Da vinha aos javalis, no Ventozelo oferece-se “o Douro numa quinta”

Da vinha aos javalis, no Ventozelo oferece-se “o Douro numa quinta”

[Fonte: Público]

Da piscina – não muito grande, mas mesmo assim “infinita”  vê-se o Douro ao fundo. A água que se prolonga ao nível dos nossos olhos transforma-se no vale, o rio quase a desenhar a forma de Portugal, e vinhas, a toda a volta, vinhas.

Havemos de, numa carrinha Bedford de caixa aberta, de charme vintage e guiada por João Paulo Magalhães, o responsável pela hotelaria e restauração da Quinta de Ventozelo, subir ao cimo da encosta, o vento quente a bater-nos no rosto, as vinhas em linhas ondulantes ao nosso redor.

E havemos de, agarrando os chapéus de palha para que não voem, e rindo dos saltos que damos a cada solavanco, descer até à margem do rio, procurando as ervas comestíveis que ali crescem e adivinhando, por entre a vegetação ainda selvagem, onde é a “praia”.

Jorge Simão

João Paulo explica-nos que dentro em breve o local será arranjado – haverá um cais flutuante para os barcos poderem largar pessoas, com espaço para seis deles atracarem – e quem descer até ali poderá aproveitar uma das poucas zonas nas margens do Douro com areia suficiente para permitir um banho em segurança.

Por enquanto, quem usufrui desse pedaço de paraíso são os javalis que andam por ali livremente (numa das árvores, um aparelho identifica-os sempre que passam). Mas é tudo isto – o rio, a “praia”, a vinha, a mata – que permite que se diga de Ventozelo que é “o Douro numa quinta”, a frase usada para descrever a nova oferta de enoturismo que a Gran Cruz, grupo francês proprietário, apresentou, abrindo as portas à quarta edição do concurso do tomate coração de boi do Douro no dia 23 de Agosto.

Quando chegamos à quinta, a aparência calma de João Paulo não esconde alguma ansiedade. Faltam apenas pequenos detalhes na casa onde vamos ficar, uma das sete unidades com um total de 29 quartos que irão, a partir de Outubro (em soft opening, com a abertura plena prevista para Fevereiro de 2020) constituir a oferta turística de Ventozelo, a par do restaurante que tem como chef consultor Miguel Castro e Silva.

As unidades com quartos são todas diferentes porque adaptadas de construções que já existiam previamente (o projecto é da Santelmo & Pereira Arquitectos), da Casa do Feitor, passando pela do Laranjal, do Cardenho, a Romântica, os Balões, até à charmosíssima Casa do Rio, mesmo na margem do Douro, a dois quilómetros das unidades principais, ou à Casa Grande, que tem seis quartos, sala, cozinha e piscina e é ideal para ser alugada por um grupo. Os preços vão dos 125€ aos 260€ na época baixa e dos 175€ aos 360€ na época alta.

Edifício onde funcionará o centro interpretativo Jorge Simão

Em breve estará também pronto a receber visitas o Centro Interpretativo, onde a riqueza e biodiversidade da quinta serão apresentadas de uma forma a que o visitante, resume o texto de apresentação, seja obrigado “a utilizar os sentidos de forma activa”, para que entenda a paisagem “para lá de uma realidade meramente visual”.

Essa experiência prolonga-se depois no exterior com a oferta de vários percursos: caminho da vinha, caminho do moinho, caminho dos sobreiros, trilho do javali, caminho do rio e caminho de Ervedosa (neste, recua-se “a uma outra realidade duriense, o tempo em que o transporte de mercadorias e pessoas se fazia sem meios mecânicos”).

E o restaurante que, claro, é parte fundamental da experiência de Ventozelo (preço médio da refeição: 45€ sem vinhos). Miguel Castro e Silva está entusiasmadíssimo. Encontramo-lo à porta da cozinha segurando na mão um grande dossier com materiais que tem vindo a reunir com ideias para a cozinha que aqui vai fazer, incluindo até relações que encontrou com receitas marroquinas. “Não vai haver uma carta”, explica. “Vamos servir o que se serve numa quinta, sopa, prato, sobremesa, saladas, coisas simples”.

O concurso do tomate coração de boi do Douro realizou-se este ano na Quinta de Ventozelo Jorge Simão

Tem-se dedicado a investigar a região da bacia hidrográfica do Douro, incluindo Trás-os-Montes e a Beira Alta, a procurar receitas – “tenho descoberto muitas receitas com legumes, conhecem a beringelada?”. A horta, ainda pequena mas que “produz loucamente”, vai crescer muito e a cozinha usará os produtos locais, muitos vegetais, as deliciosas amêndoas, a fruta (os figos foram estrela nos pratos que serviu por estes dias, mas há também pêssegos, laranjas, tangerinas de pele fininha, na época delas) e vai haver caça, com destaque para a carne de javali, animal que abunda por aqui.

“É que temos a vinha à nossa volta, mas aqui por trás temos uma floresta mediterrânica. Parece que estamos num livro do Astérix e do Obélix. Isto está a dar-me um gozo incrível. É uma cozinha com história”, conclui, com uma gargalhada feliz.

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