Conta-se que, certo dia, ao ler num jornal a notícia da sua própria morte, o escritor Mark Twain respondeu escrevendo que “as notícias da minha morte são manifestamente exageradas”. Conta-se também que “o otimista é alguém que vê a luz ao fundo do túnel, mesmo quando ela não está lá, enquanto o pessimista é alguém que vai a correr apagá-la”.
A partilha que eu fiz de um excerto de um artigo sobre a falta de candidatos em alguns cursos de agronomia neste ano de 2026, escrito por José Palha num artigo para o jornal Sol, despertou um conjunto de comentários, quase todos negativos, que agradeço e a que pretendo responder.
Primeiro, permitam-me que puxe dos meus galões da idade, porque com os anos não podemos ganhar só mazelas, também temos de ganhar estatuto e eu já vivi mais de meio século e toda a vida convivi com este “agro-pessimismo” generalizado e sempre me irritou ouvir dizer que a agricultura tinha acabado, porque não gosto de ouvir dizer que não existo, pronto! O meu pai dizia que “os homens são como o vinho, a idade adoça uns a azeda outros”, mas, em maior ou menor grau, é normal, à medida que os anos passam, ficamos mais pessimistas e rabugentos, e isso é bom, porque a alternativa era morrer cedo.
Depois, dizem que a falta de alunos em alguns cursos agrícolas é sinal do abandono da agricultura, mas, no passado, a ida de alguém para o ensino superior agrícola tinha muitas vezes, como objetivo, “sair da lavoura” e procurar trabalho atrás de uma secretária, no ministério da agricultura, nas cooperativas, associações, agroindústrias, fábricas de rações, empresas comerciais… e isso não era mau em si, era normal, se uma familia tinha 2, 3, 5 ou 10 filhos, não podiam ficar todos a trabalhar na terra que já era pouca.
Terceiro, pedi ao google para me fazer um gráfico com a evolução do número de vagas em agronomia e do número de candidatos colocados na primeira fase e, afinal, o gráfico não é a desgraça que parece quando olhamos para alguns cursos que ficam vazios. Então, está tudo bem? Claro que não! É evidente que muita coisa está mal, podem ser cursos desajustados ao mercado, pode ser excesso de cursos, talvez o setor agrícola deva estimar e comunicar o numero de licenciados de que vai precisar no futuro, e também os governantes devem avaliar se querem meter “sangue novo” nos quadros do ministério da agricultura, porque se há gente nova, não os vejo, e apesar das organizações agrícolas hoje fazerem muito do trabalho que antigamente era “extensão rural”, ainda assim há coisas, como os controlos e certificações, que, na minha opinião, não deviam ser tão “privatizadas” como estão a ser.

Quarto ponto, este menos positivo, talvez seja só impressão minha, mas, por razões que não quero agora discutir, por falta de tempo e espaço, passamos de um tempo em que se tinha “pena” do agricultor pobre e desgraçado para um tempo em que se ganhou “raiva” ao “agrónomo”, o “gajo mau” que aconselha e vende pesticidas, adubos químicos e sementes transgénicas, já para não falar sobre toda a imagem negativa dos zootécnicos e veterinários da pecuária, por isso os jovens candidatos à veterinária, quando não estão apenas à espera de uma vaga em medicina, tem por objetivo dedicar-se apenas a cães, gatos e outros animais de companhia.
Quinto e último ponto, de forma muito positiva, a todos os alunos (e aos seus familiares, que possam ler isto com o coração apertado) que agora entram em agronomia, zootecnia, veterinária e tudo o que tenha ver com agricultura, sejam bem-vindos, ânimo, pensamento positivo! A agricultura precisa de vós, precisa de sangue novo, precisa de massa cinzenta, os que já cá estão precisam da vossa “concorrência” e Portugal, e o mundo, precisam dos campos cultivados, do território ocupado e de comida na mesa!
O artigo foi publicado originalmente em Carlos Neves Agricultor.















































