Empresa de canábis mais valiosa do mundo produz em Portugal e já vê futuro de 100 mil milhões

A Tilray, empresa do sector de canábis cujo valor duplicou desde o início deste mês, está apenas a apenas a dar os primeiros passos no mercado de acções, diz o seu CEO.

A Tilray está interessada no próspero mercado de produtos de consumo que usam ingredientes de marijuana, disse o CEO Brendan Kennedy, numa entrevista, em Nova Iorque, na terça-feira. “Tivemos muitas conversas com muitas empresas”, disse, preferindo não informar detalhes específicos a respeito de possíveis parcerias.

Os comentários do CEO surgem após o investimento estrondoso da Constellation Brands no sector de canábis, na Canopy Growth, a empresa que a Tilray acaba de ultrapassar como maior cotada do sector da canábis. A gigante Coca-Cola também estuda o potencial das bebidas misturadas com CBD — o ingrediente não psicoactivo da marijuana.

Mas Kennedy não está interessado em ser comprado por uma grande empresa de consumo. O que evidencia a euforia em torno deste sector, levando o CEO a afirmar que a sua empresa poderá um dia ostentar uma avaliação de mais de 100 mil milhões de dólares.

“Não quero ser comprado pela AB InBev ou pela Diageo, quero ser como elas”, acrescentou.

Este potencial de crescimento não está relacionada com a legalização nos EUA, assinalou Kennedy, estimando que o número de países que vai autorizar a utilização de marijuana para fins medicinais irá duplicar no espaço de dois anos. Além disso, a Tilray está a equacionar abrir uma cadeia de lojas próprias no Canadá.

A Tilray, que tem sede na Colúmbia Britânica, no Canadá, viu suas acções subirem quase 800% desde que entrou em bolsa, no mês de Julho.

As acções dispararam novamente na terça-feira, chegando a avançar 28%, para um recorde de 153,88 dólares, depois da empresa ter anunciado que tinha recebido autorização nos EUA para importar marijuana medicinal para a Califórnia para um projecto de pesquisa. Na quarta-feira registaram valorizações ainda mais acentuadas, chegaram a subir cerca de 100% para 300 dólares, mas depois corrigiram na sessão posterior, regressando à casa dos 150 dólares.

O valor de mercado da empresa subiu mais do que Kennedy esperava num período de tempo tão curto, mas o CEO não está preocupado com uma possível sobrevalorização. O conhecido “short seller” activista Andrew Left sugeriu que as acções da Tilray estão destinadas a cair e houve pedidos para que a empresa, que vendeu apenas uma pequena percentagem do capital no IPO, venda mais acções.

Kennedy assinalou que o IPO da Tilray ocorreu há apenas dois meses, mas acrescentou que está sempre à procura de formas de levantar capital.

Investimento de 20 milhões em Cantanhede

Há muitas estimativas, mas é certo que este é um sector em crescimento, principalmente na América do Norte. De acordo com um estudo do Hemp Business Journal, citado pela Bloomberg, o mercado de consumidores de CBD deverá atingir os 2,1 mil milhões de dólares em 2020, dez vezes mais do que os 202 milhões de dólares registados em 2015.

Em Portugal, a planta é produzida, por exemplo pela Tilray, e o seu consumo não constitui um crime. No entanto, só é possível comercializar medicamentos com canábis desde o mês passado, altura em que entrou em vigor em Diário da República a alteração aprovada pelo Parlamento. Ou seja, actualmente é possível utilizar produtos à base da planta canábis para fins medicinais, se for autorizado pelo Infarmed.

A empresa canadiana tem um plano de investimento de 20 milhões de euros em Portugal e pretende recrutar até ao final do ano 100 colaboradores para a sua unidade de produção em Cantanhede, distrito de Coimbra.

A Tilray Portugal foi constituída em Março de 2017 e criou a maior plantação de canábis em Portugal, que começou a ser cultivada em Outubro de 2017. O volume de produção deverá superar as 60 toneladas anuais, até final de 2018.

As raízes da Tilray estão na Califórnia, onde está instalada a sua empresa-mãe, a Privateer Holdings. Contudo, os primeiros passos desta empresa dedicada ao cultivo e transformação de canábis para fins medicinais passam pelo Canadá, onde se instalou em 2013. “Há dois anos, decidimos que precisávamos de encontrar uma outra localização no mundo, onde pudéssemos ter uma licença. Comecei a procurar. Portugal chegou à lista dos preferidos entre os países que tinham potencial”, disse o CEO Brendan Kennedy ao Negócios, em Janeiro deste ano.

Clima, enquadramento regulatório, acesso à União Europeia e mão-de-obra disponível foram os motivos que mais pesaram. A maioria da produção portuguesa deverá seguir para a Alemanha, um dos sete países para onde a Tilray vende actualmente. O “campus” de Cantanhede contará com estufas, laboratórios e uma unidade de processamento. A intenção é poder cultivar mais de 100 mil plantas.

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