Colza: a aprender no terreno

Colza: a aprender no terreno

As sociedades agrícolas da Quinta da Alorna e da Lagoalva de Cima, ambas no Ribatejo, receberam o primeiro dia de campo do grupo operacional Oleocolza, que está a testar em Portugal diversas variedades de colza, como cultura de rotação de alto rendimento.

Quem não conhecer a colza e se aproximar dos campos salpicados por uma pequena multidão de abelhas, à volta das garridas flores amarelas, decerto não imaginará que, num futuro cada vez mais próximo, aquelas plantas podem representar uma cultura de rotação de alto rendimento para Portugal.

Foi aliás com esse objetivo que foi criado o grupo operacional Oleocolza, um consórcio liderado pela ANPOC (Associação nacional de Produtores de Cereais, Oleaginosas e Proteaginosas), que inclui também entidades como o INIAV, a Cersul (Agrupamento de Produtores de Cereais do Sul), a Consulai, a Sovena e ainda as sociedades agrícolas Agro-Vale Longo, Torre das Figueiras, Lagoalva e Quinta da Alorna. E foi precisamente nestas duas últimas, situadas no Ribatejo, que teve lugar o primeiro dia de campo do projeto, uma iniciativa realizada a 19 de março, “com o objetivo de trocar informação entre os diferentes parceiros deste projeto”, conforme explica à Vida Rural o presidente da ANPOC, Bernardo Albino.

Uma cultura de rotação

A colza é usada para produzir óleo, que tanto pode ser utilizado na indústria alimentar como no fabrico de biodiesel, mas “além do interesse económico”, como sublinha Bernardo Albino, “também pode ser importante no respeitante à rotação de culturas, tanto do ponto de vista da estrutura do solo, como na gestão natural de infestantes, criando uma resposta natural a esse problema”. Por outro lado, realça, “permite também um aproveitamento pecuário, através da palha, que serve para alimentar o gado”. Para este responsável, “trata-se de uma cultura muito interessante em solos não muito férteis e com pouca água”.

Ao abrigo deste grupo operacional, existem dois campos de ensaio no Ribatejo, outros dois no Alto Alentejo e ainda mais um no Baixo Alentejo, que permitem testar, em ambientes distintos, as dez variedades de colza em estudo, bem como misturá-las com outras culturas, fazendo ensaios de rotações com ervilha ou trigo, como se faz, por exemplo, na Quinta da Alorna, a exploração que recebeu este primeiro dia de campo. “Já vamos no terceiro ano de produção e temo-la testado de várias formas. Junto aos pivots de rega não nos entusiasmou muito, mas em sequeiro, como estamos a cultivar agora, revela-se bastante mais interessante”, refere Pedro Mascarenhas, o diretor de produção da Quinta da Alorna, para quem “o facto de Portugal ser deficitário na produção de óleos vegetais também ajuda a tornar esta cultura mais atrativa”, até porque “o preço contratado com a Sovena previne eventuais surpresas”, decorrentes das oscilações do mercado.

Campo experimental de colza na Quinta da Alorna

‘Pegada’ baixa, rentabilidade alta

No ano passado, a sociedade agrícola da Quinta da Alorna produziu “cerca de duas toneladas”, que contribuíram para um valor total próximo das 6 mil toneladas produzidas em Portugal, onde atualmente haverá “cerca de 1700 hectares” dedicados ao cultivo da colza, segundo revela José Pereira, o representante da Sovena nesta visita ao terreno. “Há poucos anos já chegaram a ser quase cinco mil hectares, mas neste momento, devido a fatores climatéricos essa área está um pouco mais reduzida”, sustenta. Nada, ainda assim, que desanime o principal comprador de colza a nível nacional: “Muito pelo contrário, trata-se de uma cultura com um risco associado muito baixo e com uma necessidade muito reduzida de água”. Por tudo isto, José Pereira considera tão importante este projeto, “não só para testar a cultura e prevenir incompatibilidades, como também para avaliar o potencial produtivo”. Com uma “pegada de carbono bastante baixa”, conforme é atestado pelo certificado ambiental legalmente obrigatório, “a maior parte do óleo de colza obtido em Portugal é usado na produção de biodiesel”. Ainda de acordo com José Pereira, os custos de produção andarão” à volta dos 400 euros por tonelada de semente”, mais ou menos quantidade necessária para um hectare de terreno, que correspondem a “um lucro na ordem dos 50 por cento” do valor investido. “Valores interessantes”, como os considera Bernardo Albino, lembrando que, neste momento e além da Sovena, existe outro comprador nacional e mais dois espanhóis, os quais “garantem, de forma estável, o escoamento da produção”.

Iniciado em 2017, o grupo operacional Oleocolza espera começar a apresentar os primeiros resultados já no próximo ano, conforme adianta Rui Almeida, o representante da Consulai, que classifica este projeto como um “processo de inovação aplicada, composto por todas as áreas do mercado” – produção, indústria, investigação e divulgação. “Ainda há muito trabalho a fazer”, reconhece por seu turno Bernardo Albino, mas que “os indicadores são muito bons”, lá isso são.

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O artigo foi publicado originalmente em Vida Rural .

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