Produtores europeus, apoiados por investigação financiada pela União Europeia, estão a adotar práticas de proteção integrada das culturas que reduzem o uso de pesticidas químicos, preservam a biodiversidade e mantêm a viabilidade económica das explorações.
Em Tourinha, a norte de Lisboa, o agricultor Bruno Neves percorre campos e estufas de alface, pepino e couve portuguesa onde joaninhas e outros insetos benéficos desempenham um papel central no controlo de pragas. A opção por trabalhar com a natureza, em vez de recorrer sistematicamente a produtos químicos, é o princípio base da proteção integrada das culturas, conhecida como Integrated Pest Management (IPM).
“Criar boas condições para os insetos viverem na exploração é essencial. Não podemos lutar contra a natureza; devemos vê-la como nossa aliada”, afirma o agricultor, que tem vindo a reduzir drasticamente a utilização de pesticidas.
A IPM combina várias técnicas agrícolas, como a rotação de culturas, a escolha de variedades mais resistentes e o recurso a métodos de controlo biológico, incluindo joaninhas, vespas parasitárias e fungos benéficos. O uso de pesticidas não é proibido, mas é reservado para situações específicas, aplicando-se apenas quando necessário e de forma a minimizar riscos para a saúde humana, os polinizadores e o ambiente.
Apesar de esta abordagem ser obrigatória na União Europeia desde 2014, a sua adoção tem sido limitada. A maioria dos agricultores continua dependente de pesticidas químicos, que contribuem para a poluição do solo, da água e do ar, afetam a biodiversidade e estão associados a riscos para a saúde.
Bruno Neves integrou o projeto IPMWORKS, uma iniciativa financiada pela União Europeia que decorreu entre 2020 e abril de 2025. O objetivo foi demonstrar que é possível produzir de forma sustentável, reduzindo o uso de pesticidas sem comprometer a produtividade ou o rendimento.
“O objetivo do IPMWORKS é produzir culturas saudáveis e gerir doenças, infestantes e pragas com menos pesticidas”, explica Nicolas Munier-Jolain, investigador do Instituto Nacional de Investigação para a Agricultura, Alimentação e Ambiente de França e coordenador do projeto.
Segundo o agricultor português, os resultados são claros: “No ano passado, só apliquei tratamentos químicos três ou quatro vezes. Há explorações que pulverizam duas vezes por semana.”
Um dos pilares do projeto foi a criação de farmer hubs, redes de agricultores apoiadas por técnicos e investigadores, que facilitaram a partilha de experiências e soluções práticas. Para Jolien Claerbout, investigadora belga da consultora agrícola Inagro, o papel destes grupos foi decisivo para gerar confiança e acelerar a adoção de práticas alternativas.
“Os agricultores precisam de tempo e de exemplos concretos. Estes espaços permitiram trocar experiências e encontrar soluções conjuntas”, sublinha.
Além dos benefícios ambientais, a investigação demonstrou que a proteção integrada é economicamente viável. “Mostrámos que uma IPM holística é custo-eficaz e oferece melhor controlo de pragas, reduzindo a dependência de pesticidas caros, muitas vezes sem perda de lucro”, refere Munier-Jolain.
Ainda assim, persistem resistências. O receio de perdas económicas e a falta de incentivos financeiros são apontados como obstáculos. É uma questão de mentalidade. Muitos agricultores têm medo de desvalorizar a produção.
De acordo com dados europeus, a expansão da proteção integrada poderia permitir uma redução de até 50% no uso de pesticidas, sem comprometer a segurança alimentar. Tal teria impactos significativos na qualidade da água, na saúde dos solos e na biodiversidade.
A investigação referida foi financiada pelo programa Horizon Programme da União Europeia. Mais informações, incluindo materiais de formação e ferramentas práticas, estão disponíveis no site do projeto IPMWORKS e na plataforma europeia CORDIS.
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O artigo foi publicado originalmente em Rede Rural Nacional.














































