Enquanto as estradas de Espanha se enchem de tratores e Madrid treme com a indignação dos nossos vizinhos, em Portugal reina uma calma desconcertante. Se o Acordo UE-Mercosul é igual para toda a Península Ibérica, o que justifica este silêncio? Dizem-nos que é porque Portugal vai ganhar no vinho e no azeite. Mas será que vai mesmo? Ou estaremos a trocar a nossa soberania alimentar por uma miragem de mercado e uma concorrência que não conseguiremos vencer?
O Mito do “Eldorado” Brasileiro
A narrativa oficial, defendida por muitos em Lisboa, é que Portugal deve aceitar o sacrifício da sua pecuária e cereais porque, em troca, ganharemos acesso livre a um mercado de 200 milhões de consumidores no Brasil.
Mas é preciso ser sério e fazer as contas: Quantos desses 200 milhões têm, efetivamente, capacidade financeira para comprar o azeite e o vinho português?
O Brasil é um país de contrastes violentos. O azeite Virgem Extra e os vinhos DOC portugueses não são produtos de primeira necessidade; são produtos premium, de luxo para a grande maioria da população sul-americana. Estamos a sacrificar a produção de alimentos básicos em Portugal (carne e pão) para tentar vender produtos de luxo a uma elite brasileira restrita. Acreditamos que a dimensão desse mercado é uma ilusão estatística que não compensará a destruição do nosso tecido produtivo no interior.
O Vinho: Quem tem medo dos Argentinos e Chilenos?
Há ainda uma ingenuidade perigosa no setor vitivinícola nacional. Acreditam que o acordo é uma via de sentido único para escoar o nosso vinho. Esquecem-se que, se a porta se abre para lá, também se abre para cá.
O Mercosul alberga alguns dos maiores e mais eficientes produtores de vinho do mundo. A Argentina (membro pleno) produz vinhos a custos imbatíveis e com escalas industriais. O Chile, fortemente integrado na região, é uma potência global.
Ao derrubarmos as barreiras aduaneiras, não estamos apenas a facilitar a entrada do nosso vinho no Brasil; estamos a convidar os vinhos argentinos e chilenos a entrarem na Europa e a competirem connosco no próprio mercado sul-americano sem as proteções atuais. Será que o vinho português, com os seus custos de produção europeus, aguenta o embate direto com o Malbec argentino? Talvez o setor do vinho esteja a celebrar um acordo que, a médio prazo, será o seu pesadelo.
Espanha vs. Portugal: A Luta pelo Volume vs. A Ilusão do Valor
É aqui que se entende a diferença de postura. Espanha, o “lagar do mundo”, sabe fazer contas. Os agricultores espanhóis perceberam que o ganho marginal na exportação não paga o prejuízo brutal na pecuária e nos cereais.
Por isso, as grandes federações espanholas (ASAJA, COAG, UPA) uniram-se e puseram os tratores na rua. Eles sabem que um país não se alimenta apenas de exportações gourmet.
O Paradoxo das Confederações Portuguesas
Em Portugal, vivemos o paradoxo. A CAP considera o acordo “positivo” porque representa uma elite agroindustrial focada na exportação, disposta a arriscar tudo na “miragem” do mercado brasileiro.
Do outro lado, temos a CONFAGRI. Teoricamente, representa a lavoura tradicional, as cooperativas, o leite, a carne, os cereais – as primeiras vítimas deste acordo. Dizem-se contra nos gabinetes, mas a sua passividade é ensurdecedora. Ao não mobilizar as suas bases e não colocar um único trator na rua, deixam passar a mensagem política de que o setor aceita o acordo. É uma demissão histórica da defesa do mundo rural.
Conclusão
A APROSERPA recusa-se a alinhar nesta “troca por troca”. Não aceitamos que se venda a nossa pecuária e os nossos cereais por uma promessa incerta de vender mais garrafas de vinho a uma elite brasileira, correndo ainda o risco de sermos invadidos pelos vinhos do Novo Mundo.
É tempo de deixar de olhar para mapas e estatísticas irreais e olhar para a terra. Sem agricultores, não há país. E sem luta, não há futuro.
Fonte: APROSERPA













































