Uma associação de produtores agrícolas de Serpa, no distrito de Beja, criticou o acordo comercial assinado, no sábado, entre a União Europeia e o Mercosul e pediu que os eurodeputados portugueses votem contra a proposta.
Em comunicado enviado hoje à agência Lusa, a Associação de Produtores da Região de Serpa (APROSERPA) manifestou a sua “rejeição liminar” aos termos do acordo comercial entre a União Europeia (UE) e o Mercosul.
“O que está em cima da mesa é uma troca de interesses industriais pelo sacrifício da agricultura do Sul da Europa”, lê-se no comunicado, no qual a associação identificou “cinco ameaças existenciais que os eurodeputados portugueses não podem ignorar no momento do voto no Parlamento Europeu”.
De acordo com a APROSERPA, o acordo representa um “ataque triplo à pecuária”, uma vez que “ataca a viabilidade das explorações através de uma ‘engenharia comercial’ que destrói o equilíbrio da carcaça”.
Em causa, argumentou, está o facto de os países do Mercosul não irem “exportar a carcaça inteira” de bovinos, preenchendo a quota de 99.000 toneladas “exclusivamente” com cortes “de alto valor”, o que vai saturar “o mercado da restauração e hotelaria” e retirar “ao produtor alentejano a capacidade de valorizar o seu animal, forçando a venda abaixo do custo de produção”.
E, no caso dos suínos, a entrada de 25.000 toneladas de carne “com taxa aduaneira de 0% cria um ‘preço de referência’ artificialmente baixo, assente em custos de produção sul-americanos impossíveis de replicar na Europa”, alegou.
A APROSERPA afirmou ainda que o acordo “vem colocar uma ‘lápide’ sobre a produção de cereais no Alentejo, ao blindar juridicamente a entrada de milho sul-americano”, o que terá também “consequências diretas de proteção civil”.
“A inviabilidade económica da pecuária extensiva e dos cereais levará ao abandono imediato das terras e ao fim da gestão do combustível pelo pastoreio”, pelo que “aprovar este acordo em Bruxelas é subsidiar o aumento dos incêndios rurais em Portugal na próxima década”, invocou.
A associação alentejana criticou igualmente “a mentira das salvaguardas”, alegando que “o produtor terá de falir primeiro para ser ajudado depois”.
Por fim, afiançou, o acordo “é moralmente inaceitável e um atentado à segurança alimentar dos portugueses”, ao autorizar a entrada “de carne produzida com hormonas ou antibióticos promotores de crescimento (banidos na Europa desde 2006) e culturas com pesticidas proibidos”.
Além disso, “a fiscalização por amostragem nos portos é insuficiente” e, por isso, a UE “não pode garantir ao consumidor a inexistência de resíduos tóxicos nos alimentos importados”, reforçou.
A APROSERPA pediu, pois, “responsabilidade política” aos eurodeputados portugueses, considerando que o seu “silêncio” no Parlamento Europeu equivalerá a “uma cumplicidade com o fim do mundo rural”.
O acordo comercial entre a UE e o Mercosul foi assinado, este sábado, em Assunção, capital do Paraguai, criando assim a maior zona de livre-comércio do mundo após 25 anos de negociação.
O acordo permitirá eliminar tarifas para 91% das exportações da UE para o Mercosul e para 92% das vendas sul-americanas para a Europa, abrindo um mercado conjunto de mais de 700 milhões de consumidores.
Para o presidente da Confederação dos Agricultores de Portugal (CAP), Álvaro Mendonça e Moura, o acordo é “globalmente positivo” para Portugal.
“Temos setores que serão claramente ganhadores, como o vinho, azeite, frutas e queijos”, enquanto o acordo “pode ter impacto negativo no setor das carnes”, disse o dirigente em Beja, no passado dia 14, após uma reunião com a Federação das Associações de Agricultores do Baixo Alentejo.

















































