O que não arder agora arde mais tarde

O que não arder agora arde mais tarde

Não tenham expectativas: o país vai continuar a arder e o que não arder agora arde mais tarde. Os incêndios em Portugal são uma inevitabilidade. O problema é que não sabemos lidar com isso.

Bastaram dois dias e uma temperatura mais elevada para duplicar a área ardida em Portugal desde o início do ano. As expectativas que criámos após os incêndios de 2017 não poderiam passar disso mesmo: expectativas. Desengane-se quem esteja convencido que as consequências desses fogos foram suficientes para aprendermos a evitar a sua repetição: o cenário de devastação da floresta é cíclico porque é um problema crónico.

O protocolo é conhecido. A seguir à tragédia, segue-se a comoção nacional e sucedem-se os planos de boas intenções de recuperação e de investimento. E depois vem o remanso. É preciso dizer que muitas acções foram desenvolvidas preventivamente nos últimos dois anos, da utilização de cabras sapadoras às operações de limpeza das bermas. Mas, como dizem especialistas ouvidos pelo PÚBLICO, nada disso altera a questão de fundo, todas estas medidas são periféricas ao problema. A saber: a economia não retira do território a acumulação contínua de combustíveis ideais para a propagação das chamas. Dito de outra forma, não olhamos devidamente para a floresta.

Mal um fogo se acende numa floresta, desatamos a discutir sobre a falta de recursos, a falta de conhecimento na prevenção e combate, a falta de vontade política ou o endurecimento de penas para incendiários. E colocamos apressadamente no céu os helicópteros que estavam avariados e pedimos auxílio externo.

Os incêndios não acontecem só em Portugal, como se viu pela Catalunha no mês passado (a área ardida em Espanha é superior à de Portugal), e há uma série de condicionantes impossíveis de dominar e que podem ajudar um incêndio a assumir proporções trágicas. Vila de Rei e Mação podem queixar-se do aquecimento global, mas também podem queixar-se, como fazem, de as suas expectativas terem sido goradas. Não vale a pena idealizar. As câmaras culpam a administração central e esta responde, como fez António Costa, que os autarcas são os “primeiros responsáveis pela protecção civil em cada concelho”.

Curiosamente, as áreas ardidas nos concelhos de Vila de Rei e Mação nestes últimos dias integram uma zona florestal que não tinha sido atingida nos incêndios de Pedrógão Grande, mas que foram destruídas pelo fogo em 2003 e 2005. Não tenham expectativas: o país vai continuar a arder e o que não arder agora arde mais tarde. Os incêndios em Portugal são uma inevitabilidade. O problema é que não sabemos lidar com isso.

AMÍLCAR CORREIA

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