O projeto “Nossa Terra, Nosso Futuro”, financiado pela União Europeia e pela Cooperação Portuguesa, está a transformar as fileiras agrícolas de São Tomé e Príncipe. Atuando como uma ponte estratégica de transição, a iniciativa tem na assistência técnica e na capacitação contínua os seus principais pilares para modernizar as exportações e garantir o desenvolvimento sustentável das comunidades rurais.
A garantia de um setor agrícola competitivo e resiliente passa, inevitavelmente, pela transferência eficaz de conhecimento. Em São Tomé e Príncipe, o projeto “Nossa Terra, Nosso Futuro” materializa este conceito através de uma assistência técnica contínua e de proximidade aos produtores. À semelhança dos princípios de cocriação e partilha de saberes que norteiam o Sistema de Conhecimento e Inovação Agrícola (AKIS) europeu e nacional, o projeto estabeleceu uma forte rede de ligação entre técnicos, cooperativas e agricultores.
Esta dinâmica de proximidade permite que os produtores esclareçam dúvidas no terreno, adaptem práticas agrícolas em tempo real e apliquem novas técnicas com maior segurança. Como destaca um dos técnicos do projeto, “a importância da assistência técnica tem de ser uma coisa contínua”, salientando que, graças a esta abordagem, “já se nota os agricultores a fazerem com a sua própria mão” operações cruciais como a piquetagem, organização de plantas e gestão de viveiros.
Quatro Eixos de Intervenção e Resultados Práticos
O projeto atua em quatro áreas fundamentais: a consolidação da governança das associações, a estruturação das fileiras agrícolas de exportação, a inserção nos mercados nacionais e internacionais, e a introdução do agroturismo como ferramenta de diversificação de rendimentos.
Entre as principais conquistas operacionais está a obtenção da certificação HACCP (Análise de Perigos e Pontos Críticos de Controlo) nas unidades de processamento. Esta certificação não só garante ao consumidor um produto isento de riscos de contaminação, como valoriza o produto são-tomense para exportação, permitindo a exploração de melhores preços de mercado.
No que respeita à melhoria genética e produtiva, o projeto assegurou a receção de 14 mil sementes de cacau do Gana (de sete variedades distintas), instalando dois viveiros para a criação de um banco de germoplasma. Ao nível da fileira do coco, foi garantido o apoio ao aumento da produção, com mais de 100 mil unidades comercializadas em 2025.
Paralelamente, estão em curso os trabalhos para o registo internacional da Indicação Geográfica Protegida (IGP) do cacau de São Tomé junto da Comissão Europeia, um passo decisivo para elevar o estatuto de propriedade intelectual deste produto histórico.
Inovação, Agroturismo e Sustentabilidade Social
A inovação rural foi também estimulada através do lançamento da Rota do Cacau, que integra produtores, comunidades e guias locais, gerando rendimentos complementares, especialmente nas épocas sem colheita. Adicionalmente, foi reforçado o apoio à produção biológica, através da doação de insumos, equipamentos para extração de óleos essenciais e certificação pelo Sistema de Garantia Participativa (SPG) para novos transformadores locais.
Na dimensão social, a capacitação incidiu na promoção da igualdade de género, no associativismo e na literacia financeira. As comunidades rurais foram envolvidas na criação de comités específicos, onde os próprios formandos se tornaram difusores de informação. “Não se pode pensar num desenvolvimento sem formar os agricultores. A formação ajuda-me a ganhar mais conhecimento de como ser líder democrático, ouvir os membros e não tomar decisões sozinho”, testemunha um dos agricultores associados.
Os resultados alcançados demonstram que as mudanças estruturais no mundo rural exigem tempo e um acompanhamento estável. Para evitar a interrupção destes processos de desenvolvimento, o Ministério da Agricultura de São Tomé e Príncipe e os parceiros internacionais perspetivam agora a continuidade destas dinâmicas através da futura fase do programa (PAFI 2). O objetivo é consolidar a confiança gerada junto dos beneficiários e garantir que o investimento na transferência de conhecimento continue a dar frutos nas próximas décadas.
O artigo foi publicado originalmente em Rede Rural Nacional.












































