A Copa e a Cogeca alertam que a União Europeia (UE) corre o risco de enfraquecer a Política Agrícola Comum num momento em que a agricultura enfrenta pressão crescente de fenómenos climáticos extremos, custos elevados, tensões comerciais, guerras e maior concorrência global.
Num artigo de opinião assinado por Massimiliano Giansanti, presidente da Copa, e Lennart Nilsson, presidente da Cogeca, as organizações defendem que as próximas decisões sobre a PAC e sobre o próximo Quadro Financeiro Plurianual da União Europeia serão determinantes para o futuro do setor agrícola europeu.
Segundo os autores, a agricultura europeia chega a esta fase de discussão política num contexto de “moral” baixa entre os agricultores, depois de mais um verão marcado por fenómenos extremos, seca e incêndios. A estes fatores juntam-se os custos com fertilizantes e energia, a pressão financeira nas explorações e a incerteza provocada por guerras, tensões comerciais e choques climáticos.
Agricultura como ativo estratégico
A Copa e a Cogeca defendem que, no atual contexto geopolítico, a agricultura deve ser tratada como um ativo estratégico para a Europa, e não como um setor marginal.
Os autores contrastam a abordagem europeia com a de outras potências globais. Referem que os Estados Unidos elevaram explicitamente a agricultura ao nível da segurança nacional, através do National Farm Security Action Plan de 2025, enquanto a China mantém políticas orientadas para garantir a sua segurança alimentar e a Rússia definiu a autossuficiência em alimentos básicos como objetivo estratégico.
Para Massimiliano Giansanti e Lennart Nilsson, esta evolução mostra que, num contexto global mais instável, a agricultura é cada vez mais encarada como um instrumento de autonomia, resiliência e segurança alimentar.
Propostas da Comissão preocupam agricultores
As organizações apontam em particular para duas negociações em curso: o futuro da PAC e o próximo Quadro Financeiro Plurianual. Segundo os autores, as propostas da Comissão Europeia apresentadas em julho de 2025, incluindo os cortes propostos ao orçamento da PAC e a sua integração em Planos de Parceria Nacionais e Regionais, podem enfraquecer a capacidade estratégica do setor agroalimentar europeu.
A Copa e a Cogeca defendem que uma PAC com menos recursos, sem a atual estrutura de dois pilares e com menor dimensão comum colocaria em causa os objetivos previstos nos tratados da União Europeia: assegurar um nível de vida justo aos agricultores, estabilizar os mercados, garantir o abastecimento e assegurar o acesso dos consumidores a alimentos a preços razoáveis.
As organizações consideram ainda que as propostas não reconhecem suficientemente o papel da agricultura na coesão territorial, nas economias rurais e no crescimento económico.
“Os agricultores contribuem para a linha de defesa da UE”
No artigo, os representantes da Copa e da Cogeca recordam as palavras do comissário Christophe Hansen, dirigidas ao Parlamento Europeu em julho de 2025, após uma visita à Finlândia: “os agricultores contribuem para a linha de defesa da UE”.
Os autores defendem que os agricultores contribuem para a segurança e resiliência da Europa também na gestão do território. Dão como exemplo os recentes incêndios, nos quais agricultores estiveram ao lado dos bombeiros, utilizando equipamento próprio e dedicando horas ao combate às chamas.
“Fazemos muito mais do que alimentar a Europa: somos os guardiões diários das nossas paisagens rurais”, afirmam.
Setor agroalimentar gera mais de um bilião de euros
A Copa e a Cogeca sublinham ainda o peso económico da agricultura e da cadeia agroalimentar europeia. Segundo os autores, a cadeia de valor agroalimentar da União Europeia gera mais de um bilião de euros em valor acrescentado bruto.
O artigo refere que a União Europeia conta com 9,1 milhões de explorações agrícolas, que empregam 8,7 milhões de pessoas. As mais de 23 mil cooperativas agrícolas empregam mais de 607 mil pessoas e são apresentadas como um pilar da cadeia agroalimentar.
Para as organizações, estes números mostram que a agricultura deve integrar a agenda europeia de competitividade e crescimento, e não ser tratada como um setor periférico.
Risco de perda do caráter comum da PAC
Uma das principais preocupações apontadas no artigo é a nova estrutura de governação que poderá resultar da integração dos instrumentos da PAC nos Planos de Parceria Nacionais e Regionais.
A Copa e a Cogeca consideram que esta mudança pode transferir decisões agrícolas para negociações mais amplas do Quadro Financeiro Plurianual, com maior influência de ministros das Finanças e dos Assuntos Europeus.
Segundo os autores, decisões sobre a Organização Comum dos Mercados, intervenções setoriais e instrumentos técnicos da política agrícola não devem ser moldadas sobretudo por negociações conduzidas fora do processo agrícola.
As organizações alertam ainda para o risco de, na fase de implementação, os instrumentos da PAC passarem a competir com prioridades de outros ministérios e regiões. Nesse cenário, as decisões poderiam ser orientadas por compromissos políticos e cálculos nacionais, e não pelas realidades económicas e agronómicas do setor.
“Nunca a PAC esteve tão perto de perder a sua letra mais importante: o ‘C’ de Comum”, defendem.
Preços dos alimentos e renovação geracional
O artigo liga também o debate agrícola à evolução do custo de vida. A Copa e a Cogeca referem que o mais recente Eurobarómetro do Parlamento Europeu aponta a inflação, a subida dos preços e o custo de vida como principal prioridade para 47% dos europeus, mais seis pontos do que no outono de 2025.
Para os autores, os preços dos alimentos fazem parte deste debate. Defendem que alimentos acessíveis dependem de uma agricultura europeia competitiva, produtiva e resiliente, e não do enfraquecimento da capacidade produtiva da União Europeia.
As organizações alertam ainda que o setor precisa de políticas estáveis e previsíveis para dar confiança aos agricultores para investir e inovar. Caso contrário, consideram que será mais difícil atrair jovens para a agricultura e responder ao desafio da renovação geracional na próxima década.
Quadro Financeiro Plurianual deve reconhecer produção alimentar como objetivo estratégico
A Copa e a Cogeca defendem que o futuro Quadro Financeiro Plurianual deve reconhecer a produção alimentar como objetivo estratégico, ligado à defesa, segurança e competitividade da Europa.
Os autores admitem que o Fundo Europeu para a Competitividade pode ter um papel no apoio à inovação, incluindo a utilização de dados e inteligência artificial, bem como no desenvolvimento de infraestruturas para a transição e resiliência da agricultura. No entanto, sublinham que estes instrumentos devem complementar, e não substituir, uma PAC forte e uma Organização Comum dos Mercados funcional.
Em outubro, durante o Conselho Europeu, os agricultores europeus estarão reunidos em Estocolmo no Congresso dos Agricultores Europeus. Segundo os presidentes da Copa e da Cogeca, esse encontro servirá para avaliar a situação e definir a ação futura.
“Não pode haver uma Europa segura sem um setor agrícola forte. E não pode haver uma agricultura europeia forte sem políticas europeias adequadas ao objetivo”, concluem.
O artigo foi publicado originalmente em Vida Rural.















































