Luto: uma peça sobre o fogo para voltar às coisas

Luto: uma peça sobre o fogo para voltar às coisas

“Vejo tudo até à Serra da Estrela”, conta Odete Claro. A varanda de sua casa em Percelada, no concelho de Tábua, tem uma vista que alcança a formação montanhosa. Pelo meio há uma quinta e essa quinta tinha dois cães. “No dia do fogo, ouvi o ladrar dos cães que queriam fugir e não podiam. Então morreram”. Foi há quase dois anos e, no tempo que passou, o dono reconstruiu a quinta. Tem já um novo galinheiro e novos cães. Entretanto, a paisagem coberta pelo negro começou, ainda que timidamente, a deixar regressar o verde e a vida continuou. “Um dia destes, fui à varanda e ouvi aqueles cães a ladrar. Chorei que nem uma madalena. Ainda hoje me custa ouvi-los a ladrar”, explica Odete, de 84 anos, hoje reformada, bordadeira enquanto trabalhou.

Nasceu em Almada, mas vive em Tábua há 21 anos, onde estava na tarde de 15 de Outubro de 2017, o dia em que vários incêndios de grandes dimensões varreram largas áreas de floresta, destruindo de tudo um pouco, de casas a estabelecimentos, causando 50 mortos e dezenas de feridos. É este acontecimento pesado que serve de base a Luto, o novo trabalho da companhia Circolando, que se estreia esta sexta-feira na Casa do Povo de Tábua, com direcção de André Braga e dramaturgia de Cláudia Figueiredo.

Mesmo depois de o fumo se dissipar, após o incêndio, o ar ficou mais pesado. Na rua, nos cafés, nas conversas. Foi assim durante muito tempo e, em parte, ainda é, conta Odete Claro, que fez teatro amador toda a vida. É por essa via que chega ao palco de Luto. Para além dos cinco intérpretes da Circolando, há mais três actores amadores locais que participam no trabalho desenvolvido no âmbito da rede Artéria, um projecto coordenado artisticamente pela companhia O Teatrão e que envolve oito municípios da região Centro.

Os criadores de Luto começaram por absorver relatos, depoimentos e histórias, de forma directa ou indirecta. “Alguns dos relatos estão aqui metidos, como um lar em que os idosos estiveram na cave, a beber leite, sem saber que o incêndio passou por cima”, explica ao PÚBLICO André Braga. No processo de recolha, aperceberam-se da verdadeira dimensão de uma tragédia que não terminou na perda de vidas humanas. “Foi a perda de identidade a todos os níveis, de memória, dos objectos, dos caminhos que as pessoas deixaram de reconhecer”, menciona.

Da memória à resistência

Os artigos dispersos pelo terreno que serve de palco fazem menção a essa perda. São objectos que, fora de quatro paredes, são apenas partes de uma casa: peças de mobília, loiça de casa de banho, vários electrodomésticos e uma televisão que transmite estática. “Das cinzas voltar às coisas”, como diz um dos actores, num dos momentos iniciais da peça, para lembrar os sítios que já não existem.

No trabalho de criação, encontraram pessoas em fases distintas de um mesmo processo. De pessoas que já só queriam ultrapassar, evitando o assunto, a pessoas “que finalmente encontraram alguém com quem voltar a falar sobre isto”, conta Cláudia Figueiredo. Daí que o título da peça também traduza o luto de quem lida com uma perda, mas também um aspecto mais combativo de quem ficou e resiste.

O que também resiste na região são algumas das árvores. Um pirófito, como se faz notar na peça, é uma planta que tolera o fogo. A paisagem de hoje mostra que há por ali exemplares de sobra, com o “peculiar e penetrante aroma dos bosques australianos”. O eucalipto entra numa vertente abertamente politizada do espectáculo, que vai da depressão civilizacional ao activismo ecologista do saquinho de plástico. Em parte, advém da mera observação da área ardida: “Paus pretos, pinheiros mortos, e uma imensidão de eucaliptos. Começas a pensar ‘isto é de quem? Vai para onde?’”. Um panorama que pode agravar as condições do próximo incêndio.

A inclusão de um manifesto político pretende também questionar os custos e facturas daquilo a que chamamos “desenvolvimento”. Um dos meios para o fazer é a presença de Erisícton, personagem emprestada da mitologia grega, amaldiçoada pelos deuses com uma fome impossível de saciar por ter derrubado a grande árvore de um bosque sagrado.

Na quinta-feira, também em Tábua, teve lugar uma conferência para discutir os desafios culturais, físicos e demográficos em territórios de baixa densidade, também no âmbito da rede Artéria. A peça, que é de entrada gratuita, fica em Tábua até domingo, dia 21, partindo no fim-de-semana seguinte para Ourém, onde estará em exibição no Parque da Cidade nos dias 27 e 28 de Julho. 

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