Ainda sobre os incêndios – Duarte Marques

Para discutir com o mínimo de seriedade o tema dos incêndios é útil partir de algumas premissas que todos nós já assumimos (políticos, autarcas e especialistas dos mais diversos sectores): o fenómeno dos incêndios não se resolve sem uma intervenção de fundo na gestão da floresta e do território e isso demora pelo menos 20 anos a ter resultados. Mesmo as medidas de proteção como a limpeza de faixas junto às estradas ou a criação de circulares à volta das aldeias ajudam apenas a reduzir os riscos e a criar condições para ajudar a “domar” alguns incêndios.

Tendo consciência deste aspeto, quer da profundidade da reforma quer do espaço temporal necessário, cumpre ao Estado garantir um dispositivo de combate a incêndios que possa proteger a população e os seus bens de uma circunstância de termos um território cheio de combustível e um clima cada vez mais propício a grandes incêndios. Aqui é útil notar que nunca o Estado nem os municípios terão capacidade para ter um dispositivo tal, de operacionais e de equipamento, que permita em cada concelho ter capacidade autónoma para dar estas respostas.

O terceiro aspeto que me parece útil aqui referir prende-se com a eficácia e o dano. Grosso modo, o dispositivo de combate existente consegue extinguir 95% dos focos de incêndios na primeira hora, ou seja, no ataque inicial. No entanto, os 5% de fogos que “fogem” são responsáveis por grosso modo, 95 % da área ardida. Isto quer dizer que a eficácia do combate é elevadíssima, mas que denotamos uma grande incapacidade a lidar com os grandes fogos. Qualquer leigo concluirá com estes dados que o nosso foco deverá ser: aumentar ainda mais a eficácia do combate inicial – qualquer subida de 1% reduzirá imenso a área ardida – e melhorar sobremaneira o ataque ampliado, o combate aos grandes fogos. É aqui que a estrutura mais tem falhado e onde parece não haver qualquer evolução.

Quarto aspeto: enquanto os incendiários, as grandes celuloses e o eucalipto continuarem a ser o bode expiatório para mascarar a falta de ordenamento do território e a falta de coordenação da Proteção Civil, então muito pouco mudará.

Perante esta realidade e conscientes das dificuldades, cabe aos responsáveis políticos fazer as reformas do território que produzam resultados no futuro e garantir que no combate fizeram tudo o que estava ao seu alcance para evitar danos maiores. Se o clima não conseguimos controlar, temos pelo menos a responsabilidade de garantir que os meios chegam ao terreno a tempo, que os operacionais estão treinados, motivados e articulados.

Se estas conclusões são praticamente aceites por todos, porque existe então tanta polémica? Porque o que sobra em arrogância falta em competência e bom senso. Pois se há tema em que era necessário existir um acordo de regime seria numa reforma como esta que produz resultados a 20/30 anos. Um governo refém de partidos como o Bloco ou do PCP, ou focado apenas numa agenda de propaganda eleitoral, nunca conseguirá fazer uma reforma desta profundidade. Por outro lado, e face às tragédias de 2017, a humildade do Governo seria fundamental para garantir apoio político ao que está em curso. Mas não. Humildade e bom senso é algo que rareia na equipa da Administração Interna. Mesmo tendo consciência que estas reformas demoram tempo, o Ministro Cabrita tem como mote da sua gestão da Proteção Civil duas premissas: “temos o maior dispositivo de sempre” e os alertas da oposição “são apenas má consciência e fakenews”, premissas essas que a realidade tem desmentido. Ora, esta insolência e arrogância de Eduardo Cabrita, que embaraça até colegas de Governo, em nada ajuda a garantir a colaboração de todos neste desígnio que é nacional. Por outro lado, nota-se uma tentativa diária de mostrar mais do que aquilo que realmente se faz. Ou seja, a propaganda ultrapassa seriamente a realidade e as reformas feitas. E não havia necessidade pois todos aceitamos que estas coisas demoram o seu tempo e o reforço da qualidade do combate a incêndios é muito mais importante do que qualquer disputa política.

É por tudo isto que devemos ser tolerantes com a demora na realização de algumas reformas, mas implacáveis com a má gestão e a propaganda. Não podemos ficar calados quando o Governo não faz tudo o que está ao seu alcance. Depois do que aconteceu em 2017 não podemos tolerar que 50% dos meios aéreos contratados não estejam no terreno quando se inicia a época de fogos, que em finais de julho os três Kamovs alugados estejam no chão, que se esteja a dever dinheiro aos bombeiros desde 2018, que se gaste mais dinheiro em merchandising do que em algumas ferramentas que bem falta faziam aos operacionais, que as Diretivas Financeira e Operacionais sejam aprovadas a dias do início da época de incêndios, que a estrutura de comando que falhou em 2017 esteja ainda em funções, que o SIRESP continue a falhar…

O que Cabrita ainda não percebeu é que a reforma da Proteção Civil não se faz com propaganda e arrogância, faz-se com bom senso e com a ajuda de todos. O que Cabrita ainda não percebeu é que a reforma da Proteção Civil não se faz colocando Bombeiros contra GNR ou Militares contra Sapadores. O que Cabrita ainda não percebeu é que para mudar alguma coisa é preciso ter coragem e combater as corporações e os interesses do costume. O que Cabrita ainda não percebeu é que a estrutura e a doutrina que colapsaram em 2017 é a mesma que está hoje em funções. O que Cabrita ainda não percebeu é que o seu papel não é combater a oposição, mas sim os incêndios que vão dando cabo do país. O que Cabrita ainda não percebeu é que é o ministro da segurança dos portugueses e que já não é o caceteiro de serviço.

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O artigo foi publicado originalmente em Expresso.

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