As propriedades medicinais das plantas devem-se à capacidade de várias espécies vegetais de produzir e armazenar substâncias biologicamente ativas, também conhecidas como princípios ativos.
O valor terapêutico destas plantas está relacionado, mais especificamente, com a sua capacidade de sintetizar metabolitos secundários, ou seja, moléculas orgânicas que desempenham funções cruciais às suas defesas e sobrevivência.
Enquanto os metabolitos primários – hidratos de carbono, proteínas, lípidos e ácidos nucleicos – são indispensáveis ao desenvolvimento e funcionamento de todas as plantas, os metabolitos secundários têm sobretudo funções defensivas: protegem-nas de herbívoros, microrganismos patogénicos e condições ambientais adversas.
Alcaloides, flavonoides, terpenos e compostos fenólicos são exemplos de metabolitos secundários responsáveis pelas propriedades medicinais das plantas. Embora tenham evoluído como mecanismos de defesa vegetal, podem também induzir efeitos benéficos no organismo humano, como ações anti-inflamatórias, antioxidantes, antimicrobianas, analgésicas ou sedativas.
A evidência destes benefícios explica a razão pela qual determinadas plantas são usadas, há milhares de anos, com fins medicinais, mesmo nos tempos em que eram desconhecidas as suas propriedades e a forma de atuação dos seus compostos químicos.
A variabilidade das propriedades medicinais das plantas
A composição e a concentração dos compostos presentes nas plantas não são fixas. Dependem de vários fatores, entre os quais:
- a parte da planta utilizada;
- as condições ambientais (temperatura, disponibilidade de água e luz);
- a idade da planta e a fase do seu ciclo de vida (fenologia);
- a presença de ameaças ou stress químico ou biológico.
Esta variabilidade faz com que as propriedades medicinais das plantas difiram entre espécies (e até dentro da mesma espécie), o que justifica a importância da correta identificação da planta, da sua proveniência e da parte usada para garantir a eficácia e a segurança dos preparados à base de plantas. Adicionalmente, os seus efeitos no organismo podem ser influenciados pelo método de extração e de preparação dos produtos ou medicamentos à base de plantas.
Além de poderem ser extraídos e preparados por diferentes métodos, os compostos ativos das plantas podem apresentar-se sob diferentes soluções, sendo comuns, entre outras:
- chás, infusões e decocções (fervuras);
- xaropes, macerados e tinturas;
- extratos líquidos ou secos;
- pomadas e compressas;
- cápsulas e comprimidos.
A escolha do método e forma de apresentação depende do tipo de substâncias ativas presentes e da sua estabilidade aos processos que as transformam. Por exemplo, algumas degradam-se com o calor, enquanto outras exigem fervura para serem extraídas.
Ativos das plantas são naturais, mas também são químicos tóxicos
Apesar da sua origem natural, os ativos que estão na origem das propriedades medicinais das plantas são substâncias químicas. “Os compostos que retiramos da natureza são tão ‘químicos’ quanto os isolados ou sintetizados em laboratório”, lembra o Observatório de Interações Planta-Medicamento, que acrescenta: o carácter “tóxico das substâncias não é menor ou maior por elas serem naturais (…)”.
O efeito – terapêutico, adverso ou tóxico – depende da dose, da sensibilidade individual e das interações com medicamentos. Por exemplo:
Castanheiro-da-Índia
Usado na fitoterapia para melhorar a fragilidade capilar e a insuficiência venosa, o castanheiro-da-Índia (Aesculus hippocastanum) pode ter interação medicamentosa com anti-inflamatórios, anticoagulantes e medicamentos para reduzir os níveis de açúcar no sangue (hipoglicemiantes), intensificando os seus efeitos ou afetando a sua eficácia.
Pilriteiro
Valorizadas em produtos tradicionais para aliviar queixas cardíacas temporárias relacionadas com sintomas leves de ansiedade (palpitações) e stress, assim como para ajudar a dormir, as folhas e flores do pilriteiro (Crataegus monogyna) podem causar desordens gastrointestinais (náuseas e dor abdominal), assim como reações nos tecidos cutâneos e subcutâneos (erupções e comichão).
Ginkgo
Utilizado, por exemplo, em casos de vertigens e zumbido (tinidos), o ginkgo (Ginkgo biloba) pode potenciar a ação de anti-inflamatórios e anticoagulantes, aumentando o risco de hemorragia. A administração de ginkgo pode ainda diminuir a ação de anticonvulsivantes e intensificar a de antidepressivos, além de aumentar alguns efeitos secundários destes compostos, como as dores de cabeça, tremores e surtos maníacos.
Bétula
As folhas de bétula (Betula pendula, Betula pubescens e seus híbridos) são usadas historicamente em preparados para problemas menores do trato urinário. Contudo, podem provocar efeitos gástricos adversos (diarreia, náuseas e vómitos) e reações alérgicas (comichão e erupção cutânea, congestão e corrimento nasal). Estão contraindicadas em pessoas com hipersensibilidade ao pólen e restrições de ingestão de líquidos (doentes renais, por exemplo).
Para beneficiar das propriedades medicinais das plantas e evitar os potenciais riscos, o seu uso terapêutico deve ser feito com aconselhamento de um profissional de saúde qualificado – um médico ou um fitoterapeuta, por exemplo.
O reconhecimento ancestral das propriedades medicinais das plantas
O uso de plantas para fins terapêuticos é uma das práticas mais antigas da humanidade – transversal a praticamente todas as culturas – e o reconhecimento de alguns dos seus benefícios para a saúde é anterior à caracterização das plantas e das suas propriedades medicinais.
Uma das evidências escritas mais antigas do uso de plantas medicinais tem cerca de 5 mil anos: uma placa de argila suméria, de Nagpur (atual Índia), com 12 receitas para preparar medicamentos, que refere mais de 250 plantas. Embora menos antigos, foram também relevantes noutras culturas:
- Os escritos atribuídos ao mítico Imperador da China, Shen Nung, considerado o pai da medicina tradicional chinesa (cerca de 2700 a.C.). Diz-se que foi ele quem descobriu acidentalmente como fazer chá;
- Várias obras religiosas – os Vedas, os livros sagrados indianos, a Bíblia e o Talmude, o livro sagrado judaico – que mencionam rituais e tratamentos com plantas;
- O Papiro de Ebers, do Antigo Egito, um tratado médico escrito por volta de 1550 a.C., que apresenta uma coleção de 800 prescrições com 700 espécies de plantas;
- Várias obras clássicas, como a Ilíada e a Odisseia, de Homero, em que já eram referidas 63 espécies de plantas de farmacoterapias antigas – minoica, micénica e egípcia-assíria.
Este conhecimento empírico foi sendo progressivamente testado, refinado e, em muitos casos, validado pela ciência moderna, ajudando a explicar a que se devem as propriedades medicinais das plantas e como podem ser usadas de forma segura e eficaz.
A identificação sistemática das plantas, essencial para a sua correta utilização, deve muito aos trabalhos de botânicos e taxonomistas, como Teofrasto, que classificou “todas as plantas conhecidas”, ou Pedânio Dioscórides, o fundador da farmacognosia, que estudou os ativos de origem biológica com interesse medicinal.
O artigo foi publicado originalmente em Florestas.pt.

















































