O desafio de comunicar agricultura, acender velas e comprar leds – Carlos Neves

O desafio de comunicar agricultura, acender velas e comprar leds – Carlos Neves

“É melhor acender uma vela do que gritar contra a escuridão” (provérbio chinês)

Temos assistido a sucessivos ataques à produção agrícola e pecuária através dos meios de comunicação e redes sociais. Debaixo de fogo comunicacional estiveram, por exemplo, o “olival super-intensivo”, os “abacates dos Algarve”, as “estufas do litoral alentejano”, a pecuária intensiva ou toda a agricultura que usa adubos e pesticidas. Não pretendo agora esgrimir argumentos sobre os vários sistemas agrícolas, mas apenas apontar pistas para a resposta do setor agrícola a esta comunicação negativa.

Compreendo a revolta de quem é surpreendido com estes ataques, muitas vezes recebidos ao fim de um dia de trabalho para alimentar gente que depois nos critica com a barriga cheia. Compreendo a indignação. Mas será eficaz? Fará sentido pegar no telemóvel para discutir um comentário com a mesma atitude com que antes se tocava o sino a rebate? Será essa a melhor ferramenta para combater os “incêndios comunicacionais”, perdão, a polémica de cada momento?

Chamar “urbano-depressivo” a alguém não vai curar a sua depressão nem vai cativar a simpatia dos outros urbanos. Aliás, o primeiro a usar essa expressão gosta muito de ir ao campo caçar mas se encontrar um olival intensivo a estorvar a caça também fica deprimido e depois as estufas de Odemira e os abacates do algarve apanham por tabela. É a típica visão de quem gostava de congelar o mundo rural de segunda à sexta para depois descongelar e usar ao fim de semana e nas férias.

Os urbanos, mais ou menos deprimidos com a crise, o covid ou a solidão humana (que os deixa apenas com a companhia dos animais de estimação), são os nossos clientes, que precisam dos nossos alimentos mas que também precisam que saibamos comunicar como os produzimos. Há uma competição pelo espaço no estômago dos consumidores e muitos ataques provém do interesse em ocupar esse espaço com alimentos alternativos tais como carnes artificiais e bebidas vegetais para substituir a carne e o leite naturais.

A comunicação é uma ciência. É certo que todos comunicamos diariamente, não apenas através da palavra oral ou escrita, mas também através da forma como vestimos, do nosso rosto e até do nosso silêncio. Falta-nos uma cadeira de “comunicação” nos cursos agrícolas. Aprendemos a cultivar a terra, cuidar dos animais, reparar tratores ou fornecer os produtos necessários para tudo isto, mas não desenvolvemos competências de comunicação e somos ultrapassados por ativistas que têm o dia livre para pintar a nossa imagem da forma que mais lhes convém para compor a sua narrativa.

Temos de tratar da “comunicação negativa” com o mesmo profissionalismo com que chamamos os veterinários para tratar dos animais e os agrónomos para tratar das plantas. Precisamos de inquéritos que nos digam o que os cidadãos e consumidores pensam de nós. Existe muito desconhecimento mas a realidade também não é tão má como vemos nas redes sociais. Existe uma diferença entre a “opinião pública” e a “opinião publicada”. Exemplo: apesar do ativismo contra o consumo de carne repetir que “há cada vez mais pessoas a deixar de comer…”, segundo inquérito da IACA, 99,4% das pessoas ainda come carne e peixe.

Também não basta chamar uma empresa de comunicação e deixá-la a tratar de tudo sozinha e com atores que passam umas horas no solário para fingir que são agricultores. Quando chamamos o agrónomo ou o veterinário, acompanhamos a visita e discutimos com eles as soluções. Também temos de acompanhar diretamente os assuntos de comunicação.

Uma estratégia de comunicação moderna, profissional e articulada da agricultura exige coordenação, dinheiro e ciência, tal como iluminar um edifício com leds exige eletricistas profissionais. Entretanto, podemos ficar sentados, à espera, a gritar contra a escuridão dessa falta de comunicação ou podemos ir acendendo umas velas… iluminando alguma coisa à nossa volta, comunicando com os nossos amigos e conhecidos. Deixo aqui alguns tópicos que considero importantes para uma comunicação mais eficaz:

  • Não pensar que basta ensinar as crianças e depois esquecer os jovens e os idosos – alvos preferenciais dos ativistas nas redes sociais e nos programas da TV;
  • Não esquecer de comunicar para os professores… sobretudo os que escrevem os manuais escolares com referências à agricultura;
  • Passemos de “reativos” a “pró-ativos”; Exemplo prático: Se um marido for proativo e avisar imediatamente a esposa que uma amiga lhe deu um beijo na rua, não vai ter que ser reativo quando levar com o rolo da massa ao entrar em casa depois das amigas coscuvilheiras contarem à esposa;
  • Evitar textos longos e termos técnicos. Falar apenas do que sabemos e fazemos, com paixão e empenho;
  • Evitar debater com ativistas que são profissionais do debate; É preferível responder noutra altura, para esclarecer o essencial mas ignorar quem nos atacou;
  • Evitar fazer publicidade a quem nos criticou – ao partilhar links estamos a promovê-los;
  • Evitar perder a cabeça para não passar de vítima a agressor;
  • Evitar fugir em pânico e passar por cima dos outros nossos colegas, com discursos do tipo – “Ah, isso são os outros que fazem agricultura cheia de químicos, nós aqui é tudo natural, sem hormonas nem antibióticos…”.

Sobre o contacto com jornalistas:

  • Não deixar um jornalista sem resposta – Se nós não comunicarmos, alguém vai comunicar por nós;
  • Não ignorar as rádios e os meios de comunicação locais;
  • Não pensar que agora se comunica tudo nas redes sociais;
  • Não ver os jornalistas como adversários – São profissionais, como nós, a tentar fazer o seu trabalho, às vezes desesperados por ter audiência, pressionados por chefias com “agenda” ou crises de tesouraria;
  • Os jornalistas também são vítimas de ideias feitas (preconceitos = pré-conceitos) sobre a agricultura que deixamos crescer ao longo de anos e será difícil mudar de um dia para o outro;
  • Não dar entrevistas sem preparar o tema, saber quem é o entrevistador e quais os objetivos da reportagem.

Uma última nota: a comunicação deve ser permanente, constante e positiva. Uma mentira repetida mil vezes parece verdade e a mentira é mais fácil de espalhar do que a verdade. “À mulher de César não basta ser séria, também tem de o parecer”.

Carlos Neves

Agricultor, produtor de leite e secretário geral da Aprolep

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