Vivemos um tempo em que a agricultura é tratada como um “fundo de um ecrã”, está sempre presente, mas raramente é olhado. E é aqui que entra o paradoxo de Orwell, quando a linguagem se torna propaganda, a verdade deixa de servir para explicar o mundo e passa a servir para o gerir.
No setor agrícola, isto vê-se todos os dias. Diz-se “valorização do produtor”, mas negoceia-se como se a produção fosse infinita e o risco fosse zero. Diz-se “sustentabilidade”, mas mede-se o sucesso apenas pelo preço mais baixo. Diz-se “soberania alimentar”, mas normaliza-se a dependência de importações como se fosse inevitável. A palavra mantém-se, o sentido é que se esvazia!
Orwell mostrava como o poder não precisa de proibir a realidade, basta apenas basta rebatizá-la. No campo, muitas vezes não se nega a dureza do trabalho agrícola, apenas suaviza-se com termos que a tornam aceitável, “ajustamento”, “competitividade”, “eficiência”, “transição”. Tudo palavras bonitas, que por vezes escondem uma verdade incómoda. Há produtores a trabalhar com margens que não pagam o risco, nem o tempo, nem o território.
E há outro detalhe profundamente orwelliano, o da inversão moral. Aquilo que devia ser óbvio torna-se discutível. O agricultor passa a ser visto como problema (emissões, água, fitofármacos), enquanto o sistema que lhe impõe preços, prazos e regras incompatíveis com a realidade é apresentado como solução. A culpa muda de lugar. E quando a culpa muda de lugar, a conversa fica fácil, mas a justiça fica impossível.
O paradoxo é este, a agricultura é proclamada “essencial”, mas é tratada como descartável. Quando há crise, chamam-lhe setor estratégico, mas quando a crise passa, volta a ser apenas um custo a cortar, uma atividade a “otimizar”, um elo a apertar na cadeia.
Talvez a grande urgência do setor agrícola não seja apenas produzir mais, nem sequer produzir melhor, mas é recuperar o significado das palavras. Porque quando “sustentável” significa “barato”, quando “modernização” significa “endividamento”, quando “apoio” significa “burocracia”, então já não estamos só a discutir agricultura.
Estamos a discutir a verdade. E, como Orwell avisou, quando a verdade é capturada pela linguagem, quem perde não é apenas o agricultor, é a sociedade inteira que, um dia, continuará a dizer que a comida é essencial… sem perceber que a está a tornar impossível.
Fonte: APIC















































