Como comer sem destruir o ambiente

Os cidadãos de todo o mundo estão a questionar até que ponto as decisões individuais têm impacto na sobrevivência futura do planeta. O jornal “New York Times” elaborou um detalhado guia, concebido para o modo de vida dos norte-americanos, para que se perceba o efeito das escolhas alimentares de cada um no agravamento das alterações climáticas. Com base nesta ideia, e com o apoio de Pedro Graça, professor de Ciências da Nutrição e Alimentação da Universidade do Porto e ex-diretor do Programa Nacional para a Alimentação Saudável da DGS, descodificamos o rasto ambiental do consumo dos portugueses. A questão nunca será pacífica, num país (e num mundo) onde crescem simultaneamente os apoiantes do vegetarianismo e os críticos de radicalismos contra a carne de vaca.

As preferências de consumo de um país pequeno como Portugal interferem no clima?
Sim, porque as alterações climáticas por ação humana são provocadas com maior intensidade por países com os padrões de consumo de Portugal, em que há, por exemplo, um excesso de consumo de carne. A responsabilidade individual e do país é elevada, independentemente do número de habitantes.

Quais são as características que tornam uma alimentação amiga do ambiente?
Comer mais produtos locais do que importados, porque têm um transporte menor e por isso uma pegada carbónica inferior, de produção biológica e não intensiva, e sem embalagens. Privilegiar o peixe em detrimento da carne, principalmente se for de vaca. Para que uma vaca produza um quilo de proteína, tem de consumir entre 10 a 16 quilos de cereais e 1500 litros de água, a que se juntam os gases de efeito estufa da flatulência do gado.

Tendo em conta a alimentação habitual dos portugueses, o que tem maior impacto negativo?
Este levantamento não está feito. Contudo, podemos comparar o que é consumido per capita, em média, com as recomendações para a população nacional. Segundo o último Inquérito Alimentar, os portugueses consomem mais 12% do grupo “carne, pescado e ovos” do que o proposto pela Roda da Alimentação. Ou seja, esta é a categoria onde consumimos além das necessidades. Os portugueses consomem também com regularidade um conjunto significativo de alimentos não incluídos na Roda de Alimentos, como doces, bolos e bolachas, snacks salgados ou refrigerantes, que não contribuem para uma alimentação saudável. A sua retirada da alimentação diária tem vantagens para a saúde e para o ambiente.

A opção por alimentos portugueses reduz a pegada ecológica?
Muitas vezes sim, mas não necessariamente. Em princípio, estes produtos viajam menos até chegar à nossa mesa, causando menor impacto ambiental. Contudo, é preciso acrescentar à equação o tipo de transporte, o modo de produção (biológica ou intensiva), a embalagem, se são sazonais e de origem vegetal, fatores que contribuem para a “poupança ambiental”. O azeite produzido de forma intensiva no Alentejo é um exemplo, porque embora seja nacional, não favorece a proteção ambiental.

Os portugueses consomem muito peixe. Isso reduz a pegada ecológica do país?
Infelizmente, não. Somos dos maiores consumidores de peixe da Europa, mas muito do pescado não é apanhado em águas nacionais. Assim, escolher espécies que habitam na nossa costa, que são mais abundantes e de produção sustentada, ajuda a defender o ambiente.

Há alguma receita tradicional que seja exemplo de uma alimentação amiga do ambiente?
A tradição mediterrânica de incluir proteína vegetal através de misturas de leguminosas, cereais e ovos, que permitem reduzir o consumo de carne, são exemplos de boas práticas ambientais. Arroz de feijão, arroz de grão, ervilhas com ovos e pão são excelentes exemplos.

Como é que a comida contribui para o aquecimento global?
O sistema alimentar mundial é responsável por um quarto da geração de gases de efeito de estufa. Sobretudo quando as florestas são destruídas e ocupadas por plantações para alimentar o gado; quando vacas, cabras e ovelhas digerem a sua alimentação e emitem gás metano ou quando são criadas grandes plantações de arroz. Também com a utilização de combustíveis fósseis para movimentar a indústria, produzir fertilizantes e permitir a circulação dos transportes.

Os níveis de desperdício alimentar são preocupantes?
Deita-se fora um terço do que se produz no mundo. O que nos deveria preocupar também é quando o nosso organismo ingere mais calorias do que gasta (o excesso de peso é indicador deste desequilíbrio).

Mas, afinal, uma única pessoa pode fazer a diferença?
Individualmente, a contribuição é mínima. Este tipo de problemas exige soluções e políticas em larga escala e a alimentação não é sequer o principal contribuinte para o aquecimento global, papel desempenhado pela produção energética. Entretanto, se muitas pessoas decidirem alterar as suas dietas coletivamente, a mudança poderá começar a crescer como uma onda. E os cientistas já alertaram que se os grandes consumidores mundiais de carne reduzirem os níveis de consumo, a contribuição será relevante e positiva.

A forma como as vacas são criadas é decisiva?
Sim. A carne brasileira, por exemplo, tem dez vezes mais impacto no ambiente do que a produzida nos Estados Unidos, porque no Brasil são destruídas florestas para serem ocupadas por pasto para o gado.

As galinhas são menos nocivas ao ambiente?
Sim, o impacto é menor. E o processo de alimentação das aves é muito mais eficiente do que o do gado, embora as criações intensivas poluam as águas.

Quais os alimentos com maior impacto ambiental?
A carne, particularmente de vaca, e os laticínios. O gado é responsável pela emissão da mesma quantidade de gases de efeito de estufa que os automóveis, camiões, aviões e navios somados.

O consumo de queijo é mais nocivo para o ambiente do que o das aves?
Depende do tipo de queijo. Os mais nocivos são, a título de exemplo, a mozzarella ou o cheddar. Em geral, quem decide ser vegetariano e substituir os frangos pelo queijo não irá reduzir muito a pegada ecológica.

O artigo foi publicado originalmente em Expresso.

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