África é campeã dos incêndios florestais

África é campeã dos incêndios florestais

Os incêndios florestais são uma técnica antiga para limpar terrenos e desflorestar zonas para cultivo

Não há dia em que alguma parte do planeta não arda e África é a campeã dos incêndios, diz a NASA. Acontecem várias vezes ao ano e em diferentes partes do continente e são, sobretudo, fogos agrícolas, com alguns a ficarem descontrolados. Contribuem para fertilizar a Amazónia, a milhares de quilómetros de distância, com fósforo, dizem os especialistas, e até ajudam a arrefecer o planeta. Mas também contribuem para o efeito de estufa.

O continente africano é vítima de 71% dos fogos globais, mesmo que pouca atenção lhe seja dada, diz a NASA. A maioria dos fogos acontece nas épocas secas, na esperança de se preparar o solo para a época da colheita. Há duas épocas distintas, derivadas do clima: entre Novembro e Março, na África subsariana, e Junho a Setembro, no Sul de África.

Incêndios em Junho de 2019 Earth Observatory, da NASA

Os incêndios agrícolas, uma técnica antiga, continuam a ser usados pelos agricultores do continente por serem de baixo custo e tecnologia, com a maioria dos campos agrícolas a terem menos de 100 hectares, explica a NASA. No entanto, é difícil ter-se uma noção de quantos incêndios são ateados e a área ardida, dependendo muito da capacidade dos satélites e análise de imagens. Em 2016, por exemplo, arderam quatro milhões de km/2, segundo os autores de um estudo publicado na revista Remote Sensing of Environment, na edição de Março.

“As cinzas produzidas dão ao solo recém-desmatado uma camada rica em nutrientes para ajudar a fertilizar as plantações”, continua a agência espacial norte-americana, sublinhando que muitas vezes os “fogos ateados para renovar campos agrícolas ficam fora de controlo por causa de ventos e tempestades”. As respostas das autoridades são muito escassas, permitindo-lhes crescer e avançar com pouca resistência pela frente.

Os incêndios são tantos e, por vezes, tão fortes que nuvens de fumo gigantescas se formam, impedindo a radiação solar de chegar ao solo, argumentou o cientista Xiaohong Liu, da Universidade do Wyoming, nos Estados Unidos, num artigo publicado na Proceedings of the National Academy of Sciences. As conclusões basearam-se em dados recolhidos pela Estação Espacial Internacional e em momento algum contradizem o facto de a nuvem de fumo ser prejudicial para o efeito de estufa.

Algumas estimativas sugerem que as emissões de carbono podem exceder as 400 milhões de toneladas todos os anos, das quais 6.7 milhões são partículas microscópicas, escreveu o The Conversation. Entre estas, há 375 toneladas de partículas negras capazes de absorver a luz solar. “Calcula-se que os incêndios contribuem entre 25 a 35% para as emissões anuais de gases de efeito de estufa”, afirma a NASA.

Mas essas nuvens trazem consigo importantes nutrientes para que a Amazónia se regenere e cresça. “O fumo da biomassa africana ardida era uma fonte muito importante não apenas de fósforo, mas de várias formas de fósforo já preparadas para processos biológicos”, explicou Cassandra Gaston, investigadora da Universidade de Miami, nos Estados Unidos, ao NewsCientist. Os ventos atlânticos transportam as partículas de fumo, entre as quais fósforo, até à Amazónia, ajudando a fertilizá-la e influenciando a quantidade de dióxido de carbono que pode processar.

Contudo, a situação mudou neste Outono, quando se constatou que a circulação da poeira foi menor que nos anos anteriores, alerta Gaston. A especialista não avançou causas para esta situação.

Incêndios em África em Janeiro de 2019 Earth Observatory, da NASA

Os incêndios agrícolas são também a razão para os fogos que atingem o Vietname, Birmânia, Camboja e Laos, numa estratégia usada há séculos para a limpeza dos solos. Os pequenos agricultores cortam as árvores, deixam-nas secar e depois pegam-lhe fogo, limpando terrenos de mata para fins agrícolas, enquanto alguns caçadores usam as chamas para verem as suas presas à noite. Não é raro incêndios ficarem fora de controlo. À semelhança das culturas africanas, a agricultura destes países também é de baixos custos e tecnologia, e o arroz é uma das principais colheitas. 

Também na América do Sul os incêndios têm motivações similares, ainda que a estrutura económica seja diferente. Há quem ateie fogos para abrir áreas para a pecuária e plantações – é o caso do que tem acontecido no Brasil, principalmente na Amazónia, nas últimas duas semanas –, numa perspectiva bastante mais industrial que em África ou Sudeste Asiático. As queimadas são ilegais entre 15 de Julho e 19 de Agosto, mas, ignorando a lei, são feitas na mesma e há cinco anos que o Brasil já não ardia tão intensamente. 

Continue a ler este artigo no Público.

Comente este artigo
Anterior AgroSemana. Feira Agrícola do Norte está de volta à Póvoa de Varzim
Próximo AgroSemana é palco do lançamento nacional da ferramenta OiRA Agricultura

Artigos relacionados

Últimas

“Num futuro próximo a carne será paga também com base na sua qualidade”

João Diogo Ferreira, Médico Veterinário formado pela Faculdade de Medicina Veterinária, Pós-graduado em Gestão Empresarial, Sócio Gerente AGRIANGUS e Vice-Presidente do Concelho Técnico e Consultivo da Aberdeen-Angus Portugal
É […]

Dossiers

Crédito Agrícola e a Farmcontrol assinam protocolo de colaboração

O Crédito Agrícola estabeleceu uma parceria com a Farmcontrol, empresa especialista em pecuária de precisão […]

Notícias PAC pós 2020

Los productores de maíz de León también se concentrarán ante el Ministerio en contra del Plan Estratégico de la PAC

La organización agraria ASAJA León ha comunicado a la Delegación del Gobierno en Madrid la intención de celebrar una concentración de protesta, de agricultores productores de maíz […]