Não estamos preocupados com as alterações climáticas… – João Júlio Cerqueira

Não estamos preocupados com as alterações climáticas… – João Júlio Cerqueira

Se a preocupação de quem nos governa fosse real, haveria um esforço de todos para estudar e implementar as soluções tecnológicas ao nosso dispor, sem ideologias e tribalismos políticos à mistura.

Existe um novo distúrbio na sociedade e eu sofro disso. Chama-se ansiedade climática ou eco-ansiedade. Passo demasiado tempo preocupado com o futuro por causa das alterações climáticas e as consequências para a sociedade. Sinto-me impotente porque para reduzir as minhas emissões de CO2 de forma drástica, teria que mudar de emprego. Ajudo a derreter toneladas de gelo todos os meses nos glaciares, já que andar 500 metros de carro equivale a 1 Kg de gelo derretido.

Sempre que compro alguma coisa que me dá prazer penso no seu impacto ambiental e o sentimento de culpa toma conta. Não gosto de deixar comida no prato para não contribuir para o desperdício alimentar. E não consigo deixar de pensar no desperdício de comida na restauração sempre que vou ao restaurante. Mesmo quando cozinho em casa, tendo a reparar na quantidade de plástico e papel desperdiçado ao desempacotar os alimentos. Faço um esforço para reciclar tudo. Até os recipientes de iogurte, apesar de saber que em Portugal não se reciclam…não é “economicamente viável”.

Vejo o Greenwashing a ganhar terreno, nas máquinas de café dispensando copinhos de papel que não dão para reciclar porque têm uma película de plástico. Nos hipermercados que acabam com os sacos de plástico e aconselham os de papel, apesar dos sacos de papel terem maior impacto ambiental. Tudo para que pessoas menos informadas fiquem menos ansiosas com essas escolhas: “já contribui”, pensam elas, caminhando em direção ao abismo.

Mas o que me cria mais ansiedade e revolta são mesmo os políticos. À direita temos os negacionistas das alterações climáticas de origem antropogénica, quando sabemos que 100% das alterações provocadas nos últimos 200 anos são culpa nossa. À esquerda temos os moralistas, que assumem que somos culpados pelas alterações climáticas mas negam as soluções para resolver o problema.  A direita infeta o debate sobre as alterações climáticas, enquadrando o tema como “um ataque ao capitalismo” e ao nosso estilo de vida. A esquerda tende a misturar políticas de combate às alterações climáticas com políticas identitárias e de combate à desigualdade social. Ambas estas posições desvirtuam o problema. Criam ruído. Adiam soluções. Ambos apenas se preocupam com sinalizações de virtude, com minudências. Hoje as beatas do cigarro, amanhã as palhinhas de plástico.

Honestamente não tenho grande esperança que os negacionistas das alterações climáticas mudem de posição. São reféns da ideologia, do tribalismo político e resistentes a factos. Não adianta, pelo menos até a realidade lhes bater à porta. Mas ainda tenho alguma esperança que as mentes ponderadas mudem de opinião sobre algumas soluções tecnológicas como os transgénicos. E é sobre isso que vou deixar alguns pontos de reflexão.

Transgénicos

Não existe nenhuma morte registada por ingestão de transgénicos. Não está descrita nenhuma consequência para a saúde. Não só são seguros, como poderão ser ainda mais saudáveis que os alimentos convencionais, já que tendem a ter menos micotoxinas e, eventualmente, a diminuir o risco futuro de ter cancro.

E em termos ambientais, as suas vantagens estão mais do que estabelecidas. Um artigo publicado em 2013atualizado em 2015 e novamente em 2018, conclui que a utilização de transgénicos leva a uma redução brutal na utilização de pesticidas, de libertação de gases efeito estufa e de terra necessária para produção alimentar. O equivalente a tirar 16 milhões de carros da estrada. Dado que a utilização de transgénicos é limitada a alguns países, imagine o impacto ambiental da sua generalização. Poderia também levar a mais investimento na área da biotecnologia, trazendo para o mercado outras soluções interessantes e com impactos ambientais positivos, como por exemplo plantas que fazem maior captação de CO2.

Ser anti-transgénicos é também ser pró-pobreza, miséria e fome. É que graças aos transgénicos é possível aumentar a produtividade das colheitas e o rendimento económico dos agricultores de uma forma substancial, na ordem dos 68%. Em termos absolutos, o ganhos concedidos pelos transgénicos ultrapassaram os 180 mil milhões de dólares, sendo que metade desses ganhos foram nos países em desenvolvimento.

Numa altura em que vemos a fome mundial a aumentar, é sempre bom saber que os “ecotontos” que vivem em países desenvolvidos financiam campanhas de desinformação sobre transgénicos em África. Trabalham furiosamente contra a sua implementação. Parece que os ambientalistas gostam de pobreza e é na pobreza que procuram a solução dos nossos problemas.

Mas o problema não é só em África. Por cá temos o lobby da agricultura biológica, a promover o medo sobre os alimentos transgénicos. Promovem o medo de alimentos onde habitualmente foi introduzido um único gene ao mesmo tempo que cultivam plantas criadas através de mutagénese, com milhares de mutações desconhecidas…e não percebem a incoerência. E os políticos cedem a esta visão naturalista, completamente alienada da ciência e da realidade dos factos. Aliás, muitos políticos, ignorantes, acham que o combate à agricultura intensiva é a solução…que a agricultura biológica nos ajudará a resolver o problema. Mas isso só é solução se o objetivo for salvar a Humanidade com recurso à fome e miséria. Não é possível alimentar a população, preservar a biodiversidade e criar áreas de reserva natural recorrendo à agricultura biológica. Simplesmente não é.

Não. Não estamos preocupados com as alterações climáticas. Se a preocupação de quem nos governa fosse real, haveria um esforço de todos os quadrantes para estudar e implementar as soluções tecnológicas ao nosso dispor, sem ideologias e tribalismos políticos à mistura. E quem está deste lado, quem segue minimamente o que está a acontecer, apenas pode desesperar. Ou ter esperança que, quando a realidade for demasiado grave para ser ignorada, os ideólogos finalmente abandonem a sua ideologia e façam o que já deviam estar a fazer neste momento.

Dr. João Júlio Cerqueira
Médico especialista em medicina geral, familiar e do trabalho

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