Sobre a liberdade de escolha do que comemos – Manuel Chaveiro Soares

Sobre a liberdade de escolha do que comemos – Manuel Chaveiro Soares

Em Portugal, recentemente, neste período pré-eleitoral, emergiu uma onda de políticos que decidiram surfar a espuma dos dias, nomeadamente condenando o consumo de bens alimentares de origem animal, ora por razões ideológicas ora invocando alegados motivos de índole ambiental – mas sempre interferindo com a liberdade que nos assiste de escolher o que comemos.

A personalidade com maior visibilidade neste movimento proibicionista dirige um partido político de ideologia animalista, sendo que hoje não só já não consome carne como também luta para que os seus concidadãos abandonem esse hábito milenar, e presente na dieta mediterrânica, não obstante ele próprio ter sido criado em Tondela onde consumia carne de porco, de coelho e também de frango, criado pela sua família em larga escala para comercializar, até que a empresa avícola faliu.

Na verdade a carne não é imprescindível na composição da dieta humana, mas a sua incorporação facilita a preparação de uma alimentação completa, equilibrada e, portanto, saudável – para além das suas apreciadas propriedades sápidas.

Os alimentos de origem animal – carne, pescado, leite, ovos – contém proteínas de óptima qualidade, pois apresentam um elevado valor biológico, derivado da presença de nove aminoácidos essenciais (não sintetizados pelo Homem) nas mesmas proporções em que são requeridos pelas proteínas corporais sintetizadas durante um dia. Também estão presentes nas enzimas que catalizam muitas reações químicas e na hemoglobina que transporta o oxigénio no sangue.

Ademais os alimentos de origem animal melhoram também a dieta humana na medida em que proporcionam certas vitaminas e minerais que estão presentes em pequenas concentrações ou mesmo ausentes nos alimentos vegetais, como é o caso da vitamina B12. Segundo a FAO, na Europa Ocidental há registo de deficiências em diversas vitaminas do complexo B e em ferro (em grande parte como constituinte da hemoglobina, levando os médicos a recomendarem o consumo de carne de vaca para suprir a deficiência de ferro, não rara em crianças).

A insuficiência do consumo de proteínas de elevada qualidade afecta o crescimento, a massa muscular, fragiliza o coração e o sistema respiratório.

Em Portugal todos nós temos a percepção clara que em geral a estatura dos actuais adolescentes é acentuadamente superior à dos seus antepassados criados na primeira metade do século XX, quando o consumo de proteína animal era francamente baixo (comia-se galinha em dia de festa!). Num estudo estatístico, envolvendo homens de origem europeia vivendo em 45 países, Grasgruber et al. (2014) verificaram que os factores mais importantes que explicavam as diferenças de estatura residiam na relação entre o consumo de proteínas de elevada qualidade provenientes de produtos lácteos, carne de porco e pescado, e proteínas de baixa qualidade do trigo.  Esta questão não é de somenos, pois até políticos de renome se esforçam para aparentarem uma maior estatura (e não raro são ridicularizados) e os modelos são selecionados com uma altura considerável para lhes conferir elegância.

Também nos idosos saudáveis o consumo de proteínas de elevado valor biológico estimula o anabolismo muscular proteico, desacelerando assim a perda de massa muscular durante o envelhecimento, sendo por isso recomendado que os idosos sejam encorajados a consumir uma alimentação rica em alimentos magros de origem animal (Kim et al., 2010), como, por exemplo, peito de frango sem pele.

Com vista explicitamente a capacitarem os países a implementar decisões políticas que protejam os recursos naturais e melhorem o abastecimento alimentar e a nutrição dos cidadãos, duas prestigiadas organizações internacionais (OECD/FAO, 2019, Agricultural Outlook 2019-2028) publicaram em conjunto as projecções para o consumo de carne no Mundo e em diversas regiões para o período de 2019 a 2028. No caso da UE é previsível que o consumo total de carne sofra um ligeiro incremento (+0,05%), decrescendo levemente o consumo das carnes de bovino (-0,42%) e de suíno (-0,04%), mas aumentando um pouco o da carne de aves (+0,52%).

Curiosamente, em Portugal, onde cerca de metade da carne de bovino é importada (!), há decisores políticos que defendem uma redução drástica do efectivo bovino nacional, incomparavelmente superior à prevista para a UE, sem que, além disso, tenham em conta os inúmeros inconvenientes para o País, tanto económicos como ambientais, mormente no caso dos bovinos criados em pastoreio, visto que, nomeadamente, contribuem favoravelmente para o sequestro de CO2. Os referidos inconvenientes afectam em particular: i) a economia das regiões agrícolas mais desfavorecidas e a balança comercial agrícola (na medida em que se aumentam ainda mais as importações); ii) a perda de matéria orgânica do solo – que seria proporcionada pelos dejectos dos bovinos e pelas pastagens permanentes – tão necessária à fertilidade dos nossos solos, à retenção da água e ao sequestro do CO2; iii) a existência das pastagens, que igualmente concorrem para a fixação do carbono, e subsequente implantação natural de matos susceptíveis aos fogos – tudo concorrendo, enfim, para uma maior desertificação do interior do País, que os mesmos decisores políticos proclamam pretender evitar.

Conforme sublinhado anteriormente, os alimentos de origem animal caracterizam-se por apresentar um valor nutritivo excepcional, a que acrescem propriedades organolépticas muito apreciadas pela generalidade das pessoas, razões por que o seu consumo aumenta com o desenvolvimento económico dos países, pelo que os países europeus, por exemplo, têm vindo a importar quantidades elevadas de soja como importante fonte proteica da dieta dos animais não criados em pastoreio. É também interessante anotar que é comum encontrar empresários chineses a cultivarem soja em diversos países para assim assegurarem as crescentes necessidades daquele enorme país em franco desenvolvimento económico.

As aludidas propriedades sápidas e nutritivas dos bens alimentares de origem animal, em grande parte vendidos a baixos preços, têm como inconveniente favorecer a obesidade – o que constitui um problema de saúde – devido à dificuldade da homeostase humana atingir níveis de saciedade. Mas, a meu ver, nesta questão importa privilegiar a liberdade individual, designadamente na escolha do que comemos.

O que precede não invalida que um adulto vegetariano compulsivo consiga combinar os vegetais com rigor suficiente para preparar uma alimentação equilibrada e completa, excepto no que toca à vitamina B12, ausente nas plantas, mas susceptível de ser fornecida através de suplementos alimentares. De notar, todavia, que ser vegetariano não confere qualquer superioridade moral, pois já Hitler também era vegetariano.

Manuel Chaveiro Soares

Eng. Agrónomo, Ph.D.

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