Todos os dias, o rebanho de ovelhas e cabras do pastor André Gonçalves percorre as centenas de hectares do Amendoeira Golf Resort, em Silves, no Algarve, garantindo uma manutenção natural do empreendimento sob o curioso olhar dos turistas.
Nos caminhos circundantes do ‘resort’ e dos seus dois campos de golfe, são as 70 ovelhas e as 20 cabras que vão tratando de comer ervas, silvas, mato e os rebentos das oliveiras, mantendo a vegetação controlada e reduzindo a necessidade de intervenção humana ou mecânica.
A parceria é considerada benéfica pelas duas partes: o empreendimento utiliza a pastorícia para diminuir os gastos com limpeza ambiental e aumentar a prevenção florestal, enquanto o vizinho André tem disponível uma importante e gratuita fonte de alimento para os animais.
A proximidade do pastor com o Amendoeira Golf Resort, onde também chegou a trabalhar na área de manutenção, acabou por facilitar uma relação que já tem mais de uma década.
“Eu moro aqui ao lado há muitos anos e já trabalhei aqui, seis ou sete anos. E pedia sempre para andar aqui dentro do campo com elas. Tem muita pastagem, é perto da minha casa e é bom para as duas partes”, resume o pastor à Lusa.
A sua ligação ao setor nasceu quando em criança fazia companhia ao avô no pastoreio e dedicava o seu tempo “a brincar” com os animais, mas só começou a criar o próprio rebanho a partir dos 20 anos.
“Há 23 anos que tenho animais”, diz, lembrando que esta não é a sua única fonte de rendimento hoje em dia, pois dedica-se também à jardinagem ou ao abate de árvores: “Solto-as na parte da tarde ou um bocadinho durante as manhãs, é como o tempo dá”.
No percurso de quatro a cinco quilómetros, por norma duas vezes ao dia, pelo ‘resort’, que tem cerca de 270 hectares, as ovelhas e as cabras “vão limpando” a vegetação e comendo as “ervinhas verdes”, as silvas e o mato mais bravo, conta.
A administração do empreendimento “já não precisa de mandar alguém limpar, […] elas comem tudo”, refere, sobre um terreno “muito fértil” à porta de casa que “é uma grande ajuda” e “onde há sempre comida”, evitando ter de “ir para mais longe”.
“Gosto de andar por aqui, sempre vejo os estrangeiros a jogar golfe e sempre tenho mais companhia do que andar numa serra sozinho, não é? Tinha mais solidão assim”, observa.
Os golfistas reagem com curiosidade, “tiram fotografias”, “acham engraçado” ver o rebanho a fazer a manutenção “à roda do campo”, e “dizem que não costumam ver” o mesmo noutros campos.
Eliana Silva, da direção de marketing do Amendoeira Golf Resort, afirma à Lusa que este trabalho complementar à habitual manutenção do empreendimento começou a ser feito de forma “orgânica”, mas que passou a fazer parte do dia-a-dia de todos na estrutura.
O objetivo “sempre foi tentar que ambos os lados ganhassem”, frisa, sublinhando: “Para o André, é super útil ter um espaço em que as ovelhas e as cabras dele consigam comer e ter pasto saudável, e nós ficamos com um campo de golfe muito mais limpo, muito mais bonito, e os próprios jogadores de golfe acabam por achar alguma piada”.
O ‘resort’ está localizado no Morgado da Lameira, onde em tempos existia uma quinta agrícola, pelo que, 20 anos depois, ajudar “um pastor jovem que está a tentar manter viva” a pastorícia permite recuperar a tradição e respeitar essa “herança”, destaca Eliana Silva.
Em breve vão avançar passeios guiados com turistas, mas o empreendimento quis “fazer um bocadinho mais” para “valorizar” o setor e decidiu promover um calendário de 2027 com fotos de pastores algarvios, retratando dez homens, uma mulher e um casal.
“Cada um deles contará um bocadinho da sua história”, sendo que as receitas angariadas numa gala marcada para 18 de novembro vão reverter a favor dos pastores para aliviar os gastos com veterinários, conclui a diretora de marketing.














































