“A conjugação da vontade de crescer, e criar valor acrescentado para as pessoas e empresas, com as preocupações ambientais e climáticas, é o desenvolvimento que defendemos para o país“ – Ministra do Ambiente e Energia, Maria da Graça Carvalho.
“O futuro da nossa agricultura passa precisamente por fileiras de elevado valor acrescentado, como a dos pequenos frutos” – Ministro da Agricultura e Mar, José Manuel Fernandes.
“Os agricultores são os primeiros guardiões da natureza. Vivem dela. Dependem dela. E sabem, melhor do que ninguém, que proteger os recursos naturais é proteger o futuro da agricultura” – Loïc de Oliveira, presidente da Lusomorango.
“A agricultura não é um setor para conversar. É um setor para crescer, para se desenvolver e para dar lucro” – Álvaro Mendonça e Moura, presidente da CAP.
O VIII Colóquio Hortofrutícola, integrado na programação da FACECO – Feira das Atividades Culturais e Económicas do Concelho de Odemira, promovido pela Lusomorango – Organização de Produtores de Pequenos Frutos, em associação com a Universidade Católica Portuguesa, teve como tema “Reconstruir, Produzir, Crescer: Ambição e Sustentabilidade“.
Reunindo representantes do Governo, autarquia, academia, empresas, organizações do setor e produtores de pequenos frutos para debater os principais desafios da agricultura portuguesa, desde a gestão da água e adaptação às alterações climáticas até à competitividade, inovação e políticas públicas necessárias para suportar o crescimento do setor, o encontro foi marcado pela apresentação do Plano de Gestão Ambiental da Lusomorango, desenvolvido no âmbito do seu recentemente aprovado Programa Operacional 2026-2028.
Na abertura do Colóquio, o presidente da Lusomorango, Loïc de Oliveira, afirmou que a agricultura portuguesa enfrenta desafios cada vez mais complexos, exigindo uma resposta conjunta dos produtores, Estado e União Europeia: “O Plano de Gestão Ambiental da Lusomorango é mais uma resposta à necessidade de preservação da biodiversidade, sustentabilidade e aumento da resiliência da atividade“.

Defendeu que os agricultores continuam a investir em conhecimento, tecnologia e prevenção do risco, mas que existem desafios que não podem ser ultrapassados apenas pelo setor produtivo: “Precisamos de políticas públicas que promovam a gestão do risco. Precisamos de rever o sistema de seguros agrícolas. Precisamos de instrumentos que sejam financeiramente acessíveis e que respondam à realidade das produções agrícolas“, defendeu, lamentando que os apoios se tenham revelado “insuficientes, tardios e em muitos casos inexistentes para responder à dimensão das perdas” provocadas pelas intempéries de 2025 e 2026.
Loïc de Oliveira identificou três constrangimentos que condicionam o crescimento da fileira: água, burocracia e pessoas. “É preciso concretizar a Estratégia Água que Une, modernizar o Perímetro de Rega do Mira e garantir as interligações hídricas previstas para reforçar o abastecimento ao Sudoeste Alentejano. Sem água não existe agricultura. E sem agricultura não existe território”. Defendeu uma Administração Pública mais célere, capaz de responder aos investimentos do setor, bem como políticas que garantam habitação, saúde, educação e integração das pessoas que escolhem Portugal para viver e trabalhar.
Recordando os resultados do estudo apresentado na Feira Nacional de Agricultura pela EY-Parthenon sobre o impacto económico da fileira, destacou que, em 2025, os pequenos frutos geraram 1.037 M€ de Valor Acrescentado Bruto, 398 M€ em exportações, mais de 34 mil postos de trabalho e 276 M€ em receita fiscal: “Na Lusomorango acreditamos profundamente que é possível produzir mais e melhor – com menos recursos, com mais conhecimento, e com maior respeito pelo ambiente“.
Plano de Gestão Ambiental pretende posicionar Lusomorango como referência europeia em sustentabilidade
O momento central do VIII Colóquio Hortofrutícola foi a apresentação do Plano de Gestão Ambiental da Lusomorango, um projeto estruturante desenvolvido no âmbito do Programa Operacional 2026-2028, que pretende apoiar os produtores associados na adaptação às crescentes exigências ambientais, regulamentares e de mercado. O plano surge como resposta aos principais desafios que hoje se colocam ao setor dos pequenos frutos, entre os quais a escassez de água, as alterações climáticas, a redução do uso de fitofármacos, a economia circular, a redução das emissões de gases com efeito de estufa e a necessidade de responder às exigências de clientes, consumidores e regulamentação europeia.
Na apresentação do Plano, Bruno Caldeira, Diretor de Desenvolvimento de Negócio da Consulai, explicou que o objetivo passa por disponibilizar aos produtores ferramentas que lhes permitam medir, conhecer e melhorar continuamente o seu desempenho ambiental: “O plano nasce para ajudar os produtores a prepararem-se para uma realidade em que há mais conhecimento, mais medição daquilo que é produzido, mas também para identificar oportunidades de melhoria e de transformação”. O projeto prevê a avaliação integrada da pegada de carbono (ISO 14067), da pegada hídrica (ISO 14046) e da pegada ecológica, permitindo construir uma visão abrangente do desempenho ambiental das produções agrícolas.

Entre os objetivos definidos encontram-se a redução das emissões associadas à produção e logística, a melhoria da eficiência hídrica, a redução da utilização de fitofármacos e fertilizantes, o reforço da resiliência das culturas às alterações climáticas, a promoção da biodiversidade, o incentivo à economia circular e a preparação da Lusomorango para alcançar certificações ambientais internacionalmente reconhecidas. O plano prevê ainda a criação de um Índice de Sustentabilidade, que permitirá consolidar indicadores ambientais, sociais e económicos, funcionando como instrumento de acompanhamento e melhoria contínua.
Bruno Caldeira sublinhou a dimensão coletiva da iniciativa: “Muitos associados sabem o que é um plano de gestão, pois têm um. Aqui, o desafio é ser conjunto“, acrescentando que a grande quantidade de informação produzida será trabalhada e partilhada com produtores e outras entidades que necessitam dela, criando uma importante economia de escala.
Conhecimento, financiamento e mercado caminham juntos
A apresentação do Plano de Gestão Ambiental foi seguida de uma mesa-redonda que trouxe a debate Filipa Saldanha, diretora do Departamento de Sustentabilidade da Caixa Crédito Agrícola, e Eduardo Bremm, diretor de Operações Ibéria da Driscoll’s.
Filipa Saldanha explicou que o financiamento sustentável permite responder simultaneamente à redução do risco, à transição para modelos produtivos mais inovadores e à criação de novas oportunidades de financiamento.
Eduardo Bremm recordou que as exigências dos consumidores e dos retalhistas são hoje significativamente superiores, tornando a sustentabilidade um fator de competitividade: “Os consumidores estão mais exigentes e os retalhistas enfrentam metas apertadas de redução da pegada ecológica“. E deixou uma mensagem clara: “Sem certificações simplesmente não é possível“.
Governo reforça compromisso com água, sustentabilidade e competitividade
Na mensagem por vídeo dirigida ao Colóquio, o Ministro da Agricultura e Mar, José Manuel Fernandes, destacou a evolução da fileira dos pequenos frutos na última década, recordando que a produção nacional triplicou entre 2015 e 2025, atingindo 91,4 mil toneladas.
O Ministro referiu que o setor gerou, em 2025, mais de mil M€ de Valor Acrescentado Bruto, sustenta mais de 34 mil empregos e representa quase 400 M€ de exportações, prevendo-se que o impacto económico ultrapasse os 1.400 M€ em 2026: “O futuro da nossa agricultura passa precisamente por fileiras de elevado valor acrescentado, como a dos pequenos frutos, capazes de conciliar competitividade económica, responsabilidade ambiental e desenvolvimento regional“. Destacou ainda a Estratégia Nacional Água que Une, a modernização dos aproveitamentos hidroagrícolas, a gestão sustentável da água no Mira e os apoios disponibilizados para responder aos prejuízos provocados pelos fenómenos meteorológicos extremos.
A Ministra do Ambiente e Energia, Maria da Graça Carvalho, também por vídeo, enalteceu o percurso da fileira dos pequenos frutos, salientando que o crescimento deve ser acompanhado por uma crescente preocupação com a sustentabilidade. A governante destacou os avanços alcançados ao nível da eficiência hídrica e referiu que a Estratégia Nacional Água que Une assenta em três princípios fundamentais: reduzir, reutilizar e combater o desperdício de água.
Recordou ainda que o Centro de Investigação para a Sustentabilidade, em Odemira, criado em 2023 numa parceria entre Lusomorango, INIAV, Driscoll’s e Maravilha Farms, tem produzido resultados promissores na eficiência hídrica da cultura da framboesa, defendendo que o desenvolvimento do setor deve assentar na conjugação entre crescimento económico e sustentabilidade ambiental.
Água, território e políticas públicas marcaram os debates
Ao longo da manhã, os diferentes painéis e intervenções reforçaram a necessidade de criar condições para que o setor continue a crescer de forma sustentável.
O presidente da Câmara Municipal de Odemira, Hélder Guerreiro, defendeu que a revisão das estimativas populacionais do concelho obriga o Estado a reforçar o investimento em habitação, saúde, educação e acessibilidades, enquanto o presidente da CCDR Alentejo, Ricardo Pinheiro, apelou a um “lobbyg justo“, que permita adequar os investimentos públicos à realidade do território.
Na intervenção de abertura dos trabalhos da manhã, Miguel Morgado, professor da Universidade Católica Portuguesa, lançou uma reflexão sobre a necessidade de a Europa recuperar ambição económica: “Na Europa só se fala de resiliência e nunca de crescimento e desenvolvimento“, afirmou, defendendo uma mudança da cultura pública que permita voltar a colocar o crescimento económico no centro das políticas europeias.
No painel dedicado ao impacto dos choques climáticos, Carlos Vicente (Vitacress), Helena Cortes Cavaco (CCDR Alentejo), Luís Souto Barreiros (IFAP) e Miguel Morgado defenderam uma agricultura mais preparada para responder às alterações climáticas, assente em tecnologia, simplificação administrativa, seguros mais flexíveis e instrumentos públicos mais ágeis.

Na reflexão sobre competitividade internacional, Gonçalo Santos Andrade, presidente da Portugal Fresh, alertou que, mantendo-se a tendência atual, a União Europeia poderá registar, pela primeira vez, uma balança comercial agroalimentar negativa até ao final da década, defendendo maior investimento em água, inovação e reciprocidade nas regras comerciais internacionais.
A estratégia Água que Une voltou a assumir destaque com a intervenção de Macário Correia, presidente da AdP AQUA, que apresentou os investimentos previstos para o Aproveitamento Hidroagrícola do Mira, incluindo a modernização do sistema de rega, novas captações e reforço da eficiência hídrica.

O encerramento esteve a cargo do presidente da CAP, Álvaro Mendonça e Moura, que defendeu que a agricultura deve ser encarada como um setor de crescimento económico: “Não podemos ter um país com a ambição de crescer no setor industrial e no comércio, mas em que a agricultura é um setor para conversar. É um setor para crescer. Para se desenvolver. Para dar lucro“. Mendonça e Moura voltou a sublinhar que água, mão de obra, habitação, promoção e capacidade de resposta das instituições públicas serão determinantes para assegurar o futuro da agricultura portuguesa.

Ao longo das suas oito edições, o Colóquio Hortofrutícola da Lusomorango consolidou-se como um dos principais fóruns nacionais de reflexão sobre o futuro da agricultura portuguesa. O evento reúne anualmente responsáveis políticos, especialistas, empresários e representantes do setor para discutir os grandes desafios e oportunidades da agricultura, com o objetivo de contribuir para a definição de soluções que reforcem a competitividade, a ambição e a sustentabilidade da agricultura nacional, promovendo um diálogo aberto entre conhecimento científico, políticas públicas e experiência empresarial.
Fonte: Lusomorango












































