Preparar Portugal para uma Economia da Água – Tomás Roquette Tenreiro

Preparar Portugal para uma Economia da Água – Tomás Roquette Tenreiro

O que podemos aprender no âmbito da agronomía de regadio à escala da gestão associativa para o contexto Português post-2020? Em período de eleições europeias, cujo futuro do próximo quadro comunitário se discute, é importante definir estratégias de financiamento (e não só) que suportem uma verdadeira economia da água nas zonas mais deficitárias como é o espaço rural mediterrânico, e em particular o sudoeste peninsular Ibérico.

A agricultura Ibérica precisa de água e mostra-se disposta a encarar o futuro da gestão deste recurso sob uma perspectiva económica, centrada em indicadores de performance como é o caso da produtividade da água (€ m-3) ao nível da exploração (ou da parcela), ou de outros indicadores como por exemplo o fornecimento anual relativo de água (ARIS) ‘annual relative irrigation supply’ (volumes fornecidos relativamente às necessidades líquidas de rega) estimados ao nível das associações de regantes.

Existe claramente uma consciencialização por parte das associações de regantes junto do poder político Europeu sobre a importância do investimento com base no aumento da produtividade económica da água e de estratégias que garantam o aumento da eficiência no uso deste recurso sob uma linha de ‘intensificação sustentável’. Por intensificação sustentável entende-se que existe um melhor aproveitamento de recursos ainda que usados em quantidades superiores; tal pode ser definido como ganhos relativos de valor (€) pelo uso adicional desses mesmos recursos (m-3), o que em termos económicos poderíamos entender como uma diminuição dos custos marginais da água; tal implica que no caso de Portugal, dita estratégia deve olhar para as zonas onde encontramos sistemas agrícolas cuja a produtividade se encontra num nível de resposta potencial muito significativo; são estas as zonas onde a ausência ou escassez de regadio nos restringe a produzir apenas com a variabilidade pluviométrica interanual característica do nosso clima, aumentando incertezas, riscos e limitando opções agronómicas. Mover os nossos sistemas no sentido da diminuição dos custos marginais da água depende obviamente de diversas questões que merecem igual atenção: custos energéticos associados (fortemente correlacionados com os sistemas de distribuição e aplicação), nível de cooperação comercial, grau de diferenciação de produto e microeconomias (outros custos de produção, mão de obra, fiscalidade); no entanto, apesar da complexidade do desafio que enfrentamos, acredito que o investimento em obras hidráulicas adicionais capazes de estender a rede nacional de regadios a bacias hidrográficas sub-aproveitadas (e.g. bacia do Tejo) e a ampliação das áreas regadas nas restantes é uma aposta que deve ser encarada como prioritária.

Optimizar indicadores de performance depende mais de iniciativas neste sentido que do financiamento indirecto e dispendioso do discurso apocalíptico de que estamos destinados a deixar morrer o campo à sede. Positivamente parece que vamos, ainda que devagar, começando a dar forma a estas necessidades, olhando novamente para prioridades do Plano Nacional de Regadios e do Programa Nacional para a Coesão Territorial (e.g. Empreendimentos de Fins Múltiplos do Pisão e do Alvito). Esperemos que a acção se concretize e que não se adie uma vez mais a tomada de decisão política.

No entretanto, visando (e desejando) a potencial ampliação do regadio Português, devemos a nível associativo procurar minimizar a dependência do poder burocrático político que conduz à inércia, e tentar estabelecer desde já estratégias capazes de identificar modelos de financiamento e gestão a curto-médio prazo que nos aproximem da ‘economia da água’ que defendemos. Tal não poderá ser feito sem que olhemos primeiro para exemplos bem próximos, como é o caso de Espanha ou da Grécia, com indicadores muito positivos – valores de ARIS compreendidos entre 0.8 e 2 ao nível de diversas comunidades de regantes. Para que se percepcione a importância destes valores, refiro os casos do regadio na região semi-árida Argentina (no triângulo Córdoba, Mendoza e Rosário) e de diversas zonas hortofrutícolas Italianas onde, em latitudes e regimes pluviométricos comparáveis, se observam valores máximos compreendidos entre 5 e 9, respectivamente.

Se um valor de ARIS próximo de 1 significa que se entrega ao regante aproximadamente o volume correspondente às suas necessidades óptimas de rega, é possível identificar tanto Espanha como a Grécia como modelos particularmente interessantes de gestão associativa da água. À partida sobre Espanha haverá pouco a dizer já que se trata de um país pioneiro na UE e no Mundo nestas matérias. No entanto, é de particular interesse estratégico perguntar porquê e, realizando um exercício de ‘benchmarking’ a nível Europeu, olhar para estes casos sob um ponto de vista agronómico. Focando-nos nas condições peninsulares onde as condicionantes sócio-geográficas e agronómicas mais se assemelham, identificamos hoje que os indicadores interessantes que se observam (0.8<ARIS<2), não são unicamente fruto da capacitação hidráulica das regiões (ocorrida maioritariamente durante a segunda metade do século XX) mas resultam também e principalmente da forte aposta diária por parte das associações de regantes no desenvolvimento, uso e transferência de ferramentas emergentes tão diversas como: 1) sistemas de apoio à decisão por telemetria (cada vez mais comuns em sistemas como o da ‘fresa de Huelva’, por exemplo); 2) investigação agronómica de campo aplicada através de parcerias público-privadas em questões tão elementares, e sobre as quais sabemos tão pouco, como as necessidades hídricas de sistemas emergentes (e.g. amendoal super-intensivo e outras culturas frutícolas com densidades superiores a 2000 pl/ha), relação sistema de poda – consumo de água; 3) uso de metodologias de assimilação e análise de dados de satélite da Estação Europeia Espacial (ESA) com alta resolução espacaço-temporal (à escala de dias e de metros) para classificação automatizada de parcelas irrigadas, estimativa de necessidades de rega, detecção de regadios ilegais, etc.; 4) a aposta clara na fruticultura integrada e na ampla transformação de sistemas tradicionais de rega por superfície e aspersão em sistemas localizados e com maior retorno económico pelo valor acrescentado dos produtos comercializados; 5) maximização de redes de distribuição em condutas sob pressão, visando a redução de perdas durante a distribuição de água; 6) desenvolvimento de sistemas de reaproveitamento energético capazes de utilizar excessos de carga hidráulica para bombagem ou outros fins necessários; 7) a aposta clara em estratégias de rega deficitária controlada; 8) melhoramento de plantas para um uso ecofisiológico óptimo da água (kg biomassa/m3 transpirado e optimização do índice de colheita) nas condições edafoclimáticas locais (i.e. ‘precision plant breeding’); 9) uso de modelos fitotécnicos de simulação, calibrados in-situ, como ferramentas de enorme utilidade para a previsão em tempo real de necessidades de rega, permitindo um melhor ajustamento ao longo do ano das dotações entregues e consequentemente uma melhor planificação dos planos de ampliação a longo prazo (optimizando ARIS e o resultado económico dos agricultores). Outras questões como o preço da água, o sistema de cobrança, a estabilidade inter-anual dos volumes entregues e o apoio técnico prestado são igualmente pontos com forte impacto sobre indicadores como ARIS e que nos podem conduzir às metas pretendidas. Estratégias adicionais equivalentes ao ‘Plano Hidrológico Nacional Espanhol’, interrompido por interesses políticos, por questões de disputa entre regiões e pelos ainda limitantes custos de fornecimento (>0.2€ m-3), mas que ainda assim continuam a ser preferíveis às aventuras dessalinizadoras quando desligadas de sistemas associados ao consumo doméstico (>0.65€ m-3) e sobre as quais ainda desperdiçamos a nossa atenção em demasia, são também de interesse quando reflectimos sobre o regadio português num horizonte de 20-30 anos.

Será que em paralelo com as necessidades de investimento público em obras hidráulicas estamos também a considerar a importância de apostar em formação superior e técnica capaz de levar às nossas associações de regantes ferramentas que têm permitido a outros atingir valores óptimos de ARIS? Qual o papel das nossas Escolas na preparação do futuro do mundo rural cuja sobrevivência dependerá de uma verdadeira economia da água? Está o ensino agronómico português preparado para investigar e transmitir conhecimento nestas áreas? Não devia a água ser um tema prioritário nos estudos de pós-graduação em Portugal?

Ficam ideias e questões para debater.

Tomás Roquette Tenreiro

Engº. Agrónomo, investigador no CSIC e PhD-candidate em Hidrologia Agrícola pela Universidade de Córdoba

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