Introdução
Uma ideia que se vê por vezes associada com a agricultura regenerativa é a de que ela irá reduzir de forma significativa a rendabilidade das explorações agrícolas que a venham a adoptar, ou seja, que os resultados económicos futuros dos sistemas de produção agrícola regenerativos irão ser necessariamente menos favoráveis do que os actualmente alcançados pela agricultura convencional.
Infelizmente, não conhecemos nenhuma análise que se debruce de forma abrangente sobre esta problemática no contexto do sector agrícola português, o que, em nossa opinião, justifica que tal análise venha a ser promovida.
Do reduzido número de casos de estudo, de âmbito internacional, a que tivemos acesso o que nos pareceu mais interessante diz respeito à agricultura na Alemanha, intitulado “The case for Regenerative Agriculture on Germany and Beyond”.
Em nossa opinião, o interesse deste estudo tem a ver, não só com o tipo de resultados obtidos, como também com o potencial de aplicação futura à agricultura portuguesa da respectiva metodologia de análise que iremos de seguida apresentar resumidamente, no que se refere ao seu capítulo “Regenerative Agriculre’s impact on farm economics”.
Para o efeito, iremos começar por abordar os pressupostos base da análise realizada, para de seguida analisar os diferentes impactos económicos da adopção dos sistemas de produção regenerativos face ao que actualmente caracterizam os sistemas de agricultura convencionais.
Pressupostos base do estudo sobre a agricultura regenerativa na Alemanha
São os seguintes os principais pressupostos em que se baseia a análise em causa.
Primeiro, consideraram-se dois grandes tipos de uso do solo: “cropland” e “grassland”.
Segundo, procedeu-se à classificação dos indicadores de produção agrícola em três grandes grupos: “small farms”, mixed farms” e “crop farms”.
Terceiro, admitiram-se três diferentes tipos de alterações nos sistemas de produção agrícola: “cultivation practices”, “inputs used” e “composition of land use”.
Quarto, consideraram-se três diferentes fases de implementação do processo de transição dos sistemas de agricultura convencional para os de agricultura regenerativa: “Basic implementation”, “Intermediate implementation” e “Advanced implementation”.
Na figura 1, retirada directamente do relatório anteriormente mencionado, vêm expressas as relações entre os diferentes tipos de alterações previstas para os sistemas de produção agrícola e as três fases de implementação da agricultura regenerativa.
Figura 1 – A agricultura regenerativa envolve alterações nas práticas de cultivo, nos fatores de produção e na estrutura da exploração agrícola, a implementar em três fases

Impactos económicos positivos e negativos da adopção da agricultura regenerativa na Alemanha
A metodologia de cálculo dos benefícios e custos a agricultura regenerativa adoptada baseia-se em três etapas distintas:
- 1ª Etapa: determinação dos resultados económicos base para as três unidades de produção agrícola convencional e em relação aos seguintes produtos agrícolas: cereais, oleaginosas, milho grão, leguminosas e prados e pastagens;
- 2ª Etapa: estimativa dos impactos por hectare relativos às duas fases de implementação da agricultura regenerativa dos três diferentes tipos de alterações previstas, incluindo as receitas esperadas com a venda de créditos de carbono;
- 3ª Etapa: cálculo do impacto sobre os resultados económicos, de cada um dos três tipos explorações agrícolas em causa para o conjunto das duas fases de implementação do processo de transição da agricultura convencional para regenerativa.
Os impactos previstos pelos autores do estudo sobre a agricultura alemã dizem respeito a impactos de médio-longo prazo (6 a 10 anos) e foram desagregados para diferentes alterações tecnológicas e para as duas primeiras fases do processo de implementação da agricultura regenerativa. Os autores optaram por não considerar os impactos de uma terceira fase de implementação (“advanced implementation”) por se admitir que eles só se sentirão no longo prazo e de não existirem, ainda, análises empíricas que os sustentem.
As estimativas feitas para as alterações a adoptar na primeira fase de implementação da agricultura regenerativa na Alemanha tomam como referência o resultado líquido médio de 355€/ha para os sistemas de produção agrícola convencional e levam em consideração três diferentes grupos de medidas que visam:
- a melhoria da estrutura do solo baseada nas práticas culturais visando uma mobilização mínima do solo;
- a melhoria da cobertura do solo baseada na introdução de culturas de cobertura diversificadas;
- um balanço mais adequado dos nutrientes do solo, baseado na respectiva análise dos solos.
Em relação à segunda fase de implementação da agricultura regenerativa proposta pelos autores do estudo, são três os seguintes grupos de medidas previstas:
- “underswon cropping”, visando a redução dos fertilizantes e o aumento dos créditos de carbono;
- “minimal soil-disturbing mulch system”, visando a redução do uso de fertilizantes e fitofármacos;
- recurso ao estrume e a bio estimulantes.
Importa descrever um pouco as práticas que foram consideradas neste estudo, como forma de ajudar a estabelecer paralelismos com possíveis aplicações em Portugal e definir o que foi realmente testado neste trabalho:
- na melhoria da estrutura do solo, são referidas duas práticas: a sementeira directa e a subsolagem de mínima perturbação. É importante perceber que estas duas técnicas são diferentes e complementares, podendo ser utilizadas em conjunto nos casos em que tal faça sentido tecnicamente. A primeira permite a sementeira de culturas anuais sem mobilização do solo, mantendo a estrutura e biodiversidade do solo e permitindo que os processos químicos e a retenção de água não sejam interrompidos ou evitados com o reviramento da leiva. A segunda destas técnicas permite fazer uma descompactação em profundidade com uma muito reduzida intervenção na camada superficial do solo e sem reviramento da leiva, contribuindo também para a resolução de alguns problemas que se podem verificar ocasionalmente, como a deficiente infiltração de água no solo ou a existência de compactações habitualmente designadas por “calo de lavoura”.
- Relativamente à melhoria da cobertura do solo, esta análise observou práticas de instalação de culturas de cobertura com misturas biodiversas. Esta prática permite aportar ao solo alguma nutrição, através do desenvolvimento de raízes, fixação de azoto atmosférico e deposição de matéria orgânica. No entanto, apresenta os seus principais benefícios na cobertura do solo em épocas em que a cultura principal não o consegue fazer. Assim, verifica-se uma protecção do solo contra as perdas de matéria orgânica e biodiversidade causadas pela exposição ao sol e pela erosão, principalmente hídrica.
- O uso de uma estratégia de fertilização mais equilibrada permite uma racionalização dos custos de fertilização e a utilização dos nutrientes na forma e quantidade de que as culturas realmente necessitam. Esta medida também permite uma importante redução do risco de lixiviação dos nutrientes aplicados em excesso ou muito móveis no solo, como é o caso do azoto, assim como do risco de alguns efeitos químicos, sobre o pH, a salinidade do solo e sobre o desenvolvimento de algumas infestantes da cultura.
- A técnica designada por “undersown cropping” permite reduzir ainda mais a aplicação de fertilizantes, reduzindo custos e procurando uma compensação ambiental sob a forma de créditos de carbono, enquanto promove o microbioma do solo e o ecossistema da parcela como um todo, assim como previne a lixiviação para os aquíferos.
- Relativamente ao “minimal soil-disturbing mulch system”, tata-se da utilização dos sobrantes das culturas de cobertura para criar uma cobertura da parcela prolengada para lá da cultura de cobertura. Neste tipo de técnicas também se pode fazer algumas manipulações destes detritos, em compostagem ou em meios para crescimento de microrganismos adjuvantes do solo, de depois voltar a aplicar ao solo. O objectivo destas práticas é o de criar uma camada de mulching sobre o solo que reduz os impactos físicos e a compactação, promove a conservação de água no solo e a resistência à erosão, e é percussora do desenvolvimento da fauna do solo.
- Finalmente, a utilização de bioestimulantes e a sua acção sobre o estrume é também uma prática importante, uma vez que consiste na utilização de processos biológicos para a melhoria das características do estrume antes da sua aplicação ao solo. Ao utilizar fermentações microbianas e inoculação de microroganismos benéficos, evita-se um dos principais problemas da aplicação de estrume tradicional: o risco de volatilização e lixiviação dos nutrientes. Ao mesmo tempo, promove-se os processos biológicos no solo e melhora-se o equilíbrio e a biodiversidade no microbioma das parcelas tratadas desta forma.
Do ponto de vista das práticas consideradas no estudo, e da sua rentabilização, é importante, também considerar a importância dos créditos de carbono. Apesar de o relatório não desagregar completamente o seu valor, refere que há uma contabilização desse pagamento nas práticas de “cover cropping” e de “undersown cropping”. Torna-se claro que este é um aspecto muito relevante na análise económica apresentada.
Da Figura 2, retirada directamente do relatório em causa, constam os impactos positivos e negativos previstos pelos autores para cada uma das operações associadas aos seis grupos de medidas em causa, de cuja análise se pode concluir:
- que o resultado líquido esperado após a implementação desta segunda fase de transição para a agricultura regenerativa na Alemanha será de 581€/ha, ou seja, 64% superior ao resultado líquido de referência (355€/ha);
- que das melhorias preconizadas na estrutura do solo se prevê um acréscimo de 97€/ha no resultado líquido base, ganho este resultante predominantemente das poupanças esperadas com a mobilização mínima do solo e a sementeira directa;
- que das melhorias esperadas com as práticas de cobertura do solo se prevê um acréscimo de 52€/ha no resultado líquido base, ganho este resultante maioritariamente da redução das despesas com a fertilização e com as receitas com futuros créditos de carbono.
- que das melhorias esperadas com o “undersown cropping” se prevê um acréscimo de 49€/ha, decorrente maioritariamente da redução dos custos com fertilizantes;
- que do “minimal soil-disturbing mulch system” preconizado, se prevê um ganho de 21€/ha, o qual resulta maioritariamente da redução dos custos com a utilização de agroquímicos;
- que os ganhos alcançáveis ao longo da primeira fase de implementação da agricultura regenerativa (152€/ha) representam cerca de 67% da totalidade dos ganhos (226€/ha) previstos para o conjunto das duas fases de implementação em causa.
Figura 2 – Uma vez plenamente implementadas, as práticas regenerativas podem proporcionar aos agricultores lucros até 60% superiores nas culturas de cereais e oleaginosas
Pode-se, assim, concluir que do estudo realizado para a agricultura da Alemanha se pode prever que uma transição para sistemas de agricultura regenerativa irá, no médio-longo prazo, contribuir para uma melhoria significativa dos respectivos resultados económicos.
Tal facto, não significa que o mesmo se verificará necessariamente no caso português, mas justifica que, utilizando uma metodologia semelhante, se venha a desenvolver estudo idêntico entre nós.
Miguel Vieira Lopes
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