Incêndios: “No meio disto tudo, a gente nunca chega a saber quando há uma vingança”

Incêndios: “No meio disto tudo, a gente nunca chega a saber quando há uma vingança”

Todos os anos, com a chegada do verão, chegam também os incêndios florestais ao distrito de Castelo Branco e, no meio disto tudo, “a gente nunca chega a saber quando há uma vingança”, afirma Fernando, de 59 anos.

Fernando Ribeiro, de 59 anos, trabalha na agricultura e é um dos poucos habitantes do Souto, um lugar encravado num vale entre Oleiros e de Proença-a-Nova, mas que pertence a este último concelho. “Junto à serra a situação estava complicada. Mas, passou ali um avião grande e a coisa controlou-se, felizmente”, explica à agência Lusa, Fernando, que apesar dos seus 59 anos está nitidamente desgastado pela aspereza de uma vida difícil.

Do Souto, lugar com cerca de uma dezena de habitantes, Fernando aponta para o cimo da serra, onde se vê uma enorme coluna de fumo. Olha em seu redor e dispara:” No meio disto tudo [mato e árvores que cercam o lugar onde vive], a gente nunca chega a saber quando há uma vingança. Uma desgraça nunca vem só”, numa alusão aos fogos postos.

Na sua carrinha de caixa aberta, também ela desgastada pelo tempo, estão sete bidões cheios de água, que o Fernando foi buscar, “para o que for preciso”. “Como já estamos escaldados, fui buscar a água. Nestas fases tudo é pouco. E a água da rede escasseia. Sabe, é que para termos aqui água é preciso uma bomba elétrica para a puxar e quando falha a luz ficamos sem água”, explica.

Fernando Ribeiro lamenta que a floresta esteja votada ao abandono e recorda os tempos em que era explorada e aproveitada. “Quando era aproveitada para a resina, as pessoas conheciam os pinheiros quase pelos nomes. Agora não. As pessoas atingiram uma certa idade e já não podem tratar da floresta”, refere.

A terra que o viu nascer hoje tem uma dezena de habitantes e a esmagadora maioria das casas daquele lugar estão vazias. “Já não vivem aqui uma dúzia de pessoas. A maior parte das casas está tudo fechado. Noutros tempos isto era muito povoado”, disse.

Durante mais de meia hora em que a agência Lusa esteve à conversa com o Fernando Ribeiro, não se viu mais nenhuma pessoa no lugar de Souto.

Antes de terminada a conversa, Fernando recordou o ano de 2003, em que no Souto ardeu tudo. E voltou a olhar com desconfiança para a coluna de fumo que parecia estar mais carregada: “Isto é o jogo da vingança”.

O fogo que deflagrou no sábado em Oleiros e alastrou aos concelhos vizinhos de Sertã e Proença-a-Nova, no distrito de Castelo Branco, está a ser hoje combatido por mais de 700 operacionais, apoiados por 14 meios aéreos e oito máquinas de rasto.

O ministro da Administração Interna, Eduardo Cabrito, assegurou “todos os esforços” no incêndio que lavra em Oleiros, Sertã e Proença-a-Nova, distrito de Castelo Branco, com prioridade na proteção das populações, admitindo que a mobilização do dispositivo até terça ou quarta-feira.

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