Hoje, durante um debate com o Comissário Europeu da Agricultura, Christophe Hansen, a Farm Europe alertou a Comissão Europeia para a situação extremamente alarmante que a agricultura europeia enfrenta, encurralada entre as tensões geopolíticas que fizeram disparar os custos de produção e o impacto das alterações climáticas, o que evidencia as vulnerabilidades dos sistemas de produção agrícola da União Europeia, focados em investimentos regulatórios e não produtivos ao longo das últimas décadas.
A Farm Europe agradece a Christophe Hansen, Comissário Europeu da Agricultura, pela sua mobilização e empenho, mas adverte para a necessidade urgente de ir além das abordagens tradicionais, a fim de superar os desafios de liquidez a curto prazo enfrentados pelos agricultores, preparando simultaneamente um plano de longo prazo para o crescimento e a resiliência da agricultura europeia.
“A agricultura da UE não enfrenta meramente dificuldades temporárias. Está a ser desgastada pela crise geopolítica, pela seca severa durante o verão e pela acumulação de investimentos não produtivos destinados ao cumprimento regulamentar em vez da adaptação às alterações climáticas”, alertou Yves Madre, Presidente da Farm Europe. “As atuais campanhas agrícolas marcam um ponto de viragem. Deitam uma luz crua sobre as vulnerabilidades da Europa num mundo onde a produção agrícola está no centro do confronto geopolítico. Nas últimas décadas, a União Europeia adaptou a sua política agrícola sem dar resposta aos desafios que se colocam à produção agrícola num clima em mudança. Está hoje a pagar o preço por isso. A Farm Europe apela, por isso, ao Comissário Europeu da Agricultura para que lance uma nova iniciativa — um esforço colaborativo que envolva todas as partes interessadas da cadeia de valor para reconstruir uma verdadeira soberania agrícola europeia, abrangendo não só a segurança alimentar, mas também os desafios de uma economia com neutralidade carbónica”, acrescentou.
“A Europa precisa de um plano de recuperação e investimento ambicioso para a agricultura, assente em rendimentos justos para os agricultores, numa forte capacidade de produção e na soberania alimentar. Investir na agricultura significa garantir que os alimentos de elevada qualidade permanecem acessíveis aos cidadãos europeus, em vez de abrir caminho a alternativas desconectadas do mundo rural, como produtos laboratoriais ou alimentos ultraformulados. É assim que reforçamos a agricultura europeia, tanto internamente como nos mercados internacionais”, declarou Ettore Prandini, Presidente da Coldiretti e Presidente do Comité Estratégico da Farm Europe.
“Não podemos continuar a passar de emergência em emergência. Os custos dos fertilizantes, a escalada dos preços dos combustíveis e a seca demonstram por que razão precisamos de uma estratégia de longo prazo baseada no planeamento do investimento. Por exemplo, permitir que os agricultores façam pleno uso do digestato ajudaria a reduzir o custo dos fertilizantes químicos, preservando ao mesmo tempo a qualidade do solo. Este é apenas um exemplo das ações concretas de que precisamos por parte da UE, e existem muitos outros. A Farm Europe e os seus membros estão a apresentar soluções concretas para toda a cadeia de valor agrícola. Uma parceria mais forte com a Comissão Europeia será fundamental para recolocar a agricultura no centro das escolhas estratégicas da Europa”, concluiu Prandini.
Nos últimos anos, a agricultura europeia no seu conjunto ficou para trás. Nas últimas duas décadas, a UE perdeu quase 8 milhões de hectares de culturas de cereais, 10% da sua pecuária e da sua área de cultivo de hortícolas, 30% da sua área de batata e beterraba-sacarina e 20% da sua área de vinha. A agricultura europeia está em declínio precisamente quando a União precisa da produção agrícola para satisfazer as necessidades alimentares e não alimentares da União Europeia e dos seus parceiros.
Contudo, a prolongação desta tendência não é inevitável. A Farm Europe apela, por isso, a formas novas e inovadoras de valorizar e financiar a agricultura europeia através de apoios à liquidez a curto prazo, medidas de apoio ao investimento, abertura de novos mercados (incluindo para a bioenergia) e fontes de financiamento inovadoras que reconheçam melhor o valor e o papel da agricultura na construção de uma economia com neutralidade carbónica. Para setores específicos, é urgente criar um grupo de alto nível sobre o trigo, espelhando o trabalho positivo realizado para o setor pecuário, e acelerar os trabalhos sobre a água, a digitalização e a gestão de riscos e crises. Tudo isto deve ter como objetivo a construção de um plano abrangente de resiliência e investimento para a agricultura da UE, apoiando uma estratégia de crescimento para o setor e devolvendo a esperança ao mundo rural europeu.
O artigo foi publicado originalmente em Farm Europe.














































