A sustentabilidade como arma de arremesso

A sustentabilidade como arma de arremesso

Constituintes a considerar na análise de problemas relacionados com a sustentabilidade.

Li há dias uma notícia da Agência Lusa em que se explicava que, segundo a Associação ZERO, o uso da água de Alqueva estava “muito longe de ser sustentável”. O artigo, que pode ser consultado no AGROPORTAL – aqui, passa a descrever um conjunto de falhas à gestão da EDIA (Empresa de Desenvolvimento e Infra-Estruturas de Alqueva), mas nunca justifica as afirmações que faz nesse sentido. Alguns exemplos:

  1. Diz que não é aceitável que haja uma grande área de regantes fora do perímetro, os chamados regantes precários, mas nem tenta argumentar porquê. Simplesmente o afirma, como se fosse a coisa mais óbvia ou como se qualquer leitor devesse aceitar que assim é só porque sim.
  2. Diz que é questionável que as culturas que se vieram a instalar em Alqueva sejam, de facto, menos consumidoras de água que o inicialmente previsto. Neste caso, uma simples consulta do Anuário de Alqueva mostra as áreas das diversas culturas e como o olival (que utiliza pouca água de rega, relativamente a muitas das outras) acabou por dominar a área até agora regada, portanto a afirmação não se compreende.
  3. Diz que não houve um planeamento de base para a utilização agrícola do perímetro, quando isso é falso e o planeamento foi abundante… talvez não tenha sido do tipo de planeamento centralizado como alguns mais gostariam, mas isso é outra conversa. E com essa falta de planeamento justifica o aparecimento das monoculturas, um termo que, tendo entrado recentemente na moda, representa uma ideia demoníaca, sem que ninguém a defina, como veremos adiante. Pior, numa das suas afirmações em realce no artigo diz que o amendoal e o olival modernos são culturas “insustentáveis” – uma afirmação inaceitável, como explicarei adiante.

Estes são apenas alguns exemplos, para dar o mote à discussão que aqui proponho. O meu objetivo, aqui, não é o de criticar este artigo em particular ou a Associação ZERO, mas sim o de fazer ver uma grande preocupação que tenho com a forma como a questão da sustentabilidade é tratada em Portugal.

Esta preocupação vem de dois aspetos principais que noto na discussão em geral: a falta de rigor e conhecimento com que se fazem afirmações sobre a sustentabilidade, e a falta do sentido crítico na forma como a sociedade aborda estas questões e que permite que tudo se diga e tudo se aceite sem contestação.

A meu ver, estes são dois sinais de uma sociedade que não quer saber, que enfia a cabeça na areia, ou que quer que lhe digam o que fazer, assumindo uma postura infantil. E, também a meu ver, não deve ser assim que uma sociedade desenvolvida e educada deve abordar o importante problema da sustentabilidade. Deve, aliás, ser o seu contrário o verificado quando o cidadão comum discutir este assunto. Mas para lá chegarmos, é preciso rigor nas afirmações e sentido crítico de quem as ouve.
Algo que é mau, não deve ser aceite como mau só porque alguém o diz. E mesmo que seja mau, isso tem de ser fundamentado. Quem faz afirmações como as de cima exemplificam, tem de ter uma fundamentação disponível para lhes dar, e essa fundamentação deve ser dada, e exigida por quem lê ou ouve.

PO artigo em questão deixou-me algo zangado por este motivo, mas não é fenómeno único. Esta abordagem é comum, e, respondendo aos princípios que defendi acima, passo a apresentar alguns pontos que devem ser considerados na análise de problemas relacionados com a sustentabilidade e que recomendo que todos tenhamos em mente quando pensamos sobre esse tipo de questões.

  1. De forma global, a sustentabilidade é vista por vários autores (e aqui refiro-me a autores em publicações peer-reviewed e não em opiniões) como um “WICKED PROBLEM”. Um bom exemplo desta abordagem é dado pelo Professor Christopher Peterson1, entre muitos outros. Um wicked problem é um problema caracterizado por um conjunto de variáveis muitíssimo complexo, o que o torna difícil de formular precisamente, por englobar um conjunto de stakeholders muito diverso e com objetivos diferentes, e, por esse motivo, por ser de resolução muito difícil e sem respostas do tipo “Verdadeiro” ou “Falso”.  É comum dizer-se que são problemas que não podem ser resolvidos, apenas geridos no sentido da melhoria. Parece-me óbvia a racionalidade desta abordagem, e a sua utilidade se quisermos realmente caminhar num sentido positivo quando se trata de questões de sustentabilidade. Quando se pretende trabalhar na resolução de um wicked problem, devemos ponderar o maior número possível de variáveis, e ouvir o maior e mais diverso possível número de stakeholders, e assim teremos a hipótese de caminhar no sentido da resolução desse complicado problema.
  2. A afirmação de que algo é insustentável é simultaneamente absurda – nenhuma atividade humana é completamente sustentável e a única forma de fazer algo sem impacto é não fazer coisa nenhuma – e enganadora – porque é usada de forma propositadamente pejorativa e politizada. Dizer que o amendoal e o olival intensivos são insustentáveis (leia-se do ponto de vista ambiental, porque economicamente ambas as atividades se têm mostrado muito sustentáveis no nosso país, e socialmente têm promovido um importante aumento do emprego nas suas zonas de expansão que são muito fustigadas pelo despovoamento e pela pobreza), além de desonesto é, tecnicamente, um disparate. Mas vejamos que argumentos são utilizados para defender que estas culturas são pouco sustentáveis (aquilo que deveriam dizer em vez de insustentáveis, mas que tem menos sound bite):
    1. Que “gastam” muita água – quando a única forma de se gastar a água que se utiliza é estragando-a (perdas de água com adubos que seriam depositadas no solo ou nas reservas de água subterrânea) e estas culturas utilizam sistemas de rega que têm eficiências acima dos 95%, ou seja, a planta utiliza quase tudo;
    2. Que destroem a biodiversidade – quando um estudo recente do INIAV concluiu que há populações muito elevadas de pássaros nos olivais em sebe, o que aumenta o risco de matar muitos pássaros durante colheita noturna e levando ao fim desta prática;
    3. Que são monoculturas – quando esse termo, utilizado hoje como uma palavra pejorativa, um bicho papão, tem um conceito bastante lato e flexível associado. Querem com isto dizer, culturas com áreas muito grandes e contínuas no território, mas e se isso, por si só, tivesse mal, o que dizer dos cerca de um milhão de hectares de montado que temos em Portugal! O olival ocupava, em 2019, cerca de 66 mil hectares em Alqueva e o amendoal de 11.400 hectares. Isto num perímetro de rega que rega atualmente 110.000 ha, e numa região agrária, o Alentejo, com uma superfície de cerca de 3 milhões de hectares.

Como vemos, a sustentabilidade já é, por si, um problema complexo, e que só pode ter a sua solução dificultada quando é usada como arma de arremesso. Vamos lá, então, fazer um esforço, enquanto sociedade madura e inteligente, para a abordar com conhecimento e sentido crítico!


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Miguel Vieira Lopes
[email protected]


1 Peterson, Christopher H. 2013. Fundamental Principles of Managing Multi-stakeholder Engagement. International Food and Agribusiness Management Review 16(A):11-21.

O artigo foi publicado originalmente em AGRO.GES.

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