Chegou a hora da Lactogal – Carlos Neves

Chegou a hora da Lactogal – Carlos Neves

Chegou a Hora da Lactogal: continuamos divididos para alguém reinar ou vamos unir para mudar?

Os problemas causadores da crise do nosso setor leiteiro são velhos, vários e complexos. Da mesma forma que cada pessoa tem uma visão diferente da montanha a partir do ponto onde se encontra, também no leite cada um tem a sua opinião, a sua visão e a sua verdade. Uns dizem que a culpa é dos produtores, outros que é das cooperativas, ou das indústrias, ou dos Hipermercados, ou do Governo ou da Europa.

Por via das dúvidas, em termos de manifestações, já batemos a quase todas as portas. Em 2009 estivemos na rua e à porta dos supermercados a defender o leite nacional. Em 2011 fomos para a fábrica da Lactogal em Modivas, Vila do Conde. Em 2012 exigimos no Parlamento a intervenção dos governantes (E com intervenção do Governo conseguimos uma promessa de aumento da distribuição que a Lactogal recusou/boicotou). Em 2015 voltamos a contestar as importações de produtos lácteos à porta dos hipermercados e desta vez com sucesso tanto na atitude dos hipermercados como na lei da rotulagem da origem que viu finalmente a luz do dia em 2018.

Não é fácil mobilizar e unir em torno de um objetivo comum um grupo tão heterogéneo como produtores de leite, comerciais, dirigentes associativos e cooperativos. O desespero acumulado ao longo de anos e o veneno que alguns semeiam e outros espalham leva os revoltados a disparar para todos os lados, sobre os próprios pés e sobre quem os tenta defender. Se desce o preço do leite, “as associações não fazem nada e os dirigentes estão comprados”. Se fazemos um comunicado “é só conversa que não leva a nada”. Se damos entrevistas por causa disso “queremos protagonismo”. Se organizamos uma manifestação devia ser noutro local, de outra maneira e sobre outro assunto. Se vamos a pé, devia ser com tratores. Se levamos tratores, estamos a mostrar as máquinas caras que temos. E por aí adiante…

Uma parte dessa mensagem negativa parece proveniente da própria Lactogal. Dizem-me que o ambiente interno não é bom; Que nenhum quadro de valor consegue fazer carreira na Lactogal, pois ao fim de poucos meses percebe que a sua capacidade de intervenção é nula e permanentemente minada pelos de sempre; Que é praticamente impossível contactar a empresa, seja para o que for; Que há uma atitude de arrogância e prepotência face a qualquer pedido de informação, contacto ou atuação; Que, a nível institucional, a Lactogal deve ser a empresa mais odiada nas áreas do agroalimentar e do grande consumo; Que nunca tem uma posição sobre um assunto: Ou não sabe, Ou não foi, ou está contra; que nunca há um contributo para uma estratégia, nem uma intervenção que corresponda a um verdadeiro líder de mercado; que não há quem assuma o rosto da Lactogal no contacto com todos as partes interessadas – consumidores, fornecedores, comunidade em geral; Que tem relações péssimas com o Governo, com os clientes e com os concorrentes; Que pouco ou nada fez na sua comunicação para refrear os problemas associados às críticas ao consumo de leite, como se isso não fosse um problema da Lactogal; Que não valoriza em lado nenhum o facto de ser uma empresa de produtores. Sobre este facto é curioso notar que, em França, a Danone coloca o rosto dos produtores nas embalagens de iogurte. Aqui em Portugal, a MacDonald’s chamou criadores para mostrar a origem dos seus produtos. Enquanto isso, a Lactogal chama modelos ou atores de Lisboa, passados à pressa pelo solário, para representarem como produtores nas suas campanhas publicitárias. Ou coloca os produtores do Centro contra o Norte, os ou dos continente contra os Açores, porque a culpa é de uns ou de outros que produzem demais. Nunca organizou um convívio nacional entre todos os produtores. Só ao fim de 20 anos é que alguns produtores puderam visitar as fábricas que lhes pertencem, fábricas que também não recebem visitas de crianças, visitas que tão importantes seriam neste tempo de contra-informação virtual contra o leite.

Poderia continuar a desfiar outros “pecados” da organização que me foram apontados depois que expus os três pecados originais que toda a gente do setor já conhecia: a aposta excessiva no UHT, os salários milionários da administração e os milhões acumulados em lucros durante anos em que Portugal teve o preço ao produtor abaixo da média comunitária. Preço que é mais baixo nos Açores, nomeadamente na ilha Terceira onde a recolha é 100%… Lactogal!

Ficam esses pecados para outros artigos e fica a tarefa de os corrigir para quem as acionistas escolherem como líder da Lactogal, pessoa que, descansem os do costume, não serei certamente eu. Eu sou apenas uma voz que clama no deserto, que se fartou de proteger a Lactogal como instituição porque está na hora de mexer nas feridas e resolver os problemas para que um melhor preço possa ser pago aos produtores, para que volte a esperança ao setor. E que se resolva depressa, porque a Lactogal precisa de ser forte e protegida quando enfrenta o mercado, nomeadamente a grande distribuição que não é nenhuma santinha por causa dos pecados da Lactogal. Mas para isso é preciso que os produtores e dirigentes sejam capazes de se unir para mudar em vez de continuarem divididos a discutir outras coisas enquanto fica o mesmo a reinar. Há um tempo para tudo. Agora vamos à Lactogal.

Carlos Neves

Produtor de Leite

Vice Presidente da Aprolep

Lactogal baixa preço do leite na produção

Governo diz estar “legalmente impedido” de interferir na gestão da Lactogal

Os três pecados originais da Lactogal

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