Gonçalo da Câmara Pereira: “António Costa está a fazer com o país o mesmo que fez com a Câmara de Lisboa”

Gonçalo da Câmara Pereira: “António Costa está a fazer com o país o mesmo que fez com a Câmara de Lisboa”

Tinha 17 anos na Primavera Marcelista, quando apareceu em sua casa, em Évora, Francisco Sousa Tavares, jornalista e político, Barrilaro Ruas, político e historiador, e João Camossa, ativista monárquico e opositor ao regime fascista, a convidar o seu pai para ser candidato pela Convergência Monárquica, em Évora. O pai aceitou, mas, três dias depois, entra a PIDE por ali fora, “um senhor muito simpático”, e diz que, por ser inspetor do trabalho, Nuno Maria de Figueiredo Cabral da Câmara Pereira não podia ser candidato.

Gonçalo da Câmara Pereira não esqueceu esta cena e lembra-se de, ainda miúdo, ajudar a fazer a Convergência Monárquica “de toda a maneira”. No 25 de Abril de 1974 estava na tropa, ia casar, “agarrei na minha mulher e inscrevemo-nos no Partido Popular Monárquico”. Era o mês de maio e nascia o partido fundado pelo arquitecto Gonçalo Ribeiro Telles. “Fui sempre militante do PPM e faço parte dos órgãos do partido há mais de 30 anos”, conta.

Agora, como então, continua a defender uma agricultura sustentável – “na altura em que foi criado o partido 42% da população vivia da agricultura, actualmente são só 2%” – e a reconversão dos solos, que estão esgotados.

Largou a vindima, na propriedade de Arronches, onde produz o Terra de Porcos, para vir a Lisboa falar com o SAPO 24. A conversa começou pelo debate dos pequenos partidos, que terá lugar na próxima segunda-feira, na RTP, e pelo facto de ser Rui Tavares, e não Joacine Katar Moreira, a representar o Livre. E foi parar a António Costa, com quem Gonçalo da Câmara Pereira teve vários desaguisados em assembleias gerais da Câmara Municipal de Lisboa: “É uma figura parda”, afirma.

Portugal está hoje melhor ou pior do que há quatro anos?

Estamos pior. Vivemos numa sociedade falsa, andamos a dizer que está tudo bem e está tudo mal. Ainda ontem falava no parque automóvel: vê carros novos por aí? Antes viam-se, até Porsches, marcas deste género, mas já não há.

Estamos a caminho de uma Venezuela, não ponha dúvida

Os números da ACAP [Associação do Comércio Automóvel de Portugal] dizem que a venda de automóveis caiu 5% até Agosto em relação a 2018, não sei se por causa dos Porsches.

Estamos a caminho de uma Venezuela, não ponha dúvida. Os indicados apontam todos para isso. Há quanto tempo não vê o primeiro-ministro a inaugurar uma fábrica? Investimento público não há, porque ele não tem [dinheiro]. Investimento privado também não. Os impostos triplicaram, as coimas aumentaram… E continuamos todos na boa.

Que coimas é que aumentaram?

As coimas de estacionamento, por exemplo. Só em Lisboa, a EMEL [Empresa Municipal de Mobilidade e Estacionamento de Lisboa] é uma coisa surreal. A Câmara Municipal de Lisboa anda a gastar alegremente. Em quê? Já viu se há habitação social? Mentira. Continuam a vender os prédios, agora até vão vender o Forte de Salazar [Sto. António da Barra], não é? Ele fez isso nos dois anos que esteve à frente da CML e a Câmara também piorou. Quem resolveu o problema da Câmara não foi António Costa, foi Passos Coelho, quando comprou terrenos de Figo Maduro e resolveu o problema de tesouraria da câmara. Mas a câmara agora tem mais impostos: as dormidas são pagas – venho de Évora e tenho de pagar um euro para a CML, não são só os turistas – aumentou a EMEL na cidade, mas não resolveu o  problema das finanças, a dívida triplicou. António Costa está a fazer com o país o mesmo que fez com a câmara de Lisboa.

Quem resolveu o problema da Câmara não foi António Costa, foi Passos Coelho, quando comprou terrenos de Figo Maduro e resolveu o problema de tesouraria da câmara

Como explica as sondagens, que dão vitória a Costa e, talvez, a maioria?

Quando não há contraditório é o que acontece. António Costa é uma figura parda, foge às entrevistas. Mas está sempre a sorrir, é muito simpático. Também a Beatriz Costa era muito simpática, mas não servia para gerir. Pelos vistos toda a gente gosta do senhor Costa, mas aquilo é mentira, ele é um desastre. O Serviço Nacional de Saúde está como está – ele diz que agora vai solucionar. Solucionar como, se foi ele que deu cabo dele? Se em quatro anos não resolveu, só piorou, não vejo como vai fazer diferente agora. Os enfermeiros fazem greve, manda a PIDE ao sindicato dos enfermeiros; os motoristas fazem greve, saem notícias a dizer que o outro [Pardal Henriques] é do pior… O Estado é mau gestor, o Estado sempre foi mau gestor das suas coisas. Herdámos um Estado salazarista e mantivemo-lo, Salazar criou esta ideia de que o Estado é protetor. Não saímos da cepa torta. A economia tem de ser liberalizada, porque é que as pessoas não hão de poder escolher a escola dos filhos? Porque é que o Estado tem de controlar as mentes? Se o Estado sabe que cada estudante custa 500 euros, por exemplo, tanto faz agarrar nesse dinheiro e dá-lo a uma escola pública como a uma escola privada. Mas estamos a formatar as pessoas, não há abertura, está tudo fechado. O ensino não é ler e escrever, é pensar. Mas o Estado é que controla, é que dá as indicações de estudo, os programas.

Os enfermeiros fazem greve, manda a PIDE ao sindicato dos enfermeiros; os motoristas fazem greve, saem notícias a dizer que o outro [Pardal Henriques] é do pior

O PPM concorreu às europeias coligado com o Chega. O que mudou?

Com o Chega aconteceu uma coisa: quando vimos que havia perseguição, que o programa deles não era exatamente o que pensávamos… Começaram a dizer éramos da extrema-direita. Não somos. Portugal é o único país da Europa que tem um governo de extrema-esquerda há quatro anos. Aliás, chegámos ao ponto de ter Carlos César [líder da bancada parlamentar do PS] a dizer que se ganhar as eleições a primeira coisa que faz é pôr a RTP debaixo do governo. Li num jornal. Se fosse outro a dizer isto estava feito num oito.

Sempre fomos um pouco apoiantes de Santana Lopes

Voltemos às coligações. O PPM também quis coligar-se com o Aliança…

Fizemos uma proposta a Santana Lopes, mas não se concretizou. Quando foi para as europeias, ele achou que o Aliança tinha de concorrer sozinho, para mostrar o que valia. E nós achámos muito bem. Sempre fomos um pouco apoiantes de Santana Lopes, principalmente quando ele foi injustiçado, quando pela primeira vez num país democrático um governo com maioria absoluta foi demitido pelo presidente da República. O Costa também não foi eleito. Em Portugal votamos nos partidos, não votamos nas pessoas. Fomos dos primeiros partidos a propor círculos uninominais, logo em 1975, que a primeira reforma da Constituição não permitiu.

E já concorreu coligado com o CDS. Não voltaram a tentar?

Assunção Cristas não quis. O PPM faz alianças com outros partidos, não tem problema nenhum. Já fizemos várias alianças com o CDS, principalmente nas autárquicas. As listas do PPM têm sempre muitos independentes e concorremos aos 22 círculos eleitorais.

créditos: Rodrigo Mendes | MadreMedia

Os resultados do PPM têm vindo a piorar: 0,28% legislativas de 2015, 0,27% nas de 2011, mas tinham tido mais de 15 mil votos e perderam cerca de mil votos.

Nunca tivemos muitos votos, mesmo no tempo de Ribeiro Telles e para a Assembleia Constituinte de 1975, nunca passámos dos 30 mil votos [32.526].

Como sobrevive um partido monárquico numa república?

Não é fácil, e somos muito castigados por ser monárquicos. Se fossemos simplesmente Partido Popular tínhamos muito mais votos. Temos este complexo, são 100 anos a dizer mal da monarquia. Ainda se fala na monarquia absolutista, quando a monarquia absolutista acabou… Achamos que com uma monarquia os governos podiam mudar e sociedade manter-se-ia estável.

Por que motivo se mantém o partido?

É teimosia.

Vivem de quê?

Cada um faz por si, quase ninguém paga as quotas. E quando é preciso, juntamo-nos todos e vamos pagando rendas; hoje és tu, amanhã é outro.

Quais são as principais dificuldades que sente um partido pequeno?

Pois, esta democracia funciona de uma forma um pouco estranha. Quando os jornalistas decidem escolher critérios editoriais acima da própria Constituição, que diz que todos são iguais perante a lei…

Sobre cobertura jornalística das eleições, o que a lei que diz é que é obrigatório ouvir os partidos com assento parlamentar.

E quem é fez essa lei? Os partidos, a lei foi aprovada pela Assembleia da República e pelos partidos que lá estão instalados. E os partidos que lá estão já deixaram de ser democráticos há muito tempo. O que critico é a lei, que faz partidos de primeira e partidos de segunda linha. E em vez de entrarmos na pré-campanha, só entramos na campanha, que é 15 dias antes das eleições, quando as pessoas já têm a cabeça feita. Não se ganham eleições com 15 dias de campanha. Quem se habituou a não votar, não vota, chame-lhes a atenção que chamar, e os indecisos são uma percentagem muito pequena. As minhas filhas votam, que eu telefono-lhes.

Perguntas à queima-roupa

O que fazem ou faziam os seus pais?

A minha mãe, com oito filhos, não podia fazer muito mais do que ser doméstica e mãe a tempo inteiro. E o meu pai era inspetor da Inspeção do Trabalho.

Quem são os seus amigos?

A gente tem os amigos de criança, que ficam para toda a vida. Estou anos e anos sem os ver, mas sei que estão lá. Ao longo da vida vamos fazendo amigos e perdendo amigos, os outros. Gosto de criar amizades.

Quem foi o pior primeiro-ministro de todos os tempos?

[Suspira] Se eu falar de Sócrates, que devia estar de cana – até hoje ainda não percebo porque é que não está… Mais o amigo Costa – para mim tanto é ladrão o que rouba como o que fica à porta…

Qual o seu maior medo?

Chegar a casa e não ter lá ninguém.

Qual o seu maior defeito?

Ser avariado.

Quem é a pessoa que mais admira?

Talvez o Papa.

Qual a sua maior qualidade?

Acho que não tenho qualidades, só tenho defeitos [ri]. Qualidades devo ter muito poucas.

Qual a maior extravagância que já fez?

Não me lembro de nenhuma, assim, estranha.

Qual a pior profissão do mundo?

É ser político.

Se fosse um animal, que animal seria?

[Pensa] O Carlos Alberto Vidal [conhecido como Avô Cantigas] chamou-me urso, escreveu uma canção para mim a dizer que eu era um urso… Se calhar.

Qual a virtude mais sobrevalorizada?

Seriedade.

Quem não merece uma segunda oportunidade?

Os políticos.

Quem foi o melhor presidente de sempre?

Não conheço nenhum. Mas acho que talvez o primeiro, Manuel de Arriaga. Talvez fosse a seriedade em pessoa.

Se fosse uma personagem de ficção, que personagem seria?

Gostava de ser o Super-Homem.

Que traço de perfil obrigatório tem de ter alguém para trabalhar consigo?

Ser uma pessoa divertida, talvez.

Qual o seu filme de eleição?

Talvez “A Canção de Lisboa”.

O que o faz perder a cabeça?

A estupidez.

O que o deixa feliz?

Todas as pessoas alegres à minha volta, deixa-me feliz.

Um adjetivo para Marcelo Rebelo de Sousa?

O palavroso.

Como é que gostaria de ser lembrado?

Como uma pessoa… normal.

Com quem nunca faria uma aliança?

Com o Costa.

Descreva a última vez que se irritou.

Foi com um cão que me mordeu. Irritei-me e preguei-lhe duas bofetadas.

Tem uma comida de conforto ou de consolo? Qual?

Um bife com batatas fritas.

Se fosse primeiro-ministro, qual a sua prioridade – o que mudaria imediatamente quando chegasse ao governo?

A lei anti-corrupção.

A que político compraria um carro em segunda mão?

A nenhum. A nenhum, não confio em nenhum.

Por que motivo o PPM e o restantes partidos não conseguem convencer os abstencionistas a votar? Há 25 partidos, nenhum tem uma proposta alternativa credível?

Porque as pessoas estão habituadas a votar, mas é no Sporting e no Benfica. Só vão aos jogos do Sporting e do Benfica. Porque é que o Famalicão não consegue ganhar o campeonato?

Está em primeiro, pode conseguir.

Pois, está em primeiro, mas não vai ganhar o campeonato.

Qual é o limite para se dizer que isto assim não dá mais, é preciso alterar o sistema?

O voto de protesto devia contar. Se voto em branco, estou a dizer que não quero o que existe. Se o voto em branco contasse como uma cadeira vazia, queria ver quantos deputados faltariam na Assembleia da República. Tem de se fazer uma reforma da Assembleia da República e, como disse, o PPM é a favor dos círculos uninominais.

Somos anti-marxistas, anti-trotskistas, anti-fascistas, anti tudo o que possa pensar

O defende o Partido Popular Monárquico?

Somos anti-marxistas, anti-trotskistas, anti-fascistas, anti tudo o que possa pensar. Somos ecologistas. Somos pela natureza e pelo meio ambiente. O PPM é um partido ecologista. É, aliás, o primeiro partido ecologista. [Gonçalo] Ribeiro Telles saiu do PPM para fundar o MPT. Ou por outra, não saiu, porque nunca foi militante do MPT. Fundou o MPT, ajudou a formar o partido, mas nunca foi militante, é sócio honorário. Só há dois anos é que os filhos de Ribeiro Telles retiraram a quota dele do PPM: foram lá e cortaram. Mas conseguimos passar a nossa mensagem ecológica e, hoje em dia, todos os partidos são ecologistas, dizem. Quando, em 1974, falávamos de ecologia, toda a gente olhava para nós: “Mas o que é isto?!” Quando entrámos na AD [Aliança Democrática] e fizemos o Ministério da Qualidade de Vida, todos torceram o nariz. Hoje tudo fala nisto.

Quando entrámos na AD [Aliança Democrática] e fizemos o Ministério da Qualidade de Vida, todos torceram o nariz. Hoje tudo fala nisto

O que significa, exactamente, ser um partido ecologista?

Significa perceber a importância dos solos, por exemplo. E isto tem a ver com agricultura, com os incêndios, com desertificação. Por exemplo, o eucalipto e o pinheiro são espécies invasoras, mas não se vê nenhum partido desses que se dizem ambientalistas ou ecologistas falar nisto. O eucalipto é uma planta vinda da Austrália, o pinheiro também veio de fora, dos países nórdicos, serviu para fazerem frente às areias que invadiam os terrenos agrícolas na altura de D. Dinis, e fez-se o pinhal de Leiria e o pinhal de Moledo, Caminha. Nos anos 1970 começou-se a usar o pinheiro para madeira, a fazer florestação, e nos anos 70/80, com a liberalização, plantou-se também eucalipto. Estas espécies, além de invasoras, não deixam passar nutrientes, esgotam os solos. Ao nível da política agrícola esquece-se o mais importante, que é a reconversão de solos. Os solos estão esgotados. Outra: quando se quer fazer uma estrada, a primeira coisa que tem de se fazer é um estudo de impacto ambiental. E quem é que se contrata? Uma firma de amigos. Veja o que aconteceu com o aeroporto do Montijo, quando todos sabem que os terrenos fazem parte da Reserva Natural do Estuário do Tejo. O problema é que os grandes partidos, os partidos do arco da governação, mandam fazer estudos aos amigos. O Partido Socialista, então, encomenda os estudos de impacto ambiental sempre aos mesmos. Vieram muitos fundos comunitários para Portugal, mas não foi investir na agricultura, na reconversão de solos. Foi só para alguns, porque o investimento não é dinheiro para comprar um automovelzinho, um jipezinho, é para o agros, para a produtividade do solo. Para aí é que deviam ir os fundos.

créditos: Rodrigo Mendes | MadreMedia

O PPM é um partido europeísta?

Somos europeístas, mas também somos atlânticos. Gostava de perguntar, porque ainda não percebi exatamente, porque é que o Reino Unido quer sair da União Europeia. Os alemães começaram a entrar em mercados que eram dos ingleses. Os ingleses perderam mercados como a Austrália, a Nova Zelândia e outros do Pacífico. A Alemanha está a comer os mercados tradicionais ingleses. E Portugal está a perder também, em troca do pagamento das auto-estradas entregámos milhas do nosso mar. Temos a maior plataforma continental, mas não nos serve para nada. Uma das coisas que devíamos fazer era retomar o nosso mar. A mim não me faz confusão nenhuma desenvolver os PALOP. E eles querem, a Europa é que não nos deixa. Imagine se em Africa começam a fazer produção de gado vacum… Lá vão as explorações dos grandes países da Europa à vida, e isso não lhes interessa. Lá se vai a Alemanha, a França, a Holanda. Temos de começar a olhar para estes ambientalistas e a pensar de onde é que eles vêm, porque estão todos formatados.

Mas meteram-nos na CEE sem nos perguntar nada – é como a regionalização que agora está no programa do Costa: não nos perguntaram nada, não se debate a regionalização, está no programa do PS e vai acontecer, se ele ganhar.

Este Partido Socialista não presta, é ditatorial e falseia a democracia

É a favor de um referendo?

Sou a favor dos referendos, o que não sou é a favor das vigarices nos referendos. A história do referendo sobre o aborto é, para mim, escandalosa. Ganhou o não, “ah, não tinha 50%, não vale”. Um ano depois faz-se outro referendo, ganha o sim, e já vale. É isto que temos de conter, este socialismo. Este Partido Socialista não presta, é ditatorial e falseia a democracia.

Como olha para o presidente da República e para a relação que tem com o governo de António Costa??

Sempre critiquei os presidente da República, falam de mais. Já falei de Jorge Sampaio e da campanha permanente orquestrada por si, a dizer que o primeiro-ministro era tontinho e incompetente. Depois disso, é normal que Santana Lopes tenha perdido as eleições.

E sobre Marcelo Rebelo de Sousa, o que diz?

Os presidentes deviam estar calados e a cortar fitinhas, porque para governar votamos nos governos. O presidente tem de trazer estabilidade e defender a Constituição. Quando não está de acordo com alguma coisa, manda para o Constitucional. Aliás, este Tribunal Constitucional tem de acabar, porque já vem do Conselho da Revolução [aparece com a extinção do Conselho da Revolução, em 1982]. Os juízes deviam ser nomeados por pares e não pelo governo, pela Assembleia da República [têm de ser aprovados por 2/3 do Parlamento]. Mas não, vêm pelo olho da pirâmide para zelar pela democracia. Nada disso.

O que acha que aconteceu à direita portuguesa, o que está a acabar com ela?

É que a direita sempre jogou à esquerda, tem complexos de ser de direita. E está órfã. O nosso presidente da República é uma pessoa muito dúbia, é muito palavroso, muito fotogénico, não dá respostas à direita, faz tudo com a esquerda, e é tudo muito confuso. A sociedade civil fica desequilibrada. A Bélgica esteve sem governo durante meses e aguentou, e durante 40 anos teve um governo que governou com 12% dos votos, numa altura em a abstenção era altíssima, 70%. Tudo porque tinham o rei, que lhes dava estabilidade.

Disse que estava a meio das vindimas. Onde?

Estou. Numa propriedade em Arronches, no distrito de Portalegre, onde tenho oito hectares de vinha.

E a vindima está a ser boa?

Este ano temos metade da produção, mas o vinho é bom.

Que vinho é?

Tinto, “Terra de Porcos”, que é como antes chamavam a Arronches. Hoje já ninguém leva isso a mal e faz-se humor. Mas acabaram com a agricultura em Portugal, com a agravante de esta florestação ser uma miséria. E, já que estamos a falar do interior, é por isso que cada vez há menos população no interior…

Por isso o quê?

Repare, uma das coisas que correu bem foi a autonomia da Madeira e dos Açores. A qualidade de vida de todos os açoreanos e de todos os madeirenses aumentou muitíssimo.

À conta da dívida…

Não foi bem assim. Passaram a ser regiões ultra-periféricas e com isso foram buscar outro tipo de subsídios à União Europeia. Antes, a vida nos Açores e a Madeira era uma miséria franciscana. Se olharmos para o Algarve, que é uma zona rica, percebemos que também devia ser uma região autónoma; está a ser sangrado pela despesa lisboeta. Fazer um parlamento sai caro? Bom, podem fazer uma assembleia regional, ou algo no género, entre presidentes de câmara. O Algarve está a ser desfeito e engolido, à parte agrícola já ninguém liga, porque Lisboa só pensa na construção civil e no turismo. Mas quem lá está é que sabe. Antigamente as pessoas do campo não tinham a quarta classe, mas hoje todos têm uma licenciatura, sabem muito bem o que querem. Só que as pessoas vão tirar os cursos a Lisboa, ao Porto ou a Coimbra e já não regressam às suas terras, porque não têm lá emprego. E podia fazer-se uma legislação a sério para combater isso.

créditos: Rodrigo Mendes | MadreMedia

O que é uma legislação a sério?

Por exemplo, porque é que os ministérios hão de estar todos em Lisboa? E porque é que os principais organismos públicos hão de estar em Lisboa ou no Porto? Em Arronches ninguém fica, porque lá não há nada. Tem de haver descentralização, tem de haver poder local para que as pessoas possam lá ficar: correios, tribunais, etc. E isto começa logo pelos círculos eleitorais: Portalegre tem dois deputados, Évora tem três e Beja tem três. Ou seja, um terço do país tem oito deputados, num total de 230. O Algarve elege nove. Os deputados, se fossem chamados à pega, tinham de lá estar, tinham de criar lá estruturas, senão não eram reeleitos.

O pior erro deste governo? É António Costa. Se fosse outro líder seria diferente, penso que com António José Seguro haveria mais democracia

Qual é, para si, o pior erro deste governo?

O pior erro deste governo? É António Costa. Se fosse outro líder seria diferente, penso que com António José Seguro haveria mais democracia.

O artigo foi publicado originalmente em SAPO 24.

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