e à redução da precipitação. O aquecimento tem intensificado fenómenos extremos conhecidos como dzud (invernos severos após verões secos), que matam milhões de cabeças de gado, ameaçando o estilo de vida nómada e levando ao êxodo rural.

“Todos os dias vivemos e sentimos na pele os efeitos das alterações climáticas”, Nomindari Enkhtur, CEO da Mongolia Nature Legacy Foundation.
Através do programa “Eternal Mongolia”, este país angariou 200 milhões de dólares, de origem pública e privada, para investir na conservação do seu vasto território nos próximos 15 anos. “Todos os dias vivemos e sentimos na pele os efeitos das alterações climáticas (…) todos vivemos no mesmo planeta (…) a única forma de proteger a natureza é trabalhar em parceria, com continuidade, paciência e consistência”, reconheceu Nomindari Enkhtur, CEO da Mongolia Nature Legacy Foundation.

Financiamento público em declínio
O financiamento público para a transição climática dos sistemas agroalimentares está a diminuir a nível mundial e “menos de 1% do financiamento climático chega efetivamente aos mais pobres, aqueles que vivem no limiar da produtividade agrícola devido aos efeitos das alterações climáticas”, reconheceu Lauren M. Phillips, diretora de Parcerias e Colaboração na FAO – Agência das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura.
Para transformar os sistemas agroalimentares são necessários 680 mil milhões de dólares por ano, estima a FAO, e uma grande parte dessa verba deverá ser canalizada para a proteção social dos mais vulneráveis. Mas será preciso fazer mais e de forma diferente: “o dinheiro disponível não está a ser usado da forma mais eficaz para financiar a transição; está a ser canalizado para os países mais ricos, que dependem menos da agricultura, e para os mais ricos dentro dos países menos desenvolvidos”, alertou Lauren M. Phillips, recordando que cerca de mil milhões de pessoas trabalham diretamente na agricultura e dependem dela para viver.
Agricultura de carbono é vital para a economia europeia
Os países da União Europeia aprovaram em março deste ano uma nova meta climática para reduzir as emissões de gases com efeito de estufa em 90% até 2040. É mais ambiciosa do que os compromissos de redução de emissões da maioria das principais economias, incluindo a China.
O impacto económico da degradação dos solos, potenciada pelas alterações climáticas, é estimado em cerca de 40 a 73 mil milhões de euros anuais na UE, de acordo com a Agência Europeia do Ambiente. E, na última década, os solos europeus perderam um terço da sua capacidade de retenção de carbono, revelou Kurt Vandenberghe, diretor-geral da DG Clima da Comissão Europeia, defendendo que “a agricultura de carbono é um catalisador na transição para sistemas agroalimentares mais regenerativos, apoiando a resiliência dos agricultores e a sua competitividade como fonte de rendimento complementar. Consideramos que deverá desempenhar um papel crescente na economia europeia nas próximas décadas”, afirmou.

A Comissão Europeia está a preparar normas para regular o funcionamento do mercado voluntário de carbono na UE, prevendo a sua implementação ainda durante este ano ou em 2027, revelou o diretor-geral da DG Clima.
Transformar a natureza num ativo financeiro
Transformar a natureza num ativo financeiro transacionável é um negócio de futuro e poderá ajudar na transição do sistema agroalimentar mundial. Martin Stuchtey, fundador da empresa alemã The Landbanking Group, é uma das figuras de destaque nesta área. “Pediram-nos para criar o primeiro Cadastro da Natureza, uma base de dados sobre o valor do capital natural de cada centímetro de terra (…) isto poderá ajudar-nos a redefinir a proteção da natureza na Europa, facilitar o financiamento e o trabalho dos reguladores do sistema monetário e financeiro”, explicou Martin Stuchtey no FFA.
Esta empresa utiliza a inteligência artificial e a observação da Terra para medir indicadores ambientais, como a saúde do solo, a biodiversidade, a retenção de água e o sequestro de carbono, e converte estas medições em unidades denominadas “Nature Equity Assets” ou “Natural Capital Units” (NCUs), que são adquiridas como ativos por grandes empresas.
Integrar os riscos climáticos no processo de decisão de investimento é o caminho sugerido por Michael Buckner, CEO do Munich Re Investment Partners GmbH, empresa gestora de ativos especializada em soluções de investimento relacionadas com o clima. “O stress térmico, a degradação do solo, a perda de biodiversidade e a escassez de água já estão a afetar os resultados da economia real, mas o seu custo só parcialmente é considerado e refletido na avaliação de ativos, nas estimativas de cash flow e nos custos de capital (…) Quando quantificamos o valor do clima e da natureza, lidar com esses riscos torna-se uma necessidade”, afirmou Michael Buckner.
O conservacionista canadiano Harvey Lock tem uma ideia para ajudar a resolver um dos maiores problemas ambientais da humanidade, diretamente relacionado com a segurança alimentar mundial- criar um seguro para reverter a degradação da floresta amazónica, que as empresas podem financiar.
PAC e uso da terra – que governança precisamos para a aplicar?
A Comissão Europeia apresentou a proposta de reforma da Política Agrícola Comum (PAC) para o período 2028-2034, prometendo maior autonomia e mais flexibilidade aos Estados-Membros na gestão dos apoios aos agricultores — cerca de 300 mil milhões de euros —, mas propõe um corte de 22% face ao quadro financeiro plurianual anterior.
Os agricultores europeus contestam a proposta e fizeram-se ouvir no FFA pela voz do eurodeputado irlandês Barry Cowen: “A proposta da CE é bem-intencionada, no entanto, é fundamental que a fatia do orçamento comunitário para a PAC não seja reduzida”, afirmou, recordando que apenas 12% dos agricultores europeus têm menos de 40 anos e que o orçamento proposto não será suficiente para garantir a renovação geracional da agricultura.
Jurgen Tack, secretário-geral da European Landowners’ Organization (ELO), focou a sua intervenção na inovação que é urgente introduzir na Europa para assegurar o futuro da agricultura. Deu como exemplo as soluções biológicas para proteção das plantas, muitas delas desenvolvidas com fundos do programa Horizonte Europa, mas que devido à morosidade dos tramites no mercado europeu, são desviadas para países como o Brasil, que demora apenas três anos a aprovar este tipo de produtos. “Simplesmente não andamos suficientemente rápido na Europa (…) temos de dar maior previsibilidade aos agricultores”, apelou Jurgen Tack.

Delphine Babin-Pelliard, assessora sénior na União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN), afirmou que a agroecologia e a agricultura regenerativa podem reduzir os custos e contribuir para a resiliência do sistema agroalimentar e garantiu que “investir na natureza é preparar a agricultura para as próximas décadas”.
Jörg-Andreas Krüger, presidente da NABU (Nature and Biodiversity Conservation Union), a organização ambiental mais antiga e com maior número de membros da Alemanha, concordou, afirmando que uma agricultura mais ecológica é também uma agricultura economicamente mais eficiente. Já no que se refere à PAC, foi perentório: “pagamentos diretos sem estarem associados a medidas ambientais é financiar a manutenção do status quo”.
Inteligência artificial pode contribuir para a transição do sistema agroalimentar
A inteligência artificial (IA) está a emergir como uma ferramenta central para transformar o sistema agroalimentar, tornando-o mais rentável, sustentável e alinhado com os desafios climáticos.

Jessica Agnew, investigadora da universidade norte-americana Virginia Tech, afirmou que o setor agroalimentar precisa de “mergulhar” na IA para criar sistemas mais eficientes e sustentáveis e disse que as universidades estão disponíveis para alinhar a sua investigação com as necessidades reais dos agricultores, de modo a melhorar a produtividade total dos fatores de produção.
Também Ethan Soloviev, Chief Innovation Officer da consultora HowGood, destacou o valor estratégico da informação (dados), considerando-a uma “nova cultura” agrícola. Para o responsável, os dados recolhidos nas explorações agrícolas podem tornar-se uma fonte adicional de rendimento para os agricultores, abrindo caminho a novos modelos de negócio.
A consultora HowGood gere a maior base de dados de sustentabilidade de produtos do mundo, abrangendo mais de 33.000 ingredientes e cerca de 4 milhões de produtos. O seu trabalho foca-se em fornecer métricas e ferramentas de decisão às grandes empresas da indústria alimentar, ajudando-as a transformar as suas cadeias de abastecimento através da agricultura regenerativa e da inovação tecnológica.
Já Martin Clough, responsável digital e de sustentabilidade na investigação de proteção de culturas da Syngenta, enfatizou o impacto da IA na proteção das plantas. Segundo explicou, a IA generativa permite responder a múltiplos desafios em simultâneo, aumentando a capacidade dos cientistas para desenvolver soluções eficazes mais rapidamente. Acrescentou ainda que, na saúde do solo, a IA pode ser disruptiva ao possibilitar a análise de grandes volumes de dados.
Por sua vez, Justin Rose, da Deere & Company, destacou aplicações práticas da IA no terreno, como tecnologias de pulverização inteligente capazes de identificar infestantes e aplicar herbicidas apenas onde necessário. Referiu ainda que a IA ajuda a simplificar a tomada de decisões e pode responder à escassez de mão de obra agrícola através de tratores autónomos — não como um luxo, mas como resposta aos desafios demográficos na Europa. Contudo, alertou para a necessidade de regulamentação adequada da IA, sobretudo no que diz respeito aos riscos associados.
Asociación Semillistas vence Land and Soil Management Award
A Asociación Semillistas, da Andaluzia, Espanha, venceu o Land and Soil Management Award 2025/2026 pelo seu trabalho pioneiro no restauro da floresta mediterrânica através de métodos inovadores de sementeira direta com sementes melhoradas, em vez da tradicional plantação de árvores.
Fonte: Syngenta
















































