O açafrão está a entrar na moda agrícola. Há entusiasmo em torno do preço por kg, como se a cultura fosse uma mina de ouro em versão agrícola. Compreende-se que pode ser vendido a 3.000 por kg para exportação. Parece simples. Planta-se, colhe-se, vende-se e lucra-se. O problema é que não é verdade. Esta análise não parte de suposições. Parte de contas reais. O que aqui se escreve é resultado de investigação técnica, com base em dados verificáveis e cálculos económicos sólidos. E… as contas não batem certo.
Para produzir um único kg, são precisas cerca de 400 horas de trabalho humano. Se esse trabalho for pago com o mínimo de justiça, com contrato e seguros, encargos legais e salário mínimo, o custo ultrapassa os 3.600€. A isto somam-se despesas obrigatórias com cormos, operações anuais e acondicionamento. Tudo junto, o custo por kg chega facilmente aos 4.500€ – 5.000€. E o produtor recebe 3.000€. Está feito o retrato. É uma cultura que dá prejuízo a quem quer trabalhar dentro das regras e não quer ser mais um subsídio-dependente.
É neste cenário que surgem os falsos heróis do campo. Há quem exiba lucros porque explora mão de obra invisível, mal paga, muitas vezes ilegal. É possível ganhar dinheiro com açafrão se o tempo de quem trabalha for tratado como descartável. É isso que está a acontecer. E é isso que os discursos públicos omitem. Porque é mais fácil vender a ilusão de que o campo enriquece do que enfrentar a realidade de que o campo, assim como está, corrói quem nele trabalha com honestidade.
A mentira alimenta-se de números grandes. Preços por grama em frascos de luxo. Rendimento por hectare em condições ideais. Mas nada disso sobrevive ao confronto com a única métrica que interessa. As horas de trabalho por kg. Ignorar este dado é fabricar esperança com base em equações falsas. O solo até pode ser bom. O clima até pode ajudar. Mas a conta do tempo humano, essa, deita tudo por terra.
E não é só o açafrão. Tudo o que depende de trabalho intenso por unidade produzida enfrenta o mesmo problema. Hortícolas sensíveis. Pequenos frutos. Flores cortadas. A margem na produção está a ser esmagada. Não por ineficiência. Mas por um sistema que concentra valor na distribuição e na revenda, deixando o produtor a pagar a conta de todos os outros.
Fala-se de empreendedorismo agrícola como se bastasse querer. Como se fosse tudo uma questão de atitude. Não é. É uma questão de estrutura. Um produtor que siga as regras do estado, que declare salários e respeite direitos, entra automaticamente em desvantagem. É punido por cumprir. E isto não é aceitável.
A agricultura enquanto negócio, só tem futuro se for construída com inteligência e com justiça. É preciso rentabilizar a produção por área e o tempo com sistemas de consociação bem pensados. Misturar culturas que se apoiem, que reduzam custos e que multipliquem os benefícios. Criar modelos de colheita que permitam trabalho contínuo e digno. Formação, progressão, carreira. Sim, carreira agrícola. Porque o campo não precisa de mão de obra ocasional. Precisa de gente que queira ficar e crescer.
Esta é a verdade crua. O açafrão tem brilho, mas esconde demasiado. Não é o produto que está errado. É o sistema que o rodeia. Se continuarmos a fingir que 3000€ por kg são sinónimo de riqueza, estamos a mentir. E a mentira custa caro. Custa a confiança de quem produz. Custa a dignidade de quem trabalha. Custa o futuro da agricultura.
Ricardo Dinis
Diretor de Projeto e Investigação nas Florestas de Iroko
Solos que defendem: a importância da vida subterrânea na resiliência do montado











































